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De prostituída a silenciada: o que fizeram com Brona/ Lily e com todas nós

Uma mulher num relacionamento abusivo pede ajuda à família e é aconselhada a se casar com o homem que lhe agride a fim de preservar a honra. Ela, então, sozinha no mundo e sem conseguir um trabalho sequer, acaba por prostituir o seu corpo para ganhar o pão de cada dia. Os horrores das esquinas e das pesadas mãos que lhe violentam acabam por deixá-la doente, à beira da morte.

Essa poderia ser a história de qualquer pessoa anônima, mas o que a faz diferente é que foi retratada numa das séries de maior sucesso dos últimos anos: Penny Dreadful. A série já acabou há alguns meses, mas eu simplesmente não consegui tirar a trama da Brona/ Lily (Billie Piper) da minha cabeça. Isso porque o terror dela – que foi prostituída desde o primeiro episódio em que aparece – não terminou na morte por conta de uma tuberculose adquirida durante a prostituição, mas sim numa cruel ressurreição feita pelo Dr. Frankenstein (Harry Treadaway) apenas e tão somente no intuito de usar o seu corpo pra o prazer de outro homem – no caso, sua outra criatura, John Clare (Rory Kinnear).

Só que Lily faz o que todas nós gostaríamos de fazer – e temos feito! – ao ser entregue a outro homem, sem nem ao menos ter sido perguntada se queria ou não: ela dá um dos melhores discursos feministas já vistos em séries, colocando o cara em seu devido lugar, bem longe dela.

“Lisonjeamos nossos homens com a nossa dor, curvamo-nos diante deles, tornamo-nos bonecas para o deleite deles. Perdemos nossa dignidade em espartilhos, no salto alto, na fofoca e na escravidão do casamento. E nossa recompensa por esse serviço? As costas da mão, o rosto virado no travesseiro, a vagina dolorida e ensanguentada enquanto nos forçam, em nossas camas, a aguentar seus corpos gordos e arfantes! Vocês nos arrastam para os becos, meu rapaz, e se forçam em nossas bocas por dois xelins, quando não estão batendo na gente com toda a força! Quando não estamos com os olhos, a boca, a bunda e a vagina ensanguentados! Nunca mais vou me ajoelhar perante nenhum homem. Agora eles devem se ajoelhar perante a mim.”

Mas, após todo esse vrá nas caras do Frankenstein e do John Clare, Lily acaba se envolvendo com Dorian Gray (Reeve Carney). No início, tudo bem: ambos têm muita ambição, são imortais e querem desfrutar dos prazeres da vida. Porém, quando Lily começa a tomar as rédeas da própria existência e se rebelar contra o sistema patriarcal, formando um exército de mulheres prostituídas que se vingariam dos homens que lhes fizeram mal – ou de qualquer homem que se meter em seus caminhos –, Dorian não gosta e tenta podá-la. E é assim que Lily, mais uma vez, é silenciada, numa parceria de dois homens que se odiavam: Frankenstein e Dorian.

Eles tentam aplicar na coitada da Lily um soro, produzido pelo Dr. Jekyll (Shazad Latif), que “curaria” a loucura dela. Agora, vamos conversar: isso não soa como a cura gay? Ou como a cura do lesbianismo através de estupro corretivo? A série se passa na Inglaterra vitoriana, e uma mulher ser tratada dessa forma, por mais cruel que seja, era da época e dá pra entender por que tal horror está na série. Porém, e hoje em dia? Por que, cada vez que uma de nós se levanta pra dizer que não vai permitir algo, pra reclamar um direito seu, pra falar, tomar posse da sua existência, logo surgem pessoas com “curas” e métodos de persuasão pelo medo – seja da religião, do Estado ou da insegurança – para que nos calemos?

“Você não vê a crueldade do que faz, Victor? Você criou vida, então a deixe viver! Monstruosa eu posso ser aos seus olhos. Uma besta selvagem, você diz, então que seja! Eu sou a soma de uma mulher atual. Nada mais, nada menos. Aquela mulher conhecia a dor e o ultraje tão terrível que a transformou numa coisa má compreendida que você tanto detesta, mas deixe-a ser o que ela é!”

O final da história de Lily é amargo, pesado, triste e incrivelmente real. Mesmo ela sendo uma personagem de ficção sobrenatural, ainda assim todas as coisas terríveis que lhe são feitas não são diferentes do que nós, mulheres, enfrentamos no dia a dia, apenas de outras formas. Também somos vistas como propriedade pública até o momento em que nos tornamos propriedade privada, quando um homem afirma ter o domínio dos nossos corpos. E, ao não aceitarmos isso, ao nos rebelarmos, somos chamadas de loucas, somos silenciadas, tentam nos fazer voltar ao que éramos antes.

Penny Dreadful não foi apenas mais uma série de terror, foi também um espelho da nossa sociedade e de como ela ainda guarda resquícios dos tempos vitorianos, em que a mulher era apenas um objeto. A diferença entre nós e as sufragistas da época é que temos internet. Brona/Lily não tinha, muito menos a quem recorrer. Será que nós a ajudaríamos se a encontrássemos por aí, expulsa de casa e tendo de se prostituir para comer? Tenho cá minhas dúvidas.

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3 Comentários

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    Bruno Marcelo Porto
    22 de novembro de 2017 at 04:07

    Feminista? “Agora eles devem se ajoelhar perante a mim”

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    Bruno Marcelo Porto
    22 de novembro de 2017 at 04:20

    https://www.youtube.com/watch?v=n2yd_q52CUE.
    Acho muito válido boa parte do texto. Chama a atenção à marginalização da mulher, porém, este vídeo ilustra bem que a personagem não é feminista, ela prega abertamente a superioridade feminina e a vingança aos homens. Mesmo citando seu antigo amado e até então tendo uma visão inocente do Dorian.
    Ele é abertamente uma femista.

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      Mia
      22 de novembro de 2017 at 09:28

      Olá, Bruno.
      “Femista” não existe e, já que você é tão informado sobre o movimento feminista, deveria saber que muitas mulheres, após passarem por diversos traumas, querem mais é matar todo mundo. Honestamente? Nada contra. Cada uma lida com seus traumas da forma que for possível. E eles deviam se ajoelhar mesmo.

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