LITERATURA

Como Falar com Garotas em Festas: somos mesmo de outro planeta?

Eu não sei o que dizer pras garotas.
Elas são apenas garotas. Elas não vêm de outro planeta.”

Não é preciso ir muito longe na internet para descobrir um universo inteiro de dicas, tutoriais e guias detalhados escritos por homens heterossexuais para outros homens sobre como conquistar o sexo oposto. Como conversar com mulheres? Como abordá-las em festas e baladas? Do que elas gostam, no que elas pensam, como você deve agir e o que deve evitar categoricamente? É como se fôssemos de espécies completamente diferentes. Homens, de Marte, mulheres, de Vênus, segundo a sabedoria popular.

Em Como Falar Com Garotas em Festas, adaptação do conto homônimo para o formato graphic novel, pelas mãos talentosas dos irmãos Fábio Moon e Gabriel BáNeil Gaiman fala exatamente sobre as galáxias que supostamente separam os gêneros por meio do toque sobrenatural que é sua marca registrada. Tudo começa na Londres dos anos 1970, no ápice do movimento punk, quando os amigos Enn e Vic entram de penetras em uma festa repleta de garotas “que não são daqui”. Mas de onde elas são, se são apenas garotas?

É interessante notar que a estranheza das meninas apresentadas na história serve bem ao estilo dos gêmeos que ilustram a trama e que não economizam cores fortes para deixar claro que há algo de ‘’mágico’’ ali e não estamos só falando do sexo oposto. Mas é também aí que começam os problemas. Somos rapidamente introduzidos à ideia de que Enn encaixa-se no estereótipo do ‘’garoto sensível’’, enquanto Vic seria o ‘’garanhão’’, mas apesar de receber conselhos do mais experiente, que o orienta sobre falar e ouvir, é o menino esquisito que consegue desenvolver conversas reais com o outro gênero durante a festa, embora seus objetivos sejam tão pouco nobres quanto.

Compartilhando com os autores um olhar que acompanha devagar curvas e decotes, o protagonista, agindo como manda a etiqueta adolescente masculina, vê as garotas do título de maneira predatória, mais como possibilidades e menos como pessoas. Mesmo ouvindo narrativas que perpassam galáxias e universos desconhecidos, seres fantásticos e aventuras espaciais, superado o choque inicial, o garoto conclui que essas meninas devem apenas estar falando sobre ‘’coisas de meninas’’, sempre ininteligíveis, até mesmo nas condições corriqueiras em que os sistemas planetários ficam apenas na vizinhança. Do modo mais raso possível, a aparência exótica e a beleza das moças, somadas à sua linguagem diferenciada, são as caraterísticas definidoras das mesmas dentro da narrativa.

Se a piada se mantivesse em torno da inabilidade social dos garotos com o sexo oposto, Enn em sua timidez e Vic em sua objetificação, a história teria envelhecido de maneira mais agradável desde o seu lançamento dentro da coletânea Coisas Frágeis de 2006. Em vez disso, no entanto, a trama usa suas garotas do título como uma massa amorfa alienígena, que mesmo com biografias próprias, continua pairando apenas como um objeto de cobiça ou uma ameaça para os seus protagonistas.

Antes do seu desfecho, há ainda uma tentativa de metáfora por parte da cena onde Triolet, personagem que se define como um poema, interage com Enn e conta uma parte da sua história, além de ser a única a beijá-lo. É notável que após a experiência o garoto não é mais o mesmo, já que, como é dito, “você não consegue ouvir um poema sem que ele te transforme”. Além da alegoria às primeiras experiências da juventude, esse é também o início de uma tentativa de ver as mulheres ao seu redor como seres palpáveis e não só conceitos, entendendo suas trajetórias e até empatizando com seus sentimentos.

É uma pena que quando a música estranha que toca na festa começa a fazer sentido e a comunicação com as garotas esteja finalmente se estabelecendo, sejamos interrompidos pelo final ambíguo onde a conquista da noite do Don Juan Vic, Stella, após sumir com ele no andar de cima por algum tempo, mostre uma expressão irritada o suficiente para se assemelhar a um universo inteiro em fúria, causando a fuga dos garotos do local. Nunca saberemos se Vic descobriu a verdade sobre essas ‘’estudantes de intercâmbio’’, ou até mesmos se havia uma verdade sobrenatural para ser desvendada. Também não poderemos acompanhar até onde iriam as habilidades de Enn ao travar diálogos com falantes de uma língua estrangeira, sejam elas garotas ou aliens. O que sabemos é que, mesmo sendo uma belíssima adaptação visual de um dos contos mais famosos de Neil Gaiman, com as cores vivas e traços marcantes dos irmãos Moon e Bá, a falta de substância e desenvolvimento das personagens femininas da história não tenham sobrevivido tão bem à prova do tempo quanto uma boa jaqueta de couro ou as músicas de David Bowie.

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a Editora Companhia das Letras.


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