CINEMA COLABORAÇÃO

Cinema Político e Feminista: Agnès Varda

Agnès Varda é uma cineasta (além de fotógrafa, roteirista, editora, produtora e, às vezes, atriz de suas próprias obras) cuja filmografia é impressionante por abordar temas que falam sobre a experiência feminina na sociedade e pelo seu aspecto experimental. Tornou-se mais conhecida por ter sido parte do movimento cinemático intelectual francês nouvelle vague, cuja produção artística ficou marcada, principalmente, pela quebra do silêncio narrativo que o cinema mainstream vinha apresentando até então, a pouca idade de seus percursores, o experimentalismo e a ruptura com o cinema clássico que vinha fazendo história, sobretudo nos Estados Unidos, além da construção de uma produção essencialmente autoral.

Nascida Arlette Varda em Ixelles, na Bélgica (uma das 19 comunas que compõem Bruxelas, considerada a comuna dos estudantes, dos artistas e dos intelectuais) em 30 de maio de 1928, de mãe era francesa e pai de origem grega, viveu até os 18 anos em seu país natal com seus quatro irmãos, período que não é tão documentado em sua biografia. Após atingir a maioridade, ela resolve se mudar para a França com o intuito de dedicar-se às artes e fotografia, e decide, também, abandonar seu nome de batismo e assumir o Agnès. Iniciava-se, assim, uma nova jornada.

Sua paixão inicialmente foi a fotografia – certamente visível em seus filmes, dada a sua sensibilidade para registrar de forma documental as expressões e cenários de suas personagens – e seu primeiro emprego foi justamente como fotógrafa residente do Teatro Nacional Popular, em Lyon, na França. Após perceber que as fotografias eram um meio “silencioso demais” para se expressar, começou a se interessar pelo audiovisual, realizando seu primeiro filme aos 25 anos, um longa-metragem chamado La Pointe Courte, que já misturava narrativa ficcional e realidade – a história se passa num vilarejo de pescadores, pano de fundo para um romance conflituoso. Agnès, com seu corte de cabelo chanel característico e sua câmera que capta o “documental subjetivo” da experiência humana, é considerada uma das poucas diretoras mulheres de sucesso cujo trabalho sobrevive às marcas do tempo e, infelizmente, preenche uma lacuna que poderia ter sido povoada por outras cineastas igualmente talentosas, atuando ao seu lado no período considerado clássico do cinema europeu.

Ainda que tenha participado ativamente da nouvelle vague, sua visão e estilo únicos não podem ser reduzidos apenas a esse movimento, sendo que sua carreira se estende da década de 1950 até os dias de hoje, em que conta com 52 obras sob sua direção. Como ela mesma colocou em uma entrevista de 2006: “They called me ‘The Ancestor of the New Wave’ when I was only 30. I had seen very few films, which, in a way, gave me both the naivety and the daring to do what I did” [“Eles me chamaram de ‘a ancestral do New Wave’ quando eu tinha apenas 30 anos. Eu havia assistido a muito poucos filmes, o que, de certa maneira, me deu ambas a ingenuidade e a ousadia de fazer o que fiz”].

Hoje pode até não parecer, mas os trabalhos de Agnès se caracterizam como filmes de viés radical para o seu tempo, nos quais o uso criativo dos instrumentos cinematográficos – câmera, luz, roteiro, atuação – assim como a autenticidade da história e das protagonistas prevaleciam sobre um formato convencional da linguagem visual, isto é, início/meio/fim. É um movimento vanguardista, mas também político, já que se conecta de várias formas ao momento em que a França, bem como o resto do Ocidente, estava vivendo no final da década de 1950 e década de 1960, profundamente calcado em transformações culturais. Como bem sabemos, movimentos sociais como o Feminismo, o Movimento Negro e o Movimento LGBT, tiveram sua ascensão em meio ao caos technicolor que foram os anos 60.

Os filmes de Agnès Varda são principalmente conhecidos por nos guiarem, muitas vezes de forma experimental ou quase documental, pelas vidas de personagens femininas geralmente marginalizadas pela sociedade, em seu conhecido estilo de realismo documental. Por ser uma mulher, acredito que ela possui mais proximidade dos temas relacionados à experiência feminina, e são elementos desse universo tão vasto e complexo que povoam as suas obras; seja Cléo, uma burguesa contemplando a vida e a morte, seja Mona, em busca de uma liberdade indizível, sejam Suzanne e Pomme, em sua sororidade que atravessa o tempo, seja Thérèse, com suas ilusões bucólicas.

O cinema de Agnès Varda, além de caminhar no mesmo rumo de uma nouvelle vague mais esquerdista e experimental, também pode encontrar ressonância em um cinema político. Isto é, todo cinema é político, tendo sido inclusive utilizado como uma propaganda escrachada servindo aos interesses de sistemas políticos, passando por produções que vão de Leni Riefenstahl e Fritz Hippler na Alemanha Nazista, até Sergei Eisenstein e Dziga Vertov na União Soviética. Esses foram casos em que a sétima arte foi explicitamente usada como instrumento de divulgação de certas ideologias, mas isso pode, e geralmente não se dá, de forma tão aberta no cinema em geral. No caso em que estamos falando, a nouvelle vague não tinha por objetivo ser unicamente política, mas seu modus operandi está em interseção com certos valores e movimentos sociais, assim como o cinema de Agnès Varda também pode ser chamado de político, pois ela, além de ser mulher em uma indústria dominada por homens, sempre priorizou narrativas de vidas de mulheres, algo que não era tão comum ou popular na época.

Como prova do quanto Agnès foi dedicada ao seu trabalho e respeitada por isso, em 1977, ela criou sua própria produtora de filmes, chamada Cine-Tamaris, com o objetivo de ter mais controle sobre todo o processo de criação, edição, produção e distribuição de sua arte. Além disso, também na década de 1970, demonstrou novamente ter um posicionamento político forte, ao publicamente assinar o chamado “Manifesto das 343”, um documento que reunia a assinatura de mulheres que haviam realizado aborto induzido, considerado ilegal na França daquela época.

O cinema político feminista pode acontecer das mais variadas formas, seja de uma forma mais abertamente militante ou através de suas nuances, sutilezas e bordas, construir uma narrativa que realmente leve em conta a vivência tanto singular quanto coletiva de mulheres. Parece algo simples, mas faz muita diferença se essa história é contada sob a ótica de uma mulher, já que estamos tão acostumadas a nos vermos representadas apenas através da visão que homens tem de nós, o chamado “olhar masculino”, descrito por Laura Mulvey. Além disso, em uma indústria sexista e excludente, é muito importante a valorização de cineastas mulheres, e temos muitas, como Lizzie Borden, Lina Wertmüller, Chantal Akerman, Marguerite Duras, Claire Denis, Barbara Loden, Margarethe von Trotta, Lucrecia Martel, Jane Campion, Sofia Coppola, Ida Lupino, etc. Mas também fica a questão: será que todo filme dirigido por uma mulher é automaticamente feminista ou implica em uma desconstrução de padrões de gênero?

Sendo assim, acredito que a filmografia da Agnès Varda vá ao encontro de um cinema político feminista, já que filmes como Cléo das 5 às 7 (1962), As Duas Faces da Felicidade (1965), Uma Canta, a Outra Não (1977) e Sem Teto Nem Lei (1985) se propõem a narrar momentos diversos da vida e subjetividade de suas protagonistas, acabando por costurar uma colcha de retalhos com vários significados, sentimentos e questões, pois trazem à tona vários debates de gênero e sobre a condição naturalizada das mulheres na sociedade, acima de tudo, sendo belas obras cinematográficas. A obra de Agnès é muito vasta, incluindo filmes, curtas-metragens, filmes experimentais e documentários, sendo que uma das últimas produções que ganhamos de presente foi uma documentário autobiográfico, As Praias de Agnès (2011), recheado de fotografias, fragmentos de seus filmes e entrevistas suas; trabalho novamente marcado pela forte autenticidade de sua voz, afinal, quem melhor pra contar a história de uma mulher do que ela própria?

Além disso, recentemente foi lançado outro documentário seu, também em tom autobiográfico chamado Visages, Villages. Não é preciso dizer que Varda ganhou inúmeros prêmios de reconhecimento pela excelência de seu trabalho ao longo das décadas, em importantes eventos como o Festival Internacional de Cinema de Veneza, o César francês, além de ter sido a primeira mulher a ganhar o prêmio Palma de Ouro do Festival de Cannes. Recentemente, foi anunciado que no próximo Oscar, em fevereiro de 2018, ela receberá uma homenagem honorária.

A seguir, uma pequena amostra dos filmes que acredito serem os mais importantes da carreira de Varda, uma espécie de tira-gosto inicial, mas o restante de sua obra também vale a pena conhecer e aprofundar.

“Cléo das 5 às 7” (1962)

Close-ups em preto e branco, movimentos lentos desvelam a rotina de uma mulher, a câmera de Varda nos faz contemplar, em mínimos detalhes, os rituais de intimidade de Cléo, enquanto contemplamos a sua existência, linha tênue entre a vida e a morte, O Enforcado do tarô. Fala basicamente sobre um dia na vida de uma mulher, no processo em que ela espera o resultado de um exame que pode mudar tudo, logo, provoca angústia, expectativa e instabilidade.

“As Duas Faces da Felicidade” (1965)

Profundamente enraizado nas transformações que iriam ocorrer em seu tempo, esse filme de imagens bucólicas brilhantes conta a história de uma família nuclear aparentemente perfeita, se não fosse a infidelidade do marido. As duas mulheres nunca trocam palavras, sororidade sufocada, mas o questionamento da família e do patriarcado enquanto bases da sociedade, fica nas entrelinhas.

“Uma Canta, a Outra Não” (1977)

Esse filme maravilhoso e revolucionário somente poderia ter sido lançado no ano de 1977, um ano efervescente, onde tínhamos ditaduras militares à beira de um colapso no Hemisfério Sul, e no Hemisfério Norte, crises políticas, que, por sua vez, também germinaram e culminaram na explosão de uma profunda transformação cultural nas décadas de 1960 e 1970, tendo impactado a sociedade como um todo, cujas influências reverberam felizmente até nossa contemporaneidade. Acredito que esse filme seja subversivo em matéria de gênero/sexualidade: veja bem, por mais que seja a década de 70 e muitos movimentos sociais estejam com todo o gás, o Feminismo está vivendo sua chamada “segunda onda”, ainda assim, era difícil de encontrar algum filme que fosse totalmente feito por mulheres e para mulheres, que falasse sobre vivências e sexualidade feminina de forma sincera. Uma Canta, a Outra Não tem tudo isso e é de uma sensibilidade enorme na maneira como aborda temas como amizade, maternidade, militância feminista, envelhecimento e relacionamentos.

Além disso, sei que algumas mulheres discordam que exista algo como sororidade incondicional, mas o filme de Varda representa tão bem o que entendo por sororidade, ou seja, uma união entre mulheres, nesse caso, duas amigas, que, mesmo seguindo rumos bastante diferentes, continuam nutrindo respeito, admiração e companheirismo uma pela outra ao longo de uma vida. Todos os dramas pessoais se desenrolam em paralelo com a trajetória do movimento feminista e também hippie, na França, da década de 1970. Diria que é um filme essencial para quem quer se aprofundar em cinema feminista – quem for atrás, com certeza vai se apaixonar pelas cores vibrantes, a musicalidade e a espontaneidade do filme.

“Sem Teto Nem Lei” (1985)

Acredito que o simples fato de uma mulher dirigir um filme já seja uma grande conquista, agora, conseguir se manter nesse ramo de trabalho e criar obras tão significativas, poéticas, belas e tristes, é ainda mais admirável e inspirador. Seriam esses os adjetivos que eu usaria pra descrever esse filme porreta da Varda, com certeza. Não se trata apenas de um lindo road movie sobre uma pessoa viajando pelos arredores da França, com todo o gosto e graça aventureira que esse tipo de filme nos apresenta, é, antes de tudo, um filme sobre uma mulher andarilha (interpretada corajosamente pela maravilhosa atriz Sandrine Bonnaire), como o título diz “sem teto nem lei”, isto é, em uma sociedade em que as mulheres devem estar sempre “resguardadas” por uma instituição ou outra (família, marido, igreja, escola, trabalho), uma mulher que escolhe largar tudo para viajar por aí sozinha, é algo bastante raro de se encontrar, uma transgressão por si só. Esse filme está cheio de raridades e o viés quase documental confere uma atmosfera realística, e o tom intimista em que Mona Bergeron conta sua própria história, abre espaços para várias eras ainda por vir, para que outras mulheres também compartilhem suas subjetividades, prisões e momentos de êxtase.

Após esses exemplos de filmografia, podemos começar a perceber a importância que o cinema de Agnès Varda teve e ainda tem para o cinema artístico que se coloca à margem do que é comumente esperado dessa arte. Além de ter sido sempre uma vanguardista, com uma visão bem à frente de seu tempo, mas com discursos extremamente relevantes ao contexto onde se encontra, ela é uma influência para todas as mulheres que desejam adentrar o mundo do cinema. Sabemos o quanto é difícil a presença de mulheres na indústria cinematográfica, dominada pela visão e pelo capital masculinos, principalmente em posições de poder de criação como a de diretora, fotógrafa, editora, produtora.

Vale a pena relembrar o exemplo famoso da premiação anual do Oscar, desde a sua primeira edição, em 1929, apenas quatro mulheres foram indicadas na categoria Melhor Diretor, e a primeira foi ganhar em 2010 (Kathryn Bigelow, por Guerra ao Terror), isto é, são 88 anos de uma tradição cinematográfica machista. Assim, sabemos o quanto é importante que a arte que vemos representada nas telas não venha apenas de um único tipo de experiência, aquela dos homens brancos burocratas sentados em seus escritórios fazendo suas sessões de brainstorm e pesquisas de público. É extremamente importante que haja diversidade na produção audiovisual, de gênero, raça e classe, afinal, como aprender a se identificar e gostar de si quando aquilo que vemos representado não tem nada a ver com a nossa experiência de vida?

Apesar desse cenário ser desanimador, se olharmos mais de perto, conseguimos encontrar pontos de resistência em meio a todo esse caos, encontramos mulheres em todas as décadas da história do cinema deixando sua marca, inspirando outras a desafiar a ordem vigente e criar. O cinema de Agnès Varda representa isso, assim como em seu filme Uma Canta, a Outra Não: as diferentes vozes femininas ecoam em sua obra e abrem o caminho para que outras mulheres possam seguir e continuar cantando.

Larissa é psicóloga, feminista interseccional e pós-graduanda em procrastinação.
Apaixonada por escrever, punk riot grrrl, filmes trash e cinema de horror.
Fascinada pelo estranho e subversivo. Acredita na construção diária e coletiva de um mundo mais empático e acolhedor, mas nunca brinque com um peixes de ascendente escorpião.

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