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Cheias de Charme: vida de empreguete e 500 anos de história do Brasil

Quando Cheias de Charme estreou na Globo em 2012, vivíamos num Brasil com uma classe C que ascendia economicamente, se transformando na nova vedete do mercado, o público alvo que todo mundo queria atingir. Foi isso que trouxe, entre plumas e paetês, três empregadas domésticas – as Empreguetes – ao posto de protagonistas de novela, rompendo os âmbitos da área de serviço para o papel de heroínas do proletariado que se tornam estrelas da música. Apesar de lembrar com carinho da história de Penha (Taís Araújo), Rosário (Leandra Leal) e Cida (Isabelle Drummond), que assisti pela primeira vez aos 18 anos, caloura no curso de jornalismo, tive minhas dúvidas se a novela era mesmo tão boa assim quando a reprise foi anunciada no Vale a Pena Ver Novo. Estamos falando, afinal, de uma novela das sete de tom humorístico e satírico, que mistura crítica social, tecnobrega, um pouco de humor absurdo e alfinetadas na indústria do entretenimento – uma combinação que possui uma linha finíssima para se equilibrar se não quiser cair na caricatura grotesca ou simplesmente na falta de graça total e completa.

Quatro anos depois, venho por meio deste analisar se, afinal, os autores estreantes Izabel de Oliveira e Filipe Miguez foram felizes em sua ousada empreitada.

Tanto na sociedade como na televisão brasileira, às empregadas domésticas sempre coube um espaço permanente, porém restrito. Do mesmo jeito que uma linha invisível separa a cozinha e a área de serviço do resto da casa, nas novelas o papel delas dificilmente vai além da figuração com fala, caindo frequentemente em estereótipos nocivos como o da empregada fofoqueira e caricata ou o da empregada gostosa que provoca todos os homens.

Penha, Rosário e Cida encarnam realidades de muitas mulheres brasileiras e a novela não se esquiva em apontar algumas das tensões que fazem parte desse tipo de relação tão característica do Brasil, país campeão em serviço doméstico no mundo. Todo o estrelato das Empreguetes começa a partir de um episódio em que, frustradas com seus trabalhos, as três amigas se reúnem pra desabafar e brincam de imitar as patroas. A brincadeira inspira Rosário a escrever Vida de Empreguete, música de protesto e hino das empregadas, e a coisa se desenrola de modo que o rant se transforma em clipe. O vídeo é brilhante (literalmente brilhante, muito glitter, paetê e papel prateado foram envolvidos na produção), mas é da sessão descarrego que veio antes que quero falar.

É fácil ter raiva de Chayene (Cláudia Abreu) e Sônia Sarmento (Alexandra Richter): a primeira é a vilã descarada, que agrediu Penha e foi patroa megera de Rosário (de Rosalba, Rosélia, Rosilda, Roxana e Roxete também), a diva do eletroforró do Piauí com carreira decadente, que se comporta como uma primadona insuportável – numa interpretação absolutamente perfeita de Cláudia Abreu – e tenta de tudo pra sabotar o sucesso das três; já Sônia é a madame típica, que acolheu Cida em casa depois da morte de sua mãe, que era arrumadeira dos Sarmento, e a obrigou a trabalhar desde criança, sem direito a folgas ou remuneração adequada, em nome dessa suposta dívida de gratidão. Como uma Cinderela moderna, Cida frequentemente é humilhada pela patroa e por suas duas filhas, Isadora (Giselle Batista) e Ariela (Simone Gutierrez) (também conhecidas como a Nojenta e a Entojada), mas por conta da chantagem emocional de anos ela demora a se dar conta do abuso que sofreu durante tantos anos.

Chayene e Sônia dão mil motivos para ser alvos de raiva e chacota das nossas mocinhas, mas acho que o dedo toca mesmo a ferida quando Penha imita sua última patroa, Dra. Lygia (Malu Galli). Dra. Lygia entra nessa história como a patroa perfeita, porque é uma advogada honesta e justa e trata os empregados como gente – feito do qual ela muito se orgulha e considera digno de uma estrelinha dourada. Dra. Lygia representa o discurso das pessoas que consideram suas empregadas como quase da família, dessas que até comem junto com os patrões, mas que se tornam as principais suspeitas quando um dinheiro desaparece.

A ambivalência da personagem aparece também no momento em que Dra. Lygia passa a ter que viajar alguns dias na semana a trabalho e pede que Penha durma no serviço pra cuidar de sua casa e dos seus filhos. Não importa que ela tenha um marido que trabalha em casa de bermuda e um filho de 18 anos plenamente capaz de lavar a louça e fazer outras tarefas domésticas: mesmo naquele lar moderno e (cof cof) progressista, ainda cabe à mulher, seja a dona da casa ou a empregada, o papel de administrar a casa. Penha no início recusa, já que ela também tem filhos e irmãos mais novos, mas no fim cede e deixa sua casa pra cuidar da casa dos outros – uma situação muito comum na história das empregadas domésticas do Brasil.

A diferença entre as duas situações é que Lygia é uma advogada de sucesso e por mais cansativo que possa ser pular de um lado do outro da ponte aérea para atender seus clientes, sua condição invoca prestígio e não seria um problema se seu marido assumisse igualmente as responsabilidades pela casa e pelos filhos dos dois. Já Penha, quando sai de casa, é por falta de opção, porque precisa do emprego e do dinheiro para sustentar sua família e quitar as dívidas de seu ex-marido, o malandro Sandro (Marcos Palmeira), que também não se responsabiliza por suas obrigações como pai. Detalhe acidental ou não, acho significativo que Penha seja negra, uma marca importante para as diferenças de privilégio que mulheres brancas e negras enfrentam na sociedade, e que nos força a pensar até que ponto nosso feminismo é bem sucedido se considera como ganho um jogo em que apenas algumas são promovidas a “tubaroas” enquanto outras — em sua maioria negras e pobres — continuam confinadas no espaço privado do serviço doméstico.

2016-11-17-22

“Quando a emancipação de uma mulher é resultado da transferência do trabalho doméstico para outra mulher, [ela] não pode ser vista como emancipação real.”, escreve Daniela Lima em sua críticaQue Horas Ela Volta? (2015), de Anna Muylaert, filme que se sustenta sobre os mesmos argumentos que Cheias de Charme, porém com uma roupagem mais sóbria, que é pra crítica se derreter à vontade. Um detalhe? A novela veio três anos antes do filme e ainda há quem diga que a famigerada cultura de massa é puro entretenimento vazio.

Os autores apresentam as personagens como típicas mulheres brasileiras, guerreiras e batalhadoras, mas nossas batalhas não são iguais. A relação entre patroas e empregadas aponta pra um elefante branco que mora na sala de famílias brasileiras, que diz respeito às tensões de classe e, principalmente, de raça que compõem o serviço doméstico.

Digo elefante branco porque percebo que esse ainda é um tema do qual as pessoas se esquivam. A quantidade de eufemismos que existe pra se falar de empregada doméstica – funcionária, secretária, ajudante, assistente do lar – mostra que esse é um assunto desconfortável, ainda que a figura da empregada seja uma constante nas casas de classe média e alta. O incômodo é menos pela função e mais pelo que ela simboliza. O trabalho doméstico não é menos digno, menos importante ou algo que deva ser causador de vergonha, contudo isso ainda acontece porque a forma como ele existe no Brasil é carregada de uma herança escravista que insistimos em fingir que não existe, mas está em todo canto: na novela, no cinema, na legislação defasada (antes da PEC das Domésticas, aprovada em 2013 e recebida com revolta, o serviço doméstico não tinha regulação própria, dando margem para todo tipo de exploração) e nos cômodos minúsculos, muitas vezes sem janela, que ainda existem nas casas e prédios do nosso país, o famoso “quarto da empregada”.

De acordo com dados recentes do Ministério do Trabalho, o serviço doméstico é a ocupação de 5,9 milhões de mulheres brasileiras. 17% das mulheres negras do país são empregadas domésticas, contra 10% de mulheres brancas. A mesma pesquisa mostra que, comparativamente, negras recebem menos e estão em menor número no índice de trabalhadoras com carteira assinada. Apesar disso, das três Empreguetes apenas Penha é negra. Cheias de Charme é ótima ao apontar tensões sociais, mas é no mínimo negligente ao tratar de raça, se sustentando sobre o argumento da luta de classes, ignorando, da mesma forma como acontece em Que Horas Ela Volta?, a questão racial que, no Brasil, é parte essencial desse debate.

Penha também é a personagem que vive em condições mais precárias e é sobre ela que recaem os abusos mais sérios: ela foi a única a ser agredida fisicamente por uma patroa e também foi vítima de assédio sexual por parte de um patrão. Se muitos homens consideram o corpo feminino como propriedade pública, o corpo da mulher negra, frequentemente hipersexualizado, é ainda mais vulnerável – outra herança do período de escravidão, quando mulheres negras eram objetos sexuais de seus patrões, uma circunstância aceita socialmente, mais uma das tantas coisas sobre as quais não se falava, mas que estava ali. Penha também não fala nada ao ser assediada por Alejandro (Pablo Bellini), apenas pede demissão sem mais explicações. “Em quem ela [Dra. Lygia] vai acreditar, no marido ou na empregada?”, questiona, com razão, a personagem.

Na análise do discurso que faz da novela, a jornalista Kellen Julio diz:

Não estamos pretendendo levantar a questão de que a novela Cheias de Charme é ou não preconceituosa, mas sim levantar a discussão de como as pessoas aceitam o negro no papel de subalternidade de forma natural, enxergando como realidade possível somente esta maneira. Não é só uma questão de inversão de papéis ou de protagonistas, o problema é o universo das três personagens e a suposição da hipótese da personagem negra estar em condições culturais acima das brancas. Se as três protagonistas fossem negras, não haveria este “problema”.

Rosário só começa a trabalhar como doméstica para se aproximar do meio artístico ao ser empregada da casa de Chayene, ela é chef de cozinha e ouve do pai que “não foi criada pra isso”. Cida, apesar de trabalhar desde criança, gosta de ler, teve a chance de estudar, sonha em ser jornalista, e se veste, fala e se comporta como se fosse uma garota Sarmento; ela engana tão bem que no início da novela começa a namorar o playboy Conrado (Jonatas Faro), que só depois descobre que ela é empregada. Penha – de novo, a única negra – é a única tipicamente suburbana, pela forma como se veste, fala, e até pela situação de sua casa, a pior das três.

Esse “deslize” fica ainda pior quando reparamos em alguns detalhes: numa história carregada de símbolos, a periferia se localiza no bairro fictício do Borralho, uma referência a Gata Borralheira, outro nome da Cinderela, conto de fadas do qual as três são mais ou menos herdeiras; do outro lado, o condomínio de classe alta que os patrões moram é o Casagrande, onde há, inclusive, um edifício chamado Gilberto Freyre, alusão evidente ao livro Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, obra que analisa justamente a herança da escravidão na construção das relações sociais no Brasil dos nossos tempos.

Os autores sabiam do que estavam falando ao escrever a novela e mesmo assim insistiram em passar pano pro argumento racial que é parte inexorável da história do trabalho doméstico, e também em manter a personagem negra numa situação de subalternidade. Não podemos apontar com segurança o que levou a isso, talvez ordens superiores (a Globo possui um histórico complicado de representatividade), talvez negligência, talvez fidelidade a uma suposta verossimilhança que é justamente papel da arte subverter. Eu sinceramente não sei o que é pior.

2016-11-17-3

Cheias de Charme não é perfeita, mas ainda é uma novela acima da média porque se dirige a relações sociais complexas que a maioria das tramas simplesmente ignora, acreditando resolver mais de 500 anos de desigualdade num romance de menina rica com garoto pobre ou vice-versa. Sabemos que não é simples, e Izabel de Oliveira e Filipe Miguez deslizam, mas a novela é bem-intencionada (até a página 52, pelo menos), muito bem escrita e num ano em que a internet e as redes sociais estavam começando a tomar a forma que têm hoje, ela acerta ao retratar a relação da história com a tecnologia, ponto em que as novelas costumam deixar a desejar. As Empreguetes surgem como um viral de um clipe que era pra ser uma brincadeira particular e acabou se espalhando na rede, sem que ninguém tivesse controle sobre seu alcance. Elas acabam presas, já que o clipe foi gravado na casa de Chayene sem a autorização da cantora, e são soltas graças ao movimento Empreguetes Livres que surge nas redes sociais, uma pressão externa poderosa que balança a certeza centenária de que o mundo é dos ricos, já que a internet pode dar voz — e consequentemente poder — ao povo.

Acima de tudo isso, Cheias de Charme segue incrível quatro anos depois porque possui o coração no lugar certo. As amizades entre mulheres são os relacionamentos mais importantes da novela, sustentando a trama e levando a história pra frente. Penha, Rosário e Cida se apoiam e estão juntas tanto nos seus dias de empreguete como em suas vésperas de patroa, e é absolutamente delicioso ver o trio junto, seja no palco ou na delegacia. A união entre as três recebe mais destaque que qualquer relacionamento romântico da novela, que, preciso destacar, é povoada por homens horríveis (alô Conrado, Inácio e Sandro). Vale citar a parceria de Penha e Dra. Lygia, que superam as tretas iniciais e se tornam amigas, se ajudando mutuamente nas dores de cabeça provocadas por seus respectivos e péssimos maridos; e antes de Elano (Humberto Carrão), seu par romântico, o mais importante vínculo emocional de Cida é com sua madrinha Valda (Dhu Moraes), que assumiu sua guarda quando seus pais morreram, e é a pessoa que ela deseja proteger depois de conseguir a própria liberdade.

Até mesmo a rivalidade de Cida com Isadora na disputa por Conrado é muito mais uma disputa de classe do que de gênero: antes de qualquer coisa, Isadora está interessada no status do namorado e no que a família dele pode trazer de vantajoso pra sua; sua birra não é por ele ter escolhido Cida, mas sim a empregada. Ao brigar pelo namorado, ela está antes interessada na posição social que ele pode lhe oferecer, e só depois no homem que ele é – até porque NINGUÉM merece o Conrado, nem mesmo a Isadora.

Se posso adicionar aqui uma implicância pessoal, ela está no fato da novela ridicularizar a busca por dinheiro, fama e status, mas, no final, a felicidade de todos os personagens tem em comum o fato de que todo mundo termina rico. É condizente com o mundo que vivemos e com as aspirações da maioria das pessoas, mas é meio deprimente ver que, no fim, as Empreguetes terminam a novela ocupando o mesmo lugar – restrito e exclusivo – de seus antigos patrões, cuja derrota maior também vem na forma da pobreza. Até que ponto estamos vencendo com uma simples dança das cadeiras pra ver quem senta no topo e deixa os outros no chão? São questões e deixo vocês com essa provocação.

Se por meio disso quero dizer que no fundo queria uma novela sobre Empreguetes, melhores amigas e estrelas do pop unidas contra o patriarcado e também contra o capitalismo – talvez com superpoderes adicionais, quem sabe? Ué, por que não?

Para saber mais:

Como socióloga sei que sou uma excelente noveleira, e para escrever esse texto tive que abordar uma realidade distinta da minha. Usei alguns textos e trabalhos como referência na construção dessa análise e compartilho os links, que ficam como sugestão pra quem quiser se aprofundar no tema a partir da experiência de mulheres que estiveram em contato estreito com a realidade das empregadas domésticas.

 

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3 Comentários

  • Responda
    Duds
    17 de novembro de 2016 at 09:55

    MIGA QUE TEXTO

  • Responda
    Gabi Machado
    17 de novembro de 2016 at 10:15

    Adorei esse texto, como sempre adoro tudo que tu escreve <3

    Se eu puder acrescentar uma mínima coisinha à discussão, diria que quando falamos sobre subverter a ascensão social como objetivo final de personagens periféricos, temos que ter mente que esse é o cenário ideal e daqui pra lá falta muito.
    Costumo dizer que existem níveis para qualquer luta social, como camadas que devemos alcançar antes de chegar ao esperado.
    Sendo assim, o que é mais fácil de acontecer é que pessoas marginalizadas primeiro queiram alcançar sim, status social, para só depois que a desigualdade seja vencida, essas mesmas pessoas passem a refletir sobre o valor real de terem apenas invertido a pirâmide e caminhem assim para um cenário de maior igualdade. 🙂

    Beijo!

    Keep writing!

  • Responda
    Iara Mendes
    17 de novembro de 2016 at 11:43

    Que texto maravilhoso e necessário Ana, a novela é antiga mas o questionamento continua atual.

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