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Call the Midwife e o olhar multidimensional sobre as mulheres

“Nonnatus House, midwife speaking”. Call the Midwife ficou na minha lista de séries para assistir por muito tempo até que eu finalmente desse uma chance a ela. Pouco eu sabia sobre o enredo, à parte de que era uma trama de época sobre parteiras, como insinua o título, e produzida pela BBC, emissora da qual sou fã por todas as produções impecáveis. Não foi preciso avançar muitos episódios até que eu me sentisse completamente envolvida por ela, entregue à abordagem das relações humanas em meio às histórias emocionantes com mulheres no centro da trama.

Para compreender e se conectar com Call the Midwife, é preciso entender que a série tem um pano de fundo histórico. Suas três primeiras temporadas foram inspiradas nas experiências da enfermeira Jennifer Worth, registrada em uma trilogia de livros, Call the Midwife, Shadows of the Workhouse e Farewell to the East End, não traduzidos no Brasil. O cenário é Poplar, o bairro mais pobre da região East End, em Londres. A época é o final da década de 50, a Inglaterra estava se restabelecendo da Segunda Guerra, e a autonomia das mulheres era, bem, insignificante.

Em primeiro plano, Call the Midwife é sobre a personagem interpretada por Jessica Raine, Jennifer Lee, e sua trajetória (pois, como mencionei acima, a série foi criada a partir dos livros de Worth). Recém-habilitada como enfermeira, Jenny, como é chamada, decide ir trabalhar como parteira no convento Nonnatus House para se refugiar de um amor não correspondido. Jenny entra em cena como uma jovem inexperiente, que não conhecia a miséria e a dificuldade de fato até aquele momento, e se vê perplexa com tamanho contraste em relação à vida que estava acostumada. Seguindo o roteiro baseado nos livros, caso após caso, percebemos como a grande jornada dela é o crescimento pessoal. Durante o tempo que Jenny passa trabalhando como enfermeira, ela aprende, por meio do contato com seus pacientes, a ver além das condições em que vivem – ela passa a ver pessoas que vencem obstáculos todos os dias de suas vidas e em sua condição humana são cheias de sentimentos: tristeza, dor, solidão, e também bondade, esperança e amor.

Em segundo plano, a trama equilibra seu foco para os problemas da época e das questões dos pacientes, das enfermeiras e das Irmãs que se dedicam a cuidar da população todos os dias.

Tomando a dianteira de Call the Midwife, temos um grupo de parteiras/enfermeiras que também trabalham e habitam o convento. Além de Jenny Lee, Trixie Franklin (Helen George) e Cynthia Miller (Bryony Hannah) são as enfermeiras responsáveis por atender as pacientes durante o dia e alternar plantões durante a noite. Trixie, apenas alguns anos mais velha do que Jenny, pode parecer fútil com sua aparência, mas tem seu trabalho como prioridade e sua experiência é confortante para todas suas pacientes. Cynthia é possivelmente a mais reservada das enfermeiras, mas é muito competente e amigável, e a grande questão em sua vida é apresentada mais para frente.

Um pouco depois da chegada de Jenny, Chummy Browne, interpretada pela incrível Miranda Hart, também é introduzida à trama. Chummy é uma moça desajeitada, porém de enorme coração e presença reconfortante. Embora tenha tido uma vida confortável e cheia de oportunidades, o distanciamento da família fez com que ela optasse por trabalhar cuidando de outras pessoas, algo que ela acaba por fazer muito bem.

Agora, como o ambiente em que elas trabalham e vivem é um convento, a presença de freiras é presumível e certa: sendo a maioria delas já senhoras, Call the Midwife conta com um grupo de Irmãs que atuam como mentoras para as jovens enfermeiras e dão um toque diferente na essência da série.

Irmã Julienne (Jenny Agutter), responsável pela Nonnatus House, é uma enfermeira experiente e sempre contida quando se trata de resolver os conflitos que surgem em Nonnatus House e na comunidade. Irmã Evangeline (Pam Ferris), por outro lado, é competente e durona por consequência de um passado difícil que teve de enfrentar, como descobrimos depois, e isso a faz compreender suas pacientes e guiá-las como ninguém. Irmã Bernadette (Laura Main) é a segunda freira mais calma e responsável entre todas, mas sua juventude, em relação às outras, ainda lhe deixa dúvidas a respeito de sua vocação. Por toda a questão de escolha do próprio destino versus fé, seu enredo é um dos mais interessantes.

Por último, mas não menos importante (jamais menos importante), temos Irmã Monica Joan (Judy Parfitt) que foi uma das primeiras parteiras qualificadas na Inglaterra. Mas agora em idade avançada e considerada senil, ela se aposentou e ficou aos cuidados das Irmãs. O alívio cômico da série é, muitas vezes, vindo dela, com seus comentários inocentes, o vício por bolos e o interesse em astrologia. Eu acredito piamente que ela é somente uma pessoa excêntrica, e essa margem de dúvida fica para todo mundo. Uma questão abordada em torno dela são as controvérsias da velhice, mas também a beleza dessa fase da vida quando paramos para enxergá-la. Call the Midwife trata em maior parte de nascimentos, mas o que seria abordar o início da vida sem também mencionar o inevitável fim?

Com tais diferenciais, vejo o balanço da representação de Call the Midwife como sendo positivo e importante na televisão. Eu, por exemplo, que jamais parei para pensar na devoção que pode influenciar uma mulher a abdicar de sua vida para servir a Deus, me peguei enxergando essas personagens como pessoas cujo passado foi deixado para trás por escolha própria, em prol de um “chamado” que vai além da minha compreensão. Movido, penso eu, por sentimentos altruístas de devoção aos outros e ao divino.

Com o avanço das temporadas, algumas subtrações e adições são feitas ao elenco, e gradualmente vamos sendo apresentadas a novas personagens. A jovem Barbara (Charlotte Ritchie), por exemplo, tem os modos recatados da filha de um pároco, mas isso não quer dizer que em sua personalidade não tenha a determinação necessária para o ofício, mesmo que momentos de insegurança surjam às vezes. Patsy (Emerald Fennell), por outro lado, chega a Nonnatus House com pouca experiência com partos, mas faz o que é possível para se ajustar – no trabalho e na vida. Vocês já pararam para pensar como seria ser homossexual em meados da década de 60, em que uma simples insinuação poderia arruinar a sua vida? Então, Call the Midwife faz essa abordagem também. Já Phyllis (Linda Bassett) é uma mulher com certa idade, também marcada por dificuldades, mas que hoje encara sua profissão com extrema seriedade e dominância, relevando comentários sobre considerarem-na uma solteirona, ou até o fato de ser um pouco deslocada convivendo com moças tão jovens.

Cada uma delas acrescenta à outra de alguma forma, e juntas elas se unem a comunidade para denotar o valor individual da história de cada um, independente do contexto social e racial.

Mas, Call the Midwife também não seria metade do que é se os pacientes não trouxessem sua bagagem com a devida parcela de moral. Logo no primeiro episódio, Trixie conversa com Jenny Lee para tentar acalmá-la após testemunhar as precárias condições em que suas pacientes viviam. “Você achou difícil quando chegou aqui?”, perguntou Jenny Lee. E Trixie respondeu: “Achei que merecia todas as medalhas. Acordada a noite toda. Andar de bicicleta por quilômetros. E então, um dia eu percebi… Eu não merecia medalha alguma. As mães que são corajosas. Um bebê após o outro, em condições abomináveis, e elas seguem em frente. Elas são as heroínas, eu só estou aqui pra ajudar.” E eu acho que esse diálogo resume tudo. O foco de Call the Midiwife é a atuação em uma comunidade carente onde as famílias são numerosas; não há controle de natalidade (eis o início da geração baby boom) e métodos contraceptivos ainda não existiam.

Cada episódio apresenta um novo caso, a maioria deles circundando as dificuldades de ser mulher e mãe, sem recursos, em uma sociedade patriarcal. Sendo que até aquelas mulheres que trabalham estão suscetíveis a julgamentos e são vulneráveis em sua condição. Ter uma figura masculina no quadro é, na época, essencial para manter a boa reputação e também uma oportunidade de sustento, uma vez que é o homem o principal provedor. As mulheres, por sua vez, são limitadas a tarefa de serem donas de casa e mães, submissas às decisões do marido. Além de, em muitos casos, serem diminuídas, sofrerem abusos, e serem as protagonistas do sofrimento que envolve todas as dores da gravidez, do parto e do pós-natal.

Casos de depressão, complicações como eclampsia, e outras doenças são constantes nos episódios, como compromisso de demonstrar quais eram os desafios daquela época. Época em que as mulheres decentes se mantinham virgens até o casamento, caso contrário, se elas engravidassem, o casamento entre as duas partes teria de ser arranjado antes de a barriga começar a aparecer. Histórias de mulheres solteiras, adolescentes, prostitutas, vítimas de abuso estando grávidas ainda por cima mostram que nada, nada é fácil.

Esse toque sensível e dimensional de Call the Midwife é transmitido com tanta precisão por ser um trabalho saído das mãos de mulheres. A criação da série é um trabalho de Heidi Thomas, e o maior número dos episódios foi dirigido, escritos e/ou teve um toque feminino em algum cantinho dos bastidores.

É interessante ter acesso à parte publicitária de Call the Midwife – por meio da página oficial do Facebook, por exemplo, a série aproxima os fãs dos melhores detalhes do making-of da série de um jeito único. As publicações não têm uma função meramente promocional, quem quer que esteja por trás dela, escreve textos com carinho, valorizando cada aspecto que constrói a série. Desde os créditos às pessoas por trás das câmeras que trabalham para torna-la cada vez melhor, quanto compartilhamento de artigos positivos sobre a importância dos temas da série na televisão atual e campanhas solidárias que buscam ajudar as pessoas que sofrem com as dificuldades mostradas na tela.

No Dia Internacional da Mulher deste ano, foi postada uma declaração na página sobre intuito que eles têm ao fazer a série alcançar milhões de telas ao redor do mundo (além de meramente entreter, é claro):

Call the Midwife coloca as mulheres no centro de todos os episódios, e as histórias delas na parte central do nosso mundo. O papel da mulher na sala de parto – e o aspecto positivo dos relacionamentos femininos visto de forma mais abrangente – tem sido frequentemente invisível na cultura popular. Ainda que a imensa popularidade do nosso programa demonstre que nossos telespectadores, homens e mulheres, veem isso como algo positivo e natural para um seriado mostrar. Esperamos que chegue o dia em que esse drama seja tão natural que não precise de uma menção especial – ou sequer um dia especial no calendário.

E foi assim que, sem pretensão, Call the Midwife se tornou uma das minhas séries preferidas. Não vou dizer que seu gênero é de agradar a gregos e troianos. Sejamos realistas: não é. Se você procura algo mais movimentado e mais imaginativo, essa não é a série mais indicada. Mas, se você estiver procurando algo para acrescentar à sua grade que tenha um olhar multidimensional sobre mulheres, eu recomendo que dê uma chance a esta.

E aviso: se você é sensível como eu, prepare uma caixa de lenços. Quando eu digo que as histórias são no mínimo comoventes, não estou exagerando.

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7 Comentários

  • Responda
    Nana Castro
    26 de agosto de 2016 at 15:09

    Ótimo texto!
    Call de Midwife é uma das minhas séries preferidas também.
    E também como você, chorei muito durante alguns episódios. Fui levada a série por causa dos bebês e fui envolvida por todo mundo no final. <3

    • Responda
      Yuu
      27 de agosto de 2016 at 17:50

      Que bom que gostou do texto, Nana! Call the Midwife é maravilhosa, eu precisava que o mundo soubesse o quanto essa série acrescenta em nossas vidas. <3

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    Gabriela
    29 de agosto de 2016 at 14:23

    Adorei, já quero ver essa série!

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    Juliana Hampel
    7 de novembro de 2016 at 16:45

    Olá Yuu, o seu texto sobre a série está excelente! Call the midwife é uma série que tem me ensinado tanto sobre a vida humana como nenhuma outra!! Alguns episódios me deixaram extremamente triste, entretanto outros me levaram a um conhecimento da história recente da Inglaterra – que tem a ver com tanta coisa, como esse pós-guerra difícil europeu – que me chocou bastante. A questão homossexual, dos idosos e dos pobres e loucos é abordad de forma lúcida e construtiva, muito interessante mesmo….também tenho recomendado a série pra quem se interesse pelos temas….um abraço!

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    Diana
    24 de fevereiro de 2017 at 18:01

    Ótimo texto!!!
    Estou assistindo a terceira temporada, cada dia mais encantada com esta série.

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    Thais
    2 de agosto de 2017 at 14:23

    Yuu, muito bom o seu texto. Expressa com muita clareza a sensibilidade desta excelente série.
    Acabei agora de assistir a quarta temporada.
    Mas tenho uma dúvida em relação ao texto após a terceira temporada. Se as três primeiras passagens são baseadas nas experiências da enfermeira Jenny Lee, as histórias passam a ser estritamente ficção após a saída dela do grupo?

    Sds,
    Thais

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    Elaine
    12 de agosto de 2017 at 17:22

    Excelente texto! Só verdades.
    Sempre que preciso recarregar a fé na humanidade assisto e me.sinto abraçada.

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