CINEMA

Como Nossos Pais: para todas as mulheres exaustas

“Como Nossos Pais”, a música, foi lançada pela primeira vez em 1976, no álbum Alucinação, de Belchior. No mesmo ano, a canção foi regravada por Elis Regina, responsável pela versão que toca até hoje no inconsciente coletivo dos brasileiros. 1976 foi há mais de 40 anos, mas ainda é uma referência mais do que adequada para estar no título e na trilha sonora de Como Nossos Pais, filme de Laís Bodanzky sobre uma família branca da classe média paulistana – e, principalmente, suas mulheres – no ano de 2017.

Em 1976 ainda vivíamos a ditadura militar no Brasil, mas “Como Nossos Pais” possui um tom bem diferente das grandes canções de resistência que costumamos associar a esse período. Em 1964, Nara Leão cantava “Podem me prender, podem me bater que não mudo de opinião”, e Geraldo Vandré instigou a resistência ao dizer que “quem sabe faz a hora não espera acontecer”, em 1968. É bem diferente de Belchior, que alertava: “Eles venceram e o sinal está fechado pra nós, que somos jovens”. Isso porque mais de dez anos se passaram entre 1964 e 1976 e isso é tempo demais quando se toma chumbo, acumula derrotas e as pessoas ao seu redor estão sendo mortas, presas ou exiladas sem que as coisas melhorem.

Foram 21 anos de ditadura ao todo, tempo suficiente para que boa parte daquela juventude resistente fosse esmagada pela realidade, deixando pra lá algumas lutas e ideais e se acomodando aos poucos naquele lugar de passividade e conservadorismo representado pela figura dos pais, símbolos de um mundo que eles até poderiam rejeitar, mas não conseguiram vencer.

Em Como Nossos Pais, o filme, Rosa (Maria Ribeiro), aos seus quase 40 anos, é filha desse movimento de resistência, uma resistência que ainda respira e provoca, personificada pela figura de sua mãe, Clarice (Clarisse Abujamra). Desde a primeira cena vê-se que o relacionamento das duas é conturbado: num almoço de família no domingo, a mãe não poupa críticas à filha, numa discussão que escala rapidamente para culminar na confissão de que Rosa, na verdade, não é filha do pai que ela tanto adora e defende, mas sim fruto de um caso que Clarice tivera em uma viagem à Cuba.

Clarice representa no filme a geração que viveu a contracultura; intelectual, ela frequentava congressos de esquerda em Cuba e viveu movimentos como o do amor livre e da liberação sexual. Fumante em série, desbocada e combativa, Clarice está longe de ocupar o papel tradicional de mãe associado à passividade, conservadorismo e submissão que se pode supor a partir do título do filme e da música à qual ele faz referência. Numa inversão de papéis, esse lugar acaba sendo ocupado por Rosa, herdeira de uma revolução que ela não conseguiu realizar na própria vida, apesar da fantasia de esquerda festiva e desconstruída de seu cotidiano.

Jornalista frustrada, Rosa queria ser dramaturga, mas ganha a vida escrevendo textos publicitários para uma construtora. Seu marido, um ativista da causa indígena, é o retrato do esquerdomacho: ambientalista, tatuado, moderno e neo-hippie, Dado (Paulo Vilhena) está sempre viajando e não contribui com as tarefas da casa, tampouco pega pra si as responsabilidades diárias com as filhas – peso que recai sozinho sobre Rosa. O pouco que ele faz, como lavar a louça no almoço de domingo, é visto como algo digno de admiração. Além de lidar com a já antiga e conhecida jornada dupla de trabalho feminino, Rosa enfrenta uma crise no casamento, uma culpa que ela também carrega sozinha, já que não tem mais vontade de fazer sexo como antes e Dado é incapaz de enxergar a relação entre as duas coisas. Durante todo o filme ela é atormentada pela dúvida machadiana de não saber se está ou não sendo traída pelo marido.

A vida de Rosa é uma representação bem honesta daquilo que a cartunista francesa Emma ilustrou e cunhou como a carga mental feminina. Esse peso diz respeito não apenas ao trabalho de cuidar da casa, do serviço doméstico e dos filhos, mas à função de gerenciar todas essas demandas para manter tudo em ordem. Isso quer dizer que ainda que o marido lave a louça e pegue as crianças na escola, cabe à mulher o papel de articular essas atividades, enquanto o homem simplesmente as executa. Quando Rosa fica brava ao ver Dado e as meninas brincando na chuva, é porque ela sabe que ele está fazendo algo divertido com as filhas naquele momento, mas se elas ficarem doentes caberá a ela administrar os remédios, ligar para o pediatra, acordar de madrugada para medir a temperatura e sair mais cedo do trabalho para levar a criança no médico. Ainda que nada disso aconteça, ela está ciente dessa complicação em potencial, que é só mais uma dentre as tantas preocupações que ela e boa parte das mulheres precisa equilibrar todos os dias.

Rosa tem um irmão perfeitamente capaz de assumir responsabilidades com a família, mas mesmo com todos os seus problemas com a mãe, é Rosa quem a acompanha no médico e a leva para fazer exames quando Clarice adoece. É de Rosa a responsabilidade de sustentar o pai e lidar com a filha de outro casamento que ele deixa para trás quando decide se separar da segunda esposa. A figura feminina é historicamente associada à vida doméstica e ao papel do cuidado e ainda hoje a administração do lar é centralizada na mulher, seja a dona da casa ou uma empregada doméstica (gerenciada pela dona da casa) – e vale lembrar que a emancipação feminina que acontece às custas do trabalho precarizado de outra mulher não é uma vitória feminista.

Esse trabalho invisível e infinito que toda mulher conhece muito bem mostra que estamos longe do mundo pós-feminista que alguns acreditam que vivemos ao observar a imagem de uma família classe média de esquerda. Ainda somos as mesmas e vivemos como nossas mães e avós.

Várias sinopses e críticas do filme definem Rosa como uma mulher que está sobrecarregada por tentar ser perfeita em tudo, outras descrevem Como Nossos Pais como um filme sobre a jornada de uma mulher em busca de sua identidade após descobrir que o homem que a criou não é seu pai biológico. Discordo das duas visões. Rosa não quer ser perfeita, mas faz o que pode para tentar cumprir com todas as expectativas que existem sobre ela enquanto representante da Mulher Contemporânea. Ainda que a revelação sobre seu pai tenha mexido profundamente com a personagem, ela apenas catalisou a tempestade perfeita que já estava se formando em sua vida, mas que ainda era possível ignorar. A crise de Rosa é o drama da mulher contemporânea de perceber-se fruto de um sonho de liberdade e revolução que nunca se concretizou completamente.

Clarice, sua mãe, ao mesmo tempo que personifica esse sonho, é também quem verbaliza a frustração diante da permanência do cenário patriarcal (“minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo que fizemos…”). Rosa pode não viver exatamente como sua mãe – que pode viver até o fim da vida, individualmente, se considerando uma mulher livre e liberta –, mas o fato de usar All Star, viver num apartamento na Vila Madalena com um marido moderninho não a distancia muito da realidade da geração de sua mãe e das mulheres que vieram antes dela. Misturando antagonismo e afeto, Clarice critica e provoca a filha, mas também é ela que dá força e inspiração para que Rosa comece a buscar seu caminho.

O fato de que ainda temos um longo caminho pela frente fica ainda mais evidente quando paramos para olhar os personagens masculinos do filme, todos eles versões da mesma figura do homem supostamente moderno e desconstruído, que se beneficiou da ruptura dos papéis tradicionais de gênero que eclodiram lá nos anos 60 e abandonou alguns fardos impostos pela masculinidade, mas manteve os seus privilégios – às custas das mulheres.

Eles não precisam mais ter seu valor definido pelo dinheiro ou trabalho, e podem abdicar da obrigação de serem os provedores para se dedicar às suas paixões. O pai de Rosa, Homero (Jorge Mautner), é um artista sensível e amoroso, mas em determinado momento do filme ela lembra que nos intervalos de seu teatro de fantoches ele dava em cima das mulheres (sempre mais novas) ao redor. Dado é o herói da causa indígena e ambiental, mas ausente em suas obrigações com a família e culpa a esposa pela crise no casamento. A maior decepção talvez seja Pedro (Felipe Rocha), o amigo-paquera que de início traz um respiro para a vida de Rosa, um cara legal e atencioso disposto a ouvi-la falar sobre seus problemas e frustrações. Pedro também é pai, desses modernos que leva o filho na escola de bicicleta e faz supermercado. Ele é sensível e incentiva Rosa a continuar escrevendo. Seu discurso para levá-la pra cama é dizer que as mulheres venceram e os homens não são nada, não sabem de nada e que ela é uma supermulher. Pedro é o famoso feministo.

Só que depois Rosa descobre que enquanto ele a seduzia num passeio pela praia em uma viagem a trabalho para Ilhabela, Pedro tinha uma esposa esperando em casa. Seus modos não eram muito diferentes do que ela imaginava que seu marido fazia quando viajava a trabalho. Nada se parece mais com um machista de direita do que um machista de esquerda.

“Isso [o homem feministo] se tornou uma epidemia não porque somos burras, mas porque a nossa parte nessa construção de ideal é achar que uma cultura opressora vai nos dar uma trégua porque o amor é mágico e redime e nós merecemos. Não estou dizendo que estamos erradas em esperar mais do amor, só estou dizendo que este não é o padrão dos relacionamentos hétero e que se iludir sobre isto não muda nada.

Na verdade, e talvez isso soe muito amargo, eu acho que nutrir esses ideais (tanto os antigos quanto os novos) ajuda a manter o mundo como ele está. Não que o teu namorado não possa ser mais legal e menos machista, mas isso é uma exceção, e viver de devaneios sobre exceções é uma forma de se manter escravizada pelo amor. Por estes ideais de amor. E, nós sabemos, o amor real para as mulheres nem sempre é lindo, raramente é mágico e dificilmente salva.”

Mari Messias – Feministos e os ideais, no Lugar de Mulher

Essa solidão de Rosa, apesar de real e pungente, não a transforma em vítima ou mártir do próprio destino, e menos ainda faz de Como Nossos Pais um filme amargo. Ao lado de Luiz Bolognesi, Laís Bodanzky conduz o roteiro com delicadeza e, sobretudo, afeto. No fim das contas, é só quando percebe que nenhum homem é capaz de salvá-la que Rosa descobre que é a única pessoa capaz de libertar a si mesma.

Em entrevistas, a diretora declarou que sua intenção não era rivalizar homens e mulheres, mas expor questões típicas das mulheres dessa geração para que homens e mulheres, juntos, possam recombinar as regras do jogo e criar um mundo melhor – pois, de alguma forma, estamos juntos nessa. Toda a campanha de divulgação do filme foi acompanhada pelo questionamento: Como Nossos Pais é um filme feminista? Uma pergunta feita mais em tom de provocação do que curiosidade, um questionamento para o qual, ainda hoje, parece impossível de se ter uma resposta certa: ruim se for, pior se não for. Não há consenso sobre o que faz uma obra ser feminista, mas um caminho possível é analisar se sua narrativa rompe com padrões de gênero e retrata as mulheres em toda a sua subjetividade. Bia Cardoso, do Blogueiras Feministas, classifica o filme como feminino, não feminista, tendo em vista sua pouca diversidade e também o fato de que Rosa nunca se rebela totalmente; não há uma revolução, seja ela individual ou coletiva.

Em um dos ensaios de A Louca da Casa, a escritora espanhola Rosa Montero rejeita narrativas militantes e panfletárias, seja ela feminista, pacifista ou qualquer outro -ista, “porque escrever para passar uma mensagem trai a função primordial da narrativa, seu sentido essencial, que é o da busca do sentido.”. Embora reconheça o papel de narrativas panfletárias (olá, Mulher-Maravilha), também tendo a me interessar mais por histórias que não trazem em si todas as respostas, mas abrem caminhos para as inquietações – são essas que nos movem e também nos acolhem quando ainda não sabemos para onde ir.

Assim, o caminho da dúvida me instiga mais do que o atestado feminista, um rótulo, aliás, que atualmente só tem servido para sedimentar a ideia exaustiva de que existe um feminismo ideal e perfeito que devemos seguir, um padrão que devemos alcançar depois da luta bastante cansativa de se romper com padrões. É uma etiqueta que, pessoalmente, não me importa, mas a qual acho importante reivindicar tendo em vista o contexto no qual o filme se insere.

Como Nossos Pais é dirigido e escrito por uma mulher, contando a história de uma mulher com a complexidade e sensibilidade de que só outra mulher seria capaz. No mesmo ensaio, Rosa Montero defende que a missão atual das artistas mulheres – ela fala especificamente sobre as escritoras, mas pode-se estender o argumento para as mulheres do audiovisual, terreno onde a presença feminina é ainda mais rara – é construir nosso universo mítico nas artes a partir de nossas vivências específicas. É o que ela chama de nomear o mundo, movimento que se torna ainda mais importante no caso do cinema nacional, que tratamos aqui. Essa é uma tarefa que o filme cumpre com competência.

“(…) à medida que nós mulheres romancistas formos completando essa descrição de um mundo que antes só existia em nosso interior, tornamos esse mundo um patrimônio de todos; e os homens também poderão usar as metáforas sangrentas como se fossem deles, ou tentarão adaptar-se aos nossos modelos de homem, como muitas mulheres tentam ficar parecidas com os modelos de mulher que eles inventaram. Tão poderosa é a imaginação.”

Laís Bodanzky enxerga Como Nossos Pais como um filme crônica, um retrato do que vivemos e pensamos atualmente e que pode mudar logo. É um recorte interessante se pensarmos a partir de um contexto político mais amplo, uma história que se passa quatro anos depois das Jornadas de Junho de 2013, quando por alguns breves segundos acreditamos que poderíamos mudar o mundo, no meio de uma onda conservadora de retrocessos sociais que mostra que talvez o mundo seja mais forte e nós sejamos pequenas demais diante dele. A história da luta das mulheres, em especial, sempre foi marcada por avanços e retrocessos, com nosso cotidiano privilegiado de mulheres meio intelectuais, meio de esquerda ainda reproduz uma estrutura patriarcal e excludente, em que a famigerada Primavera das Mulheres coexiste com projetos de leis que querem tirar a pouca autonomia que temos sobre nosso corpo. Ou seja, tava bom, tinha que mudar era pra melhor, tava meio ruim também, tava ruim, mas agora parece que piorou  o que seria isso se não um resumo do que é ser mulher em 2017?

O embate de Rosa ao longo do filme é o mesmo do narrador de “Como Nossos Pais”, a música, que tenta cavucar alguma esperança no meio da dureza e contingência da realidade. Ao falar de sua composição, Belchior diz que a música possui um tom “amargo medicinal”, que provoca desconforto que nos instiga, em suas palavras, a nos tornarmos personagens de um mundo novo. Como Nossos Pais, o filme, não é amargo, mas é medicinal nesse mesmo sentido. O filme termina como A Casa de Bonecas, de Henrik Ibsen, e não sabemos até que ponto Rosa conseguiu empreender sua própria revolução e mudar a sua vida, mas a deixamos com a consciência de que o novo sempre vem e é rumo a ele que ela deseja caminhar.

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1 Comentário

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    Marivan Barros
    5 de dezembro de 2017 at 07:51

    Texto maravilhoso, obrigada por compartilhar .

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