ESPORTE

O caso Robinho e a diferença entre a voz e o silêncio

Vivemos agora em um mundo onde, todos os dias, desmascaramos homens abusadores da indústria do entretenimento. Desde a primeira acusação ao produtor Harvey Weinstein até a decisão da Time de dar o título de Pessoa do Ano às silence breakers (quebradoras do silêncio, em tradução livre), grupo de pessoas — mulheres, em sua maioria — que em 2017 falaram e agiram em relação a casos de assédio e abuso sexual, é muito difícil ficar um dia inteiro sem que um homem seja denunciado por assédio graças às sobreviventes que estão vindo à tona. Esse movimento tem representado uma grande corrente de apoio e voz para mulheres, principalmente para aquelas que ainda não têm coragem ou condições de vir à público.

É até possível dizer que estamos no caminho certo. Ou quase. Há quase duas semanas a mídia esportiva começou a receber uma atenção com a qual não está muito acostumada, e isso se deve ao fato da justiça italiana ter condenado em primeira instância o atacante Robinho por ter abusado sexualmente de uma jovem albanesa em uma discoteca em Milão, junto com mais cinco homens. O crime foi cometido em 2013.

“A decisão do tribunal afirma que os acusados ‘abusaram das condições de inferioridade psíquica e física da vítima, que havia tomado substâncias alcoólicas, com o agravante de terem-lhe dado bebida até que ficasse inconsciente e incapaz de resistir’. De acordo com o jornal italiano La Stampa, o grupo levou a garota ao vestiário do Sio Café em Milão, onde ‘múltiplas relações sexuais’ foram consumadas.” Fonte: El País.

O silêncio começa quando não se fala sobre as primeiras acusações de abuso sexual do jogador, que datam de 2009 quando ele chegou ao Manchester City, segundo o El País.

O silêncio se espalha e é esmagador.

Por onde passa, Robinho é ídolo da maioria dos clubes pelos quais jogou. Desde os próprios City e Milan, “casas” de seus abusos, até o Real Madrid (onde fez parte dos chamados Galácticos, “panelinha” composta por jogadores como ele, Ronaldo Fenômeno, Zinedine Zidane, Roberto Carlos e David Beckham), Santos (clube paulista que o revelou) e Atlético Mineiro (clube que defende atualmente), só pra citar os principais. Ele não está sozinho no clube dos ídolos do esporte que carregam acusações sobre as quais ninguém fala. Uma matéria recente do Buzzfeed expôs os crimes de Cuca que, quando jogador, estuprou uma garota de 14 anos.

Falamos sobre Johnny Depp, que não teve sua carreira prejudicada após ser denunciado, mas não ficamos sabendo de denúncias que rolam no nosso próprio gramado, isso quando não somos obrigadas a ver “pessoas” como o goleiro Bruno serem contratadas para jogar novamente como se absolutamente nada tivesse acontecido — ainda que, no caso do Bruno, o Boa Esporte tenha perdido uma esmagadora parcela de seus patrocinadores.

O quanto diz o silêncio do Atlético Mineiro?

Na cultura popular, temos muitos ditados sobre silêncio. Desde os mais simples e usados como “quem cala, consente” (que é perigosíssimo, nem precisa dizer), até os mais mutáveis como “o silêncio diz tudo” e suas variações. Não é a primeira vez que o Atlético Mineiro escolhe o silêncio, e, na falta de palavra melhor e mais jornalística, vacila.

Vocês podem não se lembrar, mas no início de 2016, o Galo foi cenário de mais desrespeito quando colocou mulheres de calcinha para desfilar com os novos uniformes do time aliada à marca DryWorld, fornecedora de materiais esportivos que, na etiqueta de suas roupas, dá a dica: “dê a sua mulher.” Para lavar, no caso. Sim, isso foi em pleno 2016.

Então, agora no final de 2017, o Atlético volta  a receber atenção da mídia com um discurso que se limita a dizer que a acusação de Robinho é um problema pessoal e nada tem a ver com o clube. Deixa eu ver se eu entendi: o jogador participa de um estupro coletivo e isso é um problema só dele? Que tipo de imagem esse clube quer passar para suas torcedoras? Eu respondo: a imagem de que o clube não se importa nem um pouco com elas, já que retirou faixas de protesto de torcedoras feministas do Galo que diziam “Um condenado por estupro jogando no Galo é uma violência contra todas as mulheres!

“De acordo com uma das integrantes do grupo, ‘a omissão do clube é inadmissível, já que o atleta foi condenado em primeira instância e, em vez de se preocupar com o fato, a diretoria cogita a hipótese de que ele permaneça’. O contrato de Robinho com o Atlético vence em dezembro. Ele tem um dos maiores salários do clube – cerca de 800.000 reais – e negocia a extensão do acordo por mais um ano com redução dos vencimentos.” Fonte: El País.

Há quem defenda o jogador e o clube, inclusive. Muitos torcedores utilizaram de piadas homofóbicas ainda bem típicas dos clubes mineiros, dizendo que Robinho era “um estuprador de Marias” (onde “Maria” é a forma como os torcedores do Galo chamam, de maneira pejorativa, os torcedores do Cruzeiro). A homofobia e o machismo ainda andam de mãos dadas em muitos aspectos do futebol.

Recentemente, o El País publicou um artigo excelente sobre o silêncio do clube:

“Ao contrário de ocasiões em que o clube se vê prejudicado pela arbitragem ou por arbitrariedades da CBF, quando discursos verborrágicos inundam câmeras e microfones, o Atlético adere ao silêncio de forma covarde e conveniente (…)

É sintomático que, há pouco tempo, o gol de Jô com o braço tenha gerado mais repercussão que o fato de um jogador condenado em primeira instância por estupro seguir treinando e jogando sem dar maiores explicações. (…)

Sem nenhum pudor, os homens que comandam o futebol não demonstram tanta solidariedade com as justas reivindicações femininas como a lealdade dedicada a jogadores intocáveis. (…) Muito além de títulos e vitórias, a grandeza de um clube é medida por atitudes que transcendem o campo e a bola. Ao blindar o astro da companhia e ignorar as vozes de torcedoras que também ajudaram a moldar sua fama como o time da massa, o Atlético se apequena.”

O quanto vale, então, a voz do Santos?

Embora o artigo do El País citado acima mencione “tão vergonhosa quanto a omissão dos cartolas atleticanos é a conduta do Santos, ex-clube de Robinho, que não expressou nenhum desconforto em oferecer contrato de quatro anos” e o interesse do presidente recém-eleito José Carlos Peres em resgatar grandes ídolos, o que se vê em coletiva no Santos é diferente.

No último dia 11 de dezembro, o presidente do clube afirmou categoricamente a falta de interesse em algo que manche a imagem do clube e seus valores, afirmando que a prioridade é privilegiar “a marca do Santos” e aumentar o público feminino. “Gostaria que o torcedor entendesse isso: precisamos revitalizar a marca do Santos, trazendo ao mercado com nova cara.“. Peres afirma também que Robinho “talvez não esteja no perfil que queremos no novo Santos“, e que não se pode trocar o valor do clube por uma decisão (de contrato).

A entrevista “pegou mal” com os representantes do atacante, e agora um retorno ao clube parece improvável.

Não é a primeira vez que o Santos levanta a voz em defesa do seu público e futebol feminino. Mais cedo esse ano, em maio, o clube promoveu uma coletiva de imprensa diferente: além de David Braz, as jogadoras Maurine e Dani, recém convocadas para Seleção Brasileira na época, apareceram para conversar. Falar sobre o futebol feminino em tempos de machismo tão escancarado dificilmente abre portas para luzes no fim do túnel, mas fica o desejo de que o Atlético perca o medo de perder um jogador e, assim como o Santos, escolha a voz ao invés do silêncio.

Para ler mais:

Robinho: como o futebol alimenta a cultura do estupro e menospreza a violência contra mulheres
Galo e o desfile machista
Um manifesto aos clubes, à imprensa, ao futebol: o goleiro Bruno assassinou uma mulher
Caso Robinho: quando o futebol oculta o crime
#MeToo: os assédios ocultos no mundo do esporte

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1 Comentário

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    Mirian de Paula
    17 de dezembro de 2017 at 13:38

    Uma falta de respeito do Atlético Mineiro. É como se eles dissessem que futebol é só para homens ou que a torcida feminina é insignificante. E o pior é ver que eles fazem isso porque tem muita gente que passa pano pra isso, como se a condenação, por ser de primeira instância, não valesse nada e a gente só tivesse julgando a vida alheia do jogador ou que isso não precisa atrapalhar sua vida profissional – bem Johnny Depp mesmo. Mas a decisão do Santos é uma mudança muito bem vinda nesse cenário e muito mais condizente com nossas demandas. Adorei!!

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