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Crazy Ex-Girlfriend e o futuro das comédias românticas

Há pouco mais de um ano publicamos aqui uma defesa apaixonada das comédias românticas que buscava entender os motivos que levaram à decadência do gênero dos frutíferos anos 90 até o momento em que vivemos agora, em que a desconstrução do amor romântico parece ser a palavra de ordem. Nossa teoria favorita segue sendo a que diz que comédias românticas não atraem mais como antigamente não porque as pessoas não acreditam mais no amor, mas porque elas não acreditam mais nas histórias de amor que estão sendo contadas.

No ano de 2017 do nosso senhor, já nos desiludimos o suficiente para saber que finais felizes não existem, não em definitivo, e narrativas idealizadas perdem espaço para filmes mais realistas que acabam sendo trágicos demais para serem considerados comédias românticas. Aos poucos, temos aprendido a olhar de forma mais crítica a nossa cultura e suas representações, questionando a validade de antigos sucessos, exigindo mais diversidade e qualidade para essas histórias, mas isso não necessariamente significa que as comédias românticas, enquanto gênero, estejam ultrapassadas.

Crazy Ex-Girlfriend é uma série de TV que funciona como uma meta-comédia romântica, uma vez que uma de suas premissas é tentar contar uma história de amor a partir da vida de personagens que existem num contexto profundamente moldado por narrativas distorcidas de amor. Exatamente como o nosso. Todos os personagens, em alguma medida, foram afetados pela ideia de que o amor pode resolver todos os seus problemas e a série se desenvolve de modo que, em diferentes momentos e de diferentes formas, todos descobrem que não é bem assim, o que os força a se confrontar com suas questões jogadas para baixo do tapete — questões essas que, numa outra via, também afetam profundamente a forma como seus relacionamentos amorosos se desenvolvem.  

O exemplo mais claro é, obviamente, o da protagonista, Rebecca Bunch (Rachel Bloom), a ex-namorada louca do título que, por estar infeliz com sua vida em Nova York, larga tudo para ir atrás do ex-namorado Josh Chan (Vincent Rodriguez III) na Califórnia. Rebecca sofre de alguns transtornos psicológicos, tem sérios problemas de autoestima, comportamento autodestrutivo e um relacionamento complicado tanto com o pai como com a mãe; ao mesmo tempo, Rebecca é uma mulher romântica e sonhadora, que cresceu sob a influência de contos de fada, comédias românticas (surpresa!) e sobretudo uma sociedade patriarcal que ensina às mulheres que tudo que precisamos é de um homem que resolva nossos problemas. Não podemos culpá-la por, num momento de desespero, jogar tudo para o alto e perseguir essa suposta felicidade que se materializou por um momento na figura de Josh, que ainda por cima tem um sorriso fácil sempre pronto para salvar o dia.

Ao longo das duas temporadas exibidas até o momento, é como se assistíssemos a duas histórias diferentes acontecendo ao mesmo tempo: uma é a narrativa da cabeça de Rebecca, que se vê como a mocinha da comédia romântica que chega na cidade para reconquistar um antigo amor, uma missão que inclui desfazer o noivado dele com outra mulher, a quem ela enxerga como grande vilã daquela história; a outra é a visão realista dessa trajetória, que confronta o espectador com o absurdo dessa situação, causando um incômodo real ao mostrar que aquela é a história de uma mulher com vários problemas, que acredita que um amor vai fazê-la feliz, e acredita tanto nisso que está disposta a ultrapassar todos os limites, o que, numa leitura simplista, a transforma em uma verdadeira vilã. Assistir Crazy Ex-Girlfriend pode ser enlouquecedor em alguns momentos, um desafio à paciência de qualquer um pois insiste propositalmente num relacionamento que desde o início é fadado ao fracasso. Para quem entendeu o argumento da série, isso não é um spoiler.

Brincar tanto com clichês clássicos de comédias românticas e contos de fada é a maneira de Crazy Ex-Girlfriend de mostrar que a crítica não está na personagem Rebecca, ela não existe de forma isolada — o grande problema é a maneira equivocada que temos contado histórias de amor.

Em Sintonia do Amor, uma das comédias românticas clássicas de Nora Ephron, a melhor amiga da protagonista diz: “Você não quer estar apaixonada. Você quer estar apaixonada dentro de um filme.”. Quando diz isso, ela não está falando somente da forma idealizada como vemos as relações amorosas graças aos filmes, mas também do fato de que filmes, e principalmente os filmes de amor, em sua maioria existem num universo descolado da realidade, onde os limites entre o que é aceitável ou não são confusos e onde os personagens não enfrentam as consequências dos seus atos e nem são confrontados com as consequências deles na vida de outras pessoas.

Crazy Ex-Girlfriend escancara isso e os momentos de maior humor da série (que são ao mesmo tempo muito constrangedores e até mesmo doloridos) são aqueles em que os feitos de Rebecca são expostos publicamente. Um exemplo: depois de mandar sem querer uma mensagem comprometedora para Josh, ela invade a casa dele para apagar a mensagem antes que ele a visualize, mas isso não acontece sem que ela tenha que se envolver numa teia complicada de armações, mentiras e desculpas que, quando é revelada, proporciona um festival de assombro e constrangimento. E com razão, já que o que ela fez foi mesmo absurdo, mas, assim como os colegas de trabalho que encorajaram seu gesto por vê-lo como algo meio romântico, o que não falta — e incomoda — em muitas comédias românticas é como absurdos do tipo são normalizados.

Tomemos como exemplo Simplesmente Amor, filme de Richard Curtis que nos apresenta a várias histórias de amor diferentes que se conectam de alguma forma — no caso do filme, da noite de Natal. Favorito de Harry Styles e Taylor Swift, o filme sempre aparece nas listas de melhores comédias românticas dos últimos tempos, mas não é preciso ser muito crítico para perceber que várias situações apresentadas ali são completamente inapropriadas e descoladas da realidade. Temos Colin Firth, um escritor que se isola num chalé no campo para se recuperar de uma traição e acaba se apaixonando pela governanta, uma moça portuguesa que não fala uma palavra em inglês da mesma forma que Colin Firth não fala português. O filme nos convence que eles se apaixonam um pelo outro mesmo assim, principalmente depois que ela tira a roupa e se joga num lago para recuperar o manuscrito dele, argumento suficiente para que semanas depois ele vá até o vilarejo onde ela mora pedi-la em casamento na frente de sua família e da cidade inteira.

Hugh Grant interpreta um manic-pixie-dream, Primeiro Ministro britânico, que se apaixona por sua secretária porque ela fala palavrão e faz piadas autodepreciativas sobre seu peso, o máximo de personalidade permitida às mulheres desse filme. A paixão, no entanto, não é suficiente pra que ele a defenda de um episódio de assédio sexual por parte do Presidente dos Estados Unidos (!), mas ele fica tão culpado que acaba brigando com o presidente depois. A relação diplomática entre os dois países sai prejudicada por esse grande gesto, mas a única parte interessada — a vítima — perde o emprego e fica por isso mesmo.

Além de contar histórias que, no mundo real, provavelmente acabariam com pelo menos uma das partes presa ou no mínimo enfrentando um enorme constrangimento, Simplesmente Amor se constrói a partir da ideia que todos os problemas são resolvidos a partir do momento em que um casal declara o seu amor pelo outro. Não há conflitos, não há consequências para grandes gestos de amor que envolvem invadir aeroportos e arruinar o casamento do melhor amigo, e é como se não houvesse mais nada na vida daqueles personagens — principalmente as mulheres, que existem apenas para ser objeto de um afeto obsessivo, mas isso é assunto para outro texto — além do relacionamento amoroso que vai se iniciar quando o filme acaba numa promessa de felicidade. A tradução em português do título acaba sendo certeira em uma coisa: o filme trata o amor como uma coisa simples, o que ele não é.

O pior espectador é sempre aquele incapaz de suspender sua descrença, aquele que faz questão de dizer que “essas coisas só acontecem nos filmes” para invalidar alguma obra. Contudo, não podemos ignorar que as representações de pessoas e situações construídas a partir de produtos culturais, principalmente na cultura de massa, moldam a nossa percepção da realidade e a forma como agimos sobre ela. Crazy Ex-Girlfriend é um produto que reflete sobre a própria cultura para mostrar as consequências de narrativas problemáticas de amor romântico na vida de pessoas – vidas que são mais complicadas do que isso. A insistência de Rebecca Bunch em acreditar em sinais, confundir inúmeros sentimentos e gestos com demonstrações de amor, e sua tendência a atitudes impulsivas e inconsequentes nos fazem acreditar que ela assistiu Simplesmente Amor vezes demais. Crazy Ex-Girlfriend mostra que certas coisas — ausência de limites e consequências, amor instantâneo, mulheres sem personalidade e vontade própria — só acontecem mesmo nos filmes e esses filmes estão errados.

O título deste texto aponta Crazy Ex-Girlfriend como o futuro das comédias românticas pois ela é perfeita para nosso tempo, uma vez que existe justamente de maneira consciente da própria cultura, consciente da trajetória que nos trouxe até aqui, seus erros e acertos, de uma forma que seria impossível existir e manter a relevância se não o fosse. Ela é essencialmente feita para a era millennial e um público acostumado e afoito a identificar referências e refletir sobre si mesmo e a própria identidade através de livros, filmes e séries. Na era do textão, as comédias românticas não podem mais se dar ao luxo de querer existir no mundo irreal que concebeu Simplesmente Amor e ainda manter a relevância sem maiores consequências. Somos mais sofisticados que isso, queremos mais e melhor, e é preciso confiar mais no público e não subestimá-lo. 

Embora seja focada na desconstrução de narrativas românticas, a série oferece também amostras de que sabe contar boas histórias de amor. O casal formado por Darryl (Pete Gardner) e White Josh (David Hull), por exemplo, é uma representação bonita de como o amor transforma e liberta: na meia-idade, depois de enfrentar um divórcio traumático, Darryl conhece White Josh, e a atração que sente por ele acaba levando-o a se descobrir bissexual. Embora Darryl tenha levado um tempo para entender o que isso significava, porque, afinal, identidade é mesmo uma coisa complicada de se resolver, a partir do momento que ele entende o que sente, essa nova faceta é abraçada e celebrada. A ausência de sofrimento do processo não é uma representação simplista de algo que pode, sim, ser complicado e sofrido, mas é a escolha dos roteiristas de tratar o tema com uma naturalidade e leveza que não é vista com frequência; é a forma da série de reconhecer que pessoas assim existem, que relacionamentos assim são reais, que eles podem ser felizes, e que já estava passando da hora de uma série de TV retratar isso.

Darryl e White Josh são de longe o casal mais funcional da série, não por não terem problemas, o que eles têm como todo casal, mas porque eles resolvem seus conflitos com diálogo, sinceridade e respeito. Eles reconhecem e respeitam as individualidades de cada um para encontrar um meio termo que seja bom para os dois. Talvez amor seja sobre isso.

Hoje é Dia dos Namorados, e ao longo dessa semana, assim como fizemos ano passado, vamos nos debruçar sobre histórias de amor, as boas e as ruins, porque reconhecemos o quanto elas nos dizem sobre a forma que amamos, o quanto elas afetam nossas percepções sobre o amor e também — e acreditamos que esse seja o principal ponto — a forma como agimos diante dele a partir delas. Não existe nada de simples sobre amar alguém e ter um relacionamento, pois somos pessoas, e pessoas são complicadas, principalmente num mundo marcado por tensões de gênero, raça, classe, dentre outros fatores que não podemos ignorar pois pesam na forma como nos relacionamos com o mundo e com os outros.

O tempo passa e a cultura muda, mas as pessoas continuam se apaixonando, todos os dias, em cada esquina, em todo lugar, e as comédias românticas só vão morrer se não conseguirem mais captar essas mudanças e nuances. A experiência de ter o amor da nossa vida (que podem ser vários e não precisam ser pra vida toda) aparecendo na nossa vida continua sendo mágica, maluca, complexa e bagunçada, e por isso eternamente merecedora de um espaço na nossa cultura. De preferência de forma bem humorada, porque de tragédia estamos cheios e é preciso acreditar.

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