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Eles nos querem primeiras damas, estrelando: Claire Underwood

House of Cards é uma série política de público alvo duvidoso: meio hétero e meio branco. Mas isso, por si só, fala mais sobre política do que qualquer outra coisa.

A série é ótima, é preciso dar isso a ela. Elenco de renome e qualidade, atuações monstruosas. Produção de tirar o fôlego, além de uma trama bem escrita, com direito a plot twists memoráveis e tudo o que há de melhor no mundo do streaming. Quando você dá play, você não para. Sei disso porque até hoje escuto resmungos de amigos por eu ter feito o imperdoável em tempos de Netflix and chill: comecei a ver a série com eles – na época, em sua segunda temporada –, fui pra casa e terminei de assistir tudo sozinha. Não posso dizer que sinto muito.

Não é preciso fazer referência às suas tecnicalidades, House of Cards é uma das séries mais badaladas dos tempos atuais. Kevin Spacey, o gigante que dá rosto a Frank Underwood, é tudo isso mesmo: o cara é bom*. Mas eu não quero falar sobre Frank ou seu discurso badalado sobre como homens que não são eleitos chegam à presidência de forma duvidosa. Eu quero falar de Claire Underwood (Robin Wright). E de mulheres no geral.

Metade é Claire

Claire é loira, alta, classuda e implacável. É casada com Frank há anos, apoiando-o na maioria de suas decisões, servindo – e sabendo disso – de muleta para as ambições do marido, mas que ambos almejam: a presidência, o poder, e tudo o que há entre os termos.

Eles querem tudo. E querem juntos. Claire e Frank é o tipo de casal que nos deixa arrepiados, não porque transmite amor ou faça você xingar aos sete ventos o quanto esse ship vai destruir você. Eles nos deixam arrepiados porque é muita genialidade, respeito, ódio, admiração, puxadas de tapetes, entre outras coisas. É muito mais um casamento-empresa, contratual, com veias de instituição, do que por amor. No fim do dia, a maioria dos casamentos o são.

Falar sobre Claire é falar sobre mulheres na política. Ainda que a personagem sirva, na maior parte do tempo, como uma peça de um jogo onde Frank obtém a principal vantagem, Claire é a peça fundamental desse jogo – movendo-se sozinha. Não há Frank se ela não estiver lá. E ele, na quarta temporada, aprendeu isso da melhor maneira possível. Melhor porque é sempre bom realizar que mulheres não são objetos descartáveis, especialmente em meios em que sua presença não é genuína.

Não contente em ser primeira dama, a personagem toca suas agendas pessoais, e, aos poucos, se insere no meio político, visando seus projetos ou sendo a diplomata que seu marido nem sempre consegue ser. Na quarta temporada, talvez a minha favorita da série, Claire ergue voo, aspirando – com sucesso! – por algo que coloca Frank a se debater como peixe fora d’água, cheio de raiva. Talvez por receio de perder o posto ou de ficar apagado perto do brilhantismo e simpatia da cônjuge, ou, principalmente, por não gostar da ideia da própria mulher em uma posição de poder.

Claire Underwood fraqueja em alguns momentos porque ainda é humana. Desconfia de suas intenções e repensa suas escolhas – a maior delas negar a maternidade (compulsória) em nome do poder. Além disso, sua capacidade é colocada em xeque, analisada com desdém, muitas vezes sendo ela diminuída pelo simples fato de ser mulher. Mas isso vocês também já sabem.

Sofrer as consequências de um patriarcado e machismo enraizado não é algo apenas reservado à Claire, na série. Outras mulheres se dão mal – algumas mais do que outras, indo parar debaixo de trens e debaixo de terra – quando batem de frente com Os Poderosos Homens Ricos™ de House of Cards: Jackie Sharp (Molly Parker), Catherine Durant (Jayne Atkinson), Heather Dunbar (Elizabeth Marvel) (candidata que, em certo momento, concorre contra Frank), Rachel Posner (Rachel Brosnahan), Zoe Barnes (Kate Mara)… A mensagem que se passa é sempre uma. E é de cuidado.

É impossível falar sobre House of Cards sem falar sobre política. É impossível falar sobre Claire sem falar sobre mulheres na política. E é impossível manter um viés imparcial sobre o assunto sem mencionar o cenário político atual do mundo real.

claire underwood

A outra metade é política

O que se observa é uma mudança muito tímida, que acaba recaindo sempre nas mesmas críticas. Aos poucos as mulheres se inserem em meios que, originalmente, não fizeram parte, como a política. Contudo, é muito pouco, muito lento, e incomoda muito. Falar sobre representatividade de mulheres na política parece ofender. “Todas podem se candidatar”, “mulheres não têm capacidade”, “mulheres não fazem boas políticas”, “não vejo porque tem que ser uma mulher” são frases que eu já escutei. Garanto que se você que já conversou sobre o assunto com outras pessoas também já escutou.

Representatividade importa. Abrir sites de prefeituras, governos, até mesmo a nível nacional, para procurar nossos representantes eleitos, incomoda. Um parece muito com o outro. Não me identifico com a maioria. Não nego que com algumas mulheres eleitas eu também não me identifico, por posicionamento político e bandeiras de luta, mas há mais mulheres por aí que precisam de alguém pra se identificar, independente de eu concordar com o posicionamento conservador delas ou não. Primeiro precisamos da chance (de identificação), para só depois debatermos Outras Questões.

Feminismo é uma luta social e política, que não anda com a direita, já que estamos sendo honestas. Foi só depois que comecei a me interessar pelo tema que eu comecei a me interessar por política. Nas últimas eleições presidenciais do Brasil, doía em mim, como mulher, ter que assistir as candidatas sofrendo deboche e ataque em rede nacional. Doía também ouvir os xingamentos que são reservados apenas a nós, mulheres. Ofendia os adesivos que remetiam à ideia de estupro, que eram usados como forma de diversão e “brincadeira”. Era chato olhar revistas nas bancas e correntes no Facebook que pintavam as mulheres políticas como histéricas, incapazes ou burras. Porque isso nunca foi um ataque aos seus feitos ou erros – ninguém nega que políticos erram, e alguns erram feio. Isso era, e é, um ataque de gênero.

Digo isso não porque é algo pontual, que aconteceu em uma só esfera uma única vez. Digo porque sou considerada histérica se expresso minhas crenças e ideais. Digo porque a minha amiga é vista com complacência ao trabalhar em um meio majoritariamente masculino. Digo porque precisamos sempre provar que somos mais: mais inteligentes, mais compreensivas, mais fãs do que os homens. E precisamos fazer tudo isso com doses pouco homeopáticas de sangue de barata, para não sermos consideradas histéricas, incapazes ou burras. Não é algo que homens entendam, por isso continuam colocando mulheres em posições desconfortáveis enquanto recebem a graça, compaixão ou compreensão da sociedade. Porque não é por mal, nunca é.

Hoje, nos Estados Unidos, ocorrem as eleições presidenciais. Não moro lá, muito menos visitei o país. Não conheço os feitos políticos dos candidatos, mas acompanho de longe, com certo desespero, o que tem se traçado por lá. O assunto é notícia e eu, como consumidora ávida de produções que vem das terras gringas, me sinto compelida a comentar. É sim meio desesperador a ideia de que a presidência seja ocupada por um machista de carteirinha, abusador e mal educado, que com todas as letras diz que não aceitará se a sua oponente ganhar. A ideia é desesperadora, mas já aconteceu por aqui, e, de modo geral, é o que tem se observado.

Somos polarizadas por nossas opiniões e atitudes. Há homens ricos, brancos, velhos, no auge de sua posição de privilégio, que ditam as regras mais infames sobre o controle da autonomia feminina. O que assistimos e lemos, agora, é uma ideia muito conveniente do que é ser uma boa mulher, assim, meio troféu: uma que apoie o homem, mas não faça política. Vocês já sabem o bordão, eles querem, a todo custo, que sejamos belas, recatadas e do lar.

Coitados.

pesquisa-valkirica-2016

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