LITERATURA

Brida: descobrindo as bruxas que moram dentro de nós

Muito se fala sobre Paulo Coelho: que sua literatura é superficial, que seu esoterismo é inventado e que a fama de Mago não passa de estratégia de marketing. Mas não foi isso o que eu encontrei em Brida. Em 1983 Brida O’Fern, uma jovem irlandesa de 21 anos, decidiu trilhar o caminho da magia. Alguns anos mais tarde Paulo Coelho, durante uma peregrinação aos Pirineus, conheceu Brida e pediu permissão para escrever um livro sobre a sua história de descoberta da magia. Foi assim que nasceu o livro Brida, o relato romanceado de uma bruxa moderna.

Desde crianças somos inundados com histórias sobre bruxas malvadas que raptam criancinhas e adoram ao diabo. Porém, essa visão é puramente parte da educação cristã que ainda se faz presente no imaginário infantil. Bruxas existem em todos os lugares, ainda nos dias de hoje, e são pessoas normais, gente como a gente. Podem sentar ao seu lado no ônibus e você nem perceber. Não há vestimentas padrão – a não ser em rituais específicos, claro – e hoje elas podem respirar livremente sem o medo da repressão religiosa. Assim como a Brida do livro, elas usam jeans e camiseta, frequentam faculdades, gostam de música pop e não têm paciência pra lidar com burocracia. O que as difere é a forma de encarar o universo.

“Magia é uma ponte – disse enfim. – Uma ponte que permite a você andar do mundo visível para o invisível.
E aprender as lições de ambos os mundos.”

Quando Brida inicia seu caminho, a primeira coisa que faz é procurar um Mestre para ser seu guia, seu instrutor. Ela encontra o Mago, um Mestre ermitão da Tradição do Sol, que ensina através da natureza e das coisas simples do universo. Ela então conhece a Noite Escura quando o Mago a deixa sozinha no meio de uma floresta e ela precisa enfrentar a escuridão da natureza confiando apenas na sua fé de que tudo ficaria bem – e conhecendo a si mesma no processo. Trilhar o caminho da magia não é usar fantasias, acender velas e fazer rituais orgiásticos como mostram os filmes de Hollywood. Brida aprendeu isso naquela noite: a magia é estar em contato consigo mesmo para poder estar em contato com a essência da natureza, com as forças primárias e aprender qual é seu papel no mundo e nesta encarnação. Ela precisava descobrir seu Dom para poder começar a cumprir sua missão. Mas isso ela não iria aprender na Tradição do Sol.

Então após a Noite Escura, Brida procura uma Mestra da Tradição da Lua, Wicca. A Tradição da Lua ensina através do tempo, através de lembranças de outras encarnações, de pequenos rituais aparentemente insignificantes, mas que despertam a os dons adormecidos em cada um. E é aí que as coisas começam a acontecer porque finalmente Brida encontrou seu caminho. Existem duas tradições clássicas na bruxaria: a Tradição da Sol e a Tradição da Lua. Porém, ambas são a mesma, apenas com métodos diferentes de aprendizado. Em ambas o importante não é a ritualística e sim o conhecimento de si e do universo e o respeito a todos os seres vivos, pois todos estão também trilhando seu caminho – mesmo que não saibam ao certo qual é o caminho certo a seguir.

“- Aceite o que a vida lhe oferece, e procure beber das taças que estão na sua frente. Todos os vinhos devem ser bebidos: alguns, apenas um gole; outros, a garrafa inteira.
– Como posso distinguir isso?
– Pelo gosto. Só conhece o vinho bom quem provou o vinho amargo.”

Com Wicca e a Tradição da Lua, Brida aprende que já seguiu pelo caminho da magia em outras vidas, aprende a viajar no tempo para conhecer onde sua alma já esteve e também a reconhecer sua Outra Parte: uma das partes de sua alma que em algum momento se separou, mas cujo destino é se reencontrar para estar completa. Parece o mito da Alma Gêmea e não deixa de ser, só que de uma forma menos grega e mais espiritual. O desafio de Brida, assim como o de todos os seres humanos (de acordo com as Tradições) é encontrar sua Outra Parte para trocar lições cármicas e reverberar um amor genuíno no universo.

De todos os livros de Paulo Coelho, talvez Brida seja o mais genuíno por se tratar de uma história real. Claro que existem outros livros dele com protagonistas femininas – A Bruxa de Portobello, Veronika Decide Morrer e Onze Minutos são apenas alguns exemplos – porque a temática da bruxaria, da magia, da transmutação é muito ligada ao universo feminino, ao mistério de ser mulher. Mas Brida é tão diferente justamente porque a mulher que deu nome ao livro é uma pessoa de verdade, uma mulher como qualquer uma de nós, que tinha um emprego apenas para pagar as contas, teve de trancar a faculdade de Letras pela metade, ainda morava com os pais e tinha um namorado que não entendia muito do seu mundo mágico, mas que estava ali tentando apoiá-la sempre. Sua mania de desistir de tudo o que começava a havia feito pensar que não servia para nada. A insegurança de Brida era muito forte e ela precisava se sentir segura para poder saber quem era.

Esse não é apenas um livro sobre magia. Não é tampouco uma história de amor, apesar de haver magia e amor na história. É, na verdade, a história de uma mulher em busca de si própria e que chega a si mesma através de rituais que parecem ridículos e inúteis, mas que a ensinam a ter paciência e persistência para atingir seus objetivos. Ao decorrer da leitura, também podemos aprender as lições com Brida, mesmo que nosso caminho não seja o mesmo dela e não estejamos participando de Tradição alguma para descobrirmos as bruxas que moram dentro de nós.

“Mergulhamos na Noite Escura com fé, cumprimos o que os antigos alquimistas chamavam de Lenda Pessoal e nos entregamos por inteiro a cada instante, sabendo que sempre existe uma Mão que nos guia: cabe a nós aceitá-la ou não.”

Para as Tradições, as mulheres podem ser quatro arquétipos a cada encarnação: a Virgem, que descobre a sabedoria do mundo através da solidão, a Santa, que descobre a sabedoria através da entrega, a Mártir, que descobre a sabedoria através do sofrimento e a Bruxa, que descobre a sabedoria do mundo através do prazer. O arquétipo da bruxa é o único que não foi aceito durante muito tempo justamente porque para o cristianismo, e basicamente todas as religiões patriarcais, é imoral e pecaminoso uma mulher sentir prazer e admitir isso, que o fará descobrir a si mesma e entender o mundo pelo prazer – de viver, de sentir, de estar entre as pessoas, da comida, do sexo. A igreja consagrou muitas santas, virgens e mártires, mas nenhuma bruxa.

O livro todo se baseia na mensagem mais poderosa que pode existir para o autoconhecimento: corra riscos; não tenha medo de correr riscos e se surpreenderá no caminho. Brida se surpreendeu ao reencontrar seu Dom e tantas outras mulheres que estavam ali, em volta de uma fogueira gigantesca no meio de uma floresta, se sentindo livres, cantando e dançando e celebrando a Alma do Universo que ali se manifestava. A fogueira, que durante séculos foi motivo de medo e dor, que consumiu milhares de mulheres acusadas de bruxaria, agora é um símbolo de libertação e comemoração, de reunião da força feminina que mais uma vez se reúne para ser chamada de bruxa, feiticeira, maga ou mulher, mas agora com liberdade de ser quem se é. Sempre.

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a Editora Companhia das Letras.


** A arte em destaque é de autoria da nossa colaboradora Carol Nazatto. Para conhecer melhor seu trabalho, clique aqui!

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1 Comentário

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    Ludimila
    2 de novembro de 2017 at 09:23

    Já li esse livro e adorei, não sabia que Brida tinha sido uma pessoa de verdade, me fez gostar mais ainda!

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