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Clarina: o amor é livre (e o choro também)

O dia 5 de maio de 2011, que tinha tudo para ser um dia como todos os outros, acabou se tornando muito especial por um motivo específico. No meio do ano passado, as redes de notícias do mundo todo acompanharam quando a Suprema Corte norte-americana determinou que nenhum estado poderia impedir duas pessoas do mesmo sexo de se casarem. Por essas bandas, o Supremo Tribunal Federal já tinha feito algo parecido mais de quatro anos antes. Apesar de não ter autorizado o casamento diretamente, exatamente cinco anos atrás o STF reconheceu a união estável homoafetiva.

Infelizmente, quase nada são flores. Se, por um lado, companheiras e companheiros ganharam diversos direitos, por outro, casais homoafetivos até na ficção ainda sofrem boicotes constantes e os autores dependem de autorização da emissora para colocar uma cena de beijo (que mal pode ser chamado de beijo) no ar.

Por esse motivo é que fãs desses casais são obrigados a amargar a espera durante dezenas de capítulos pelo consolo da certeza que aquele casal existe, ele é real, ele não é só uma amizade exagerada. É um relacionamento como qualquer outro.

Foi assim com Clarina. O casal interpretado por Tainá Muller (Marina) e Giovana Antonelli (Clara) na novela Em Família, que alcançou fama internacional e reuniu um fandom gigantesco. E ainda assim nós precisamos mendigar, implorar, levantar hashtags e todo esse tipo de “manifestação” dos tempos modernos para conseguir que — já depois do centésimo capítulo — as duas finalmente dessem um beijo para lá de xumbrega. Foi um beijo tão, mas tão, mas tão xoxo que merecia o prêmio de pior beijo do século. Tão ruim que eu levei uma eternidade para encontrar um gif dele.

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Ocorre que a emissora pensa em cifras. Se pensasse com responsabilidade social nós definitivamente estaríamos muito melhores. O que importava realmente era apaziguar os fãs do casal sem desgostar a família tradicional brasileira que precisa de um entretenimento que não saia da sua zona de conforto.

Diante desses dois interesses completamente incompatíveis, eles optaram por um meio termo que só conseguiu mesmo desagradar aos dois lados. A família tradicional brasileira continuou achando tudo um absurdo, e os fãs se sentiram completamente enganados e injustiçados (com razão).

Tentando melhorar a situação, já que não dava para retirar o beijo e de um dos lados Inês era morta, eles tentaram agradar o lado que ainda tinha salvação. Tivemos mais dois beijos (três beijos! Em uma mesma novela! Uau! Esbanjamos), que amenizaram um pouco o desconforto.

A questão, no fim das contas, vai além da homofobia pra incluir também uma falta de sensibilidade sem tamanho, que só pode ter vindo de gente que nunca na vida se viu na posição de não se ver representado em algo. Muitos fãs estavam ali porque era uma história de amor muito bem encenada e emocionante, sim. Mas muita gente se apegou de verdade a esse casal porque pela primeira vez na vida se viu representado em algo — viu uma história de amor que poderia ser a dela, viu que é possível gostar de meninos e também de meninas e não tem nada de errado nisso, viu que nem sempre as coisas têm que dar errado no final para pessoas como elas.

Uma frase conhecida que nos últimos tempos tem feito cada vez mais sentido para mim é: o pessoal é político. Eu penso nela todos os dias e tento levar esse ensinamento em consideração até nos atos mais simples. Tudo o que se faz, importa – até a forma como você escova os dentes tem potencial para afetar a coletividade. Pode parecer que é só um casal em uma novela – apenas entretenimento, que não acrescenta nada -, mas elas foram transmitidas em rede nacional, e repercutiram em todos os meios de comunicação. E isso conta muito.

Apesar dos pesares, e do excesso ofensivo de zelo e pudor na hora de concretizar o romance com um beijo (algo que deveria ser absolutamente simples e natural), Clarina foi uma história de amor invejável. Cada diálogo, cada interação, cada olhar (que olhares!) transbordou sentimento a um nível que me marcou para sempre – e eu tenho certeza que fez o mesmo por muitas outras pessoas.

Foi um romance muito bem desenvolvido, nada superficial, que desde o começo foi focado em si próprio e nunca buscou agradar o olhar masculino. Talvez aí estivesse parte da origem do incômodo. Apesar de as duas atrizes serem muito bonitas e dentro dos padrões, a relação nunca foi fetichizada. Todo o cuidado do mundo foi tomado para traçar a história do modo mais poético possível, justamente para fugir dessa cilada. Duas mulheres juntas só podem ser toleradas quando estão a serviço do prazer masculino. A rejeição do falo em tantos níveis diferentes de uma vez só é quase uma calamidade.

Fato é que Clarina mudou a minha vida, e tenho certeza que fez o mesmo por muitas outras garotas por aí. O sucesso estrondoso e internacional que fez é sinal de que um nervo foi tocado (para o bem e para o mal). Foi uma história de amor linda, que provou que nós temos tanta capacidade de viver histórias maravilhosas e que emocionam multidões quanto qualquer um. Só é triste perceber o quão raro isso ainda é, e eu espero não ter que viver demais para ver o fenômeno se repetir.

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4 Comentários

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    Dayane Araujo
    5 de maio de 2016 at 23:15

    Sim! Sim! Mil vezes.. SIM! Não acompanhei bem essa novela, mas como essa parte me interessa procurei ficar sabendo pelas redes sociais como o assunto estava sendo tratado e não me agradou de inicio. Principalmente por esse lado de “o povo ser politico” que acho chato, porém é a realidade na qual vivemos. Mas assim como você colocou muitíssimo bem, o romance foi bem desenvolvido e simplesmente por não ter se focado em agradar o olhar masculino que também ganhou meu coração. Excelente texto!

    • Responda
      Paloma
      5 de maio de 2016 at 23:20

      Eu não acompanhava a novela toda também não, Dayane! Mas me apeguei cada vez mais a esse plot específico e nunca mais consegui largar!

      Obrigada pelo elogio 🙂

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    Loisa
    6 de maio de 2016 at 21:59

    Tais palavras são de uma importância sem igual. Considerando que, como foi apontado, mulheres lésbicas são limitadas mesmo dentro do movimento LGBT, a representatividade na mídia é uma chance de perpassar vários obstáculos. Infelizmente, o conteúdo nem sempre é satisfatório, como representado por Faking It, com plots fraquíssimos, sobrevivendo da ânsia por representação do público, e The 100, que vendeu um falso produto que sabia que seria comprado por uma audiência tão fiel. Fica aqui o meu agradecimento pela publicação, pois Clarina, apesar dos pesares, foi extremamente verossímil e bem construído.
    Gracias 🙂

    • Responda
      Paloma
      9 de maio de 2016 at 09:10

      Obrigada você, fico muito feliz que você tenha gostado do texto. Esse casal foi realmente muito importante para mim! ♥

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