LITERATURA

CLAMP: um grupo de mangakás totalmente feminino

Minha história com mangás começou aos treze anos quando, saindo do colégio, resolvi parar na banquinha que ficava ao lado para dar uma olhada nas revistas. Enquanto folheava gibis da Turma da Mônica e quadrinhos de super heróis, meu olhar se fixou, quase sem querer, em uma revista pequena com uma ilustração colorida de uma menina de cabelos castanhos e enormes olhos verdes na capa. Era o primeiro volume de Card Captor Sakura, lançado naquele ano de 2001 no Brasil pela JBC, e de autoria do grupo japonês CLAMP.

Muito embora eu já amasse Sailor Moon e tentasse a todo custo encontrar os mangás da Naoko Takeuchi para ler, naquela época, com internet discada, isso não era tarefa fácil. Card Captor Sakura foi meu primeiro contato com a história original de um anime que eu já assistia há algum tempo, então dá para entender perfeitamente todo o amor que sinto por essa série. Foi a primeira coleção de mangás que completei e a primeira história do grupo CLAMP que li. Daquele dia em diante, saindo da banquinha com meu primeiro mangá comprado e guardado em segurança dentro da minha mochila, me transformei em fã e admiradora dessas artistas para sempre.

CLAMP é um grupo de mangakás (palavra que significa, em japonês, cartunistas) formado exclusivamente por mulheres e existe desde meados de 1980. Originalmente batizado de Clamp Cluster, foi composto por onze artistas, ainda estudantes, que desenvolviam dōjinshis (mangás independentes) mas que começaram a criar trabalhos originais por volta de 1987. Seus mangás independentes eram histórias inspiradas em Capitão Tsubasa além de enredos yaoi (o foco em mangás yaoi é o romance entre personagens masculinos) de Cavaleiros do Zodíaco. O primeiro mangá original do grupo a ser publicado foi RG Veda em 1989 e, naquela época, o grupo inicial de artistas havia se reduzido para sete membros. Após a saída de outras três mangakás em 1993, restaram as quatro mulheres que lideram e mantém o CLAMP até hoje, Ageha Ohkawa, Mokona Apapa, Tsubaki Nekoi e Satsuki Igarashi. 

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As quatro dividem um espaço de trabalho e juntas criam os diversos universos em que suas histórias se passam. Ohkawa é a pessoa do grupo responsável por conversar com a mídia além de agir como diretora, produtora e criadora de storyboard. Mokona é quem cria o designer principal das personagens enquanto Igarashi e Nekoi ilustram os cenários – mas essa divisão de trabalho acaba não se transformando em regra visto que as artistas costumam intercalar suas funções e trocar ideias umas com as outras. As desenhistas tentam se manter fiéis às ideias iniciais de Ohkawa, e a dinâmica dessas quatro companheiras tem rendido trabalhos incríveis com o passar dos anos. A sincronia é tanta que elas não trabalham com assistentes pois, segundo as próprias, alguém de fora não conseguiria acompanhar a dinâmica que conseguiram desenvolver e aperfeiçoar durante os quase 30 anos em que trabalham juntas.

Inicialmente, RG Veda foi proposta para ser uma história com capítulos curtos a serem publicados de maneira seriada na revista japonesa Wings, mas o sucesso de vendas e receptividade do público fez com que os editores pedissem mais histórias para as garotas do CLAMP, alongando a trama e aumentando o sucesso de seu primeiro trabalho original. A partir de então o grupo viu a demanda por originais crescer e diversas revistas como Nakayoshi, Kobunsha e Newtype passaram a publicar os novos títulos do grupo. No Brasil, o primeiro trabalho do CLAMP a ser publicado foi justamente o primeiro que comprei, Card Captor Sakura, em 2001, e o sucesso foi tanto que em 2012 a Editora JBC relançou o mangá em formato especial. Das 28 obras do grupo, 17 histórias já foram lançadas no país, tais como Guerreiras Mágicas de RayearthChobitsX/1999 e Tsubasa: RESERVoir CHRoNiCLE, só para citar algumas. A seguir abordo um pouco dos aspectos de que mais gosto em duas grandes histórias do grupo, Card Captor Sakura e Guerreiras Mágicas de Rayearth.

Card Captor Sakura

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Talvez o mangá de maior sucesso do CLAMP, em Card Captor Sakura acompanhamos a personagem título, Sakura Kinomoto, em sua jornada para reunir as 52 Cartas Clow. Libertas no mundo quando Sakura rompe o selo do livro em que estavam guardadas, as cartas mágicas podem causar transtornos na cidade em que vive e, de maneira a impedir que isso aconteça, a menina tem que reuni-las e selá-las novamente no livro. Do livro também surge o guardião das cartas, Kerberos, que se transforma em uma espécie de mentor para Sakura auxiliando-a em sua missão e entregando-lhe um báculo mágico com o poder de selar as cartas. Em sua jornada Sakura também conta com a ajuda de Tomoyo Daidouji, sua melhor amiga do colégio, e de Syaron Li, um cardcaptor rival mas que aos poucos se transforma em aliado.

O enredo do mangá é leve e divertido, um shojo em seu significado mais amplo. Além das aventuras de Sakura em busca das cartas, presenciamos o dia-a-dia da menina em sua escola, o amor platônico que sente pelo melhor amigo de seu irmão mais velho, Yukito, além da crescente relação de carinho entre ela e Syaoran. Um dos pontos mais fortes do mangá é justamente o tratamento delicado dado aos relacionamentos amorosos: eles não são, de fato, o ponto focal do enredo, mas acontecem de maneira tão sutil e doce que é difícil não se ver shippando todos os casais. Uma característica do CLAMP é compor personagens e histórias que soem reais e verdadeiras, fazendo com que o leitor se importe e torça pelo destino de cada um dos personagens do enredo mesmo que tudo se passe em um universo de fantasia. Em Card Captor Sakura, por exemplo subentende-se que há um afeto muito maior do que amizade por Sakura da parte de Tomoyo, mas isso não é colocado como empecilho para o desenvolvimento de um romance entre Sakura e Syaoran. Toya Kinomoto, irmão mais velho de Sakura, mantém uma relação com Yukito que também parece ir para além da simples amizade, e tal relacionamento nunca é trabalhado como estranho ou absurdo.

Há naturalidade entre todos os tipos de relacionamentos em Card Captor Sakura, simplesmente não existe brecha pra preconceito ou estranheza. Quando duas pessoas se amam no universo CLAMP, elas se amam sem pensar se são hétero ou homossexuais. O amor para o CLAMP vai muito além de gênero – que parece algo bastante fluído – e não há esse tipo de barreira em suas histórias. Outro ponto muito positivo nos enredos do CLAMP e em Card Captor Sakura em específico, é a retratação de diferentes núcleos familiares. Enquanto na família Kinomoto há Sakura, Toya e o pai deles, o viúvo Fujitaka, na família Daidouji temos Tomoyo e apenas sua mãe. Na família Li, por outro lado, vemos a mãe, quatro filhas e o pequeno caçula Syaoran. Há personagens e histórias diversas com as quais grande parte do público pode se identificar – e isso é essencial em uma obra de qualidade, a diversidade e representatividade.

Guerreiras Mágicas de Rayearth

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Outra obra bastante popular do CLAMP no Brasil, Guerreiras Mágicas de Rayearth conta a história de três estudantes japonesas de quinze anos que, durante uma excursão escolar à torre de Tóquio, são convocadas pela princesa Emeraude e viajam para outro mundo. As três garotas, Hikaru Shidō, Umi Ryūzaki e Fuu Hō-ōji, foram escolhidas para se tornarem as Guerreiras Mágicas e tem por objetivo proteger o mundo mágico de Cephiro e resgatar a Princesa Emeraude, raptada pelo sumo-sacerdote Zaga. Nesse mangá temos, sim, uma princesa em perigo, mas diferente de outras tantas histórias que conhecemos, dessa vez quem resgata a princesa são outras meninas. Para que possam cumprir sua missão, as três recebem armaduras que se desenvolvem de acordo com o crescimento de suas habilidades; Hikaru recebe uma armadura baseada no fogo, Umi, na água, e Fuu, no vento. Ao iniciar sua jornada as meninas precisam encontrar a ferreira de Cephiro, Presea, para que sejam forjadas espadas especiais para cada uma delas. É em Guerreiras Mágicas que Mokona – que viria a se tornar o mascote do CLAMP – aparece pela primeira vez, ajudando e guiando as garotas na terra mágica de Cefiro.

A história de Guerreiras Mágicas surgiu de um pedido do editor da revista Nakayoshi que desejava atrair um público diverso para sua publicação, público que, até então, era majoritariamente feminino. Buscando inspiração no mundo dos RPG e dos robôs gigantes (mechas), o CLAMP criou o primeiro shojo a unir todos esses elementos, pinçando um pouco das características dos enredos shonen (mangás direcionados ao público jovem masculino). O que eu mais gosto nessa história toda é como o mangá gira em torno da singularidade de cada uma das três protagonistas, todas de personalidade forte e características marcantes. Fuu é extremamente inteligente, Umi é cabeça quente e emocional, enquanto Hikaru é super otimista e gentil. Elas discutem, brigam entre elas mas, acima de tudo, permanecem amigas enquanto chutam bundas por toda Cephiro. As três meninas são personagens complexas e completas que sentem medo, se questionam, erram e tropeçam. Elas são humanas, acima de tudo, e é com essa humanidade simples e sincera que podemos nos conectar enquanto embarcamos nessa aventura.

O enredo todo de Guerreiras Mágicas é baseado na irmandade forjada por Hikaru, Umi e Fuu. O laço que as três meninas criam é o que assegura sua sobrevivência na terra mágica de Cephiro visto que seus poderes são sempre postos à prova e são ampliados quando uma salva a outra do perigo. Sozinhas elas não conseguiriam sobreviver nesse universo desconhecido, mas quando se reúnem e trabalham em conjunto o poder que habita cada uma delas se sobressai e permite que elas controlem seus mechas com perfeição. Não somente na ficção mas na nossa vida real sem mágica e mascotes fofinhos, mas quando juntas, mulheres podem realizar maravilhas e o enredo de Rayearth demonstra isso ao deixar de lado o estereótipo falho de que mulheres não conseguem ser amigas de verdade uma das outras e vivem brigando entre si (estereótipo que as produções pop vivem tentando nos fazer engolir).

Outras histórias

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Muito embora o CLAMP escreva belíssimas histórias com protagonistas femininas fortes, completas e complexas, sua diversidade editorial permite que as mangakás abordem temas inesperados a cada nova história. Em X/1999, por exemplo, o fim do mundo é o tema principal da história de Shirou Kamui, um adolescente predestinado que precisa escolher entre salvar a humanidade ou destruí-la. A atmosfera dessa série difere totalmente das duas já citadas por seu enredo sombrio e apocalíptico, refletindo inclusive no tom mais sério das ilustrações. É uma série que gosto muito por sair do viés completamente shojo mas que, infelizmente, nunca foi concluída pelo grupo. Até onde pude acompanhar por meio dos volumes publicados (e lançados no Brasil pela JBC), essa é uma daquelas histórias para nunca se esquecer.

Outros dois títulos, também lançados no Brasil pela Editora JBC, e de que gosto muito, são Tsubasa: Reservoir Chronicle e  dangerHolic. A história dos mangás está interligada porém são desenvolvidas por meio de pontos de vista diferentes – e, talvez, esse seja o enredo mais ambicioso do CLAMP. As histórias envolvem linhas do tempo diversas, personagens vivendo em realidades paralelas e eventos que ocorrem nos dois títulos ao mesmo tempo. É bastante comum, por exemplo, encontrar personagens de outros mangás do grupo fazendo parte da história o que eu, particularmente, acho muito divertido. Em Tsubasa encontramos os personagens já conhecidos de Card Captor Sakura vivendo em um mundo paralelo, o reino de Clow. Dessa vez Sakura é uma princesa apaixonada por Syaoran que vê suas memórias serem dispersas por diversas dimensões. A missão de Syaron, então, é reaver cada pedacinho de memória que Sakura perdeu e, para salvá-la, precisa ir até a Bruxa das Dimensões, Yuuko, que é a protagonista de dangerHolic. A primeira vista pode parecer uma história muito confusa mas, te garanto, é incrível.

A bem da verdade eu poderia facilmente me estender nesse texto e escrever sobre todas as obras do CLAMP que já passaram por minhas mãos. Os enredos são ricos em personagens carismáticos, toda a história construída ao longo dos volumes é bem amarrada e a arte é belíssima. É difícil ler uma obra dessas artistas e passar incólume, eu sempre fico cada vez mais apaixonada a cada releitura. Há diversidade, representatividade e altas dose de magia. E aí já deixo a dica: quer começar a se aventurar pelo mundo dos mangás e não sabe por onde começar? Escolha uma história do CLAMP, não há nada melhor do que se sentir abraçada por enredos fantásticos, mundos incríveis e personagens cativantes.

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