CINEMA

A Bela e a Fera: quando a redenção não é possível

A versão live-action de A Bela e a Fera é muito parecida com a animação, o que já era possível observar nos trailers. Acompanhei muita gente falando mal disso, mas não achei nenhum grande problema. Aliás, a semelhança foi o elemento mais explorado na divulgação do filme;  todas as cenas liberadas, falas e músicas eram quase – se não totalmente – iguais às da animação. A semelhança não incomoda (pelo menos não aos fãs da história como eu) porque o filme conta uma boa história, e boas histórias valem sempre a pena serem contadas. Contudo, a nova versão apresenta algumas diferenças que, apesar de serem sutis, conseguem diferenciar o filme da animação.

Atenção: o texto contém spoilers!

Numa entrevista, uma jornalista pergunta a Luke Evans, ator que interpreta Gaston no filme, se seu personagem era mesmo um vilão ou apenas mal-compreendido. E o ator responde, assertivo: “não, ele é o vilão”. Se na animação há certa ambiguidade quanto ao caráter de Gaston, o filme em live-action não deixa dúvidas. Ironicamente, ao mesmo tempo que Gaston se torna mais vilanesco e maldoso, o personagem também parece mais real. Não só porque ele é interpretado por uma pessoa e que não seja mais um desenho, mas as suas falas e atitudes são bem comuns na vida real e representam muito do que há de errado com a sociedade.

A grande lição de A Bela e a Fera é que não é bom julgar pela aparência, e de que o amor não é algo que surge do nada, e sim algo que é construído ao longo do tempo. Normalmente relacionamos essas duas lições à Fera (Dan Stevens), ou melhor, ao príncipe transformado em fera, mas elas – principalmente a primeira – também se aplicam à Gaston.

A Fera, apesar de sua aparência e temperamento assustadores, ganha mais desenvolvimento em seu passado, a deixando menos animalesca e mais humana. O príncipe – que desde a animação permanece sem nome – perdeu a mãe cedo e foi criado pelo pai abusivo para se tornar o jovem egoísta e superficial que é amaldiçoado anos depois. Bela (Emma Watson) também ganha mais camadas quando é explicado o que aconteceu com sua mãe; ela morreu em Paris durante um surto de peste bubônica e seu pai fugiu da doença para o interior da França com Bela ainda bebê. Esses pequenos detalhes são acrescentados para deixar o filme mais próximo ao passado histórico e também para humanizar a Fera e estreitar seus laços com Bela.

A primeira vez que encontramos Gaston no filme ele está no meio da cidade com seu amigo LeFou (Josh Gad) dizendo como a Bela  é a mais bonita, mas também a mais diferente de todas as mulheres que ele conhece, apenas por ela não querer nada com ele. Para Gaston, a rejeição de Bela às suas iniciativas é algo que o incentiva a continuar tentando ao invés de respeitar os sentimentos – ou a falta deles – de Bela. Isso soa um tanto familiar, não? É convenção social a ideia de que quando a mulher diz não ao homem e às suas investidas – sejam elas sexuais ou românticas – ela está preservando a sua feminilidade e a sua reputação. É muita loucura pensar que mulheres dizem não apenas porque não querem o que é oferecido à elas!

Ao contrário da animação, no filme, Maurice (Kevin Kline), pai da Bela, não é visto como louco pela população da cidade desde o início. Sua reputação só muda quando ele volta do castelo da Fera para tentar resgatar sua filha que se tornou prisioneira em seu lugar. É uma mudança significativa porque depois Gaston, tentando impressionar o pai da mulher desejada, aceita ir com Maurice em busca do castelo, mas eles não o encontram. Maurice percebe o interesse de Gaston em sua filha e reafirma que Bela nunca se casaria com ele. Para se vingar, Gaston decide abandonar Maurice desacordado e amarrado ao pé de uma árvore à vista e disposição de qualquer animal selvagem. Para ele, Maurice era apenas um obstáculo que o separava de Bela. Na animação, a crueldade gratuita de Gaston só é mostrada contra a Fera. No filme, ela é parte da construção do personagem, uma mudança significativa.

Maurice não morre, ao contrário do que Gaston pensa, pois ele é resgatado por Agathe (Hatie Morahan), a pedinte da cidade, e consegue sobreviver. Ele retorna à cidade para mostrar às pessoas a verdadeira face de Gaston, mas não consegue convencer ninguém – além de LeFou, que estava junto deles na floresta. Maurice é novamente visto como louco e Gaston providencia a sua internação. É esse o momento em que Bela retorna à cidade para salvar seu pai e provar a existência da Fera, mas seu plano dá errado ao incitar Gaston numa caça às bruxas, ou melhor, caça à Fera, e ele parte com o restante dos habitantes para o castelo e deixa Bela e seu pai presos para serem internados como loucos. Inconformado com a rejeição, Gaston decide chamar Bela de louca ao invés aceitar seus sentimentos. E novamente Gaston se prova ser um mal menos alegórico e cada vez mais real.

O gaslighting é o nome em inglês para quando os sentimentos e identidades de mulheres são apagados por homens ao chamarem elas de loucas. Ser “louca” nesse caso é não ter controle sobre sua racionalidade e, portanto, não pensar sobre o que diz, ou dizer mentiras. Bela é chamada de louca quando diz que a Fera não machucaria ninguém. Como pode um animal tão monstruoso ser tão humano? Bela é chamada de louca quando percebe que a monstruosidade não está na aparência de Fera, e sim no interior de Gaston.

Bela e Maurice conseguem escapar e a moça parte em busca da Fera para protegê-la de Gaston. No castelo, os habitantes transformados em utensílios domésticos se defendem dos ataques com bastante sucesso. É nesse momento também que Gaston mostra sua verdadeira face não só para seus inimigos, mas também para seu amigo, LeFou, que quase morre para protegê-lo e ainda é traído. LeFou então canta sua fala mais importante: “mas creio que o monstro errado foi liberto”.

Por ser vaidoso e julgar pelas aparências, o príncipe é amaldiçoado e transformado em Fera. Mas para Gaston, o verdadeiro vilão do filme, não há maldições, feitiços nem sequer lições para serem aprendidas. Sua aparência continua a mesma; ele é um homem atraente do começo ao fim do filme, o que não significa nada além disso: aparência. Ao final, os erros do príncipe são perdoados e a feiticeira que o amaldiçoou devolve sua forma humana, pois o príncipe, agora, só era fera externamente. Para Gaston não há redenção possível, apenas a sua morte. Pode ser um conto de fadas para crianças, mas não deixa de ser cruel. Cego por suas ambições, Gaston morre tentando matar a Fera. E sua morte é causada por ele mesmo e por mais ninguém.

Para uma história sem bruxas e madrastas malvadas e alegóricas, a vilania é muito bem representada. No filme, a feiticeira até está presente, mas não importa se ela é boa ou má, o antagonismo é todo de Gaston.

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2 Comentários

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    Ana Beatriz
    30 de março de 2017 at 00:09

    Também reparei nessas nuances do Gaston e que são bem visíveis no filme. Elas podem passar despercebidas por alguns, mas são extremamente importantes. É um retrato real de muitas pessoas com o qual temos que lidar no nosso cotidiano. O cara que não aceita o seu “não” e te chama de louca, o outro que só faz merda e mesmo assim tem as suas ações justificadas pela beleza… Eu gostei muito do filme, em todos os seus pontos. Acho que foi uma representação importante, ainda mais porque muitas crianças vao assistir, e eu espero que isso influencia-as a enxergar as coisas de uma forma diferente!

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      Júlia Medina
      30 de março de 2017 at 13:23

      sim! penso o mesmo! achei muito importante também quando ele deixa o lefou e não se importa em defender o amigo porque mostra mesmo que o gaston é uma péssima pessoa com todo mundo que não seja ele.

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