CINEMA

Batman vs Superman: A culpa não é do tom

Não é preciso estar muito por dentro no que diz respeito ao universo cinematográfico dos super-heróis para saber que Batman Vs Superman: A Origem da Justiça foi alvo de muitas críticas negativas no início deste ano – todas, aliás, muito merecidas.

Para além da fotografia desnecessariamente escura e do roteiro escrito porcamente (e mais cheio de furos que um queijo suíço), o filme apresenta personagens mal construídos e motivações que nunca são suficientes para convencer de que o conflito mostrado na tela é verdadeiramente relevante, muito menos é capaz de passar a real dimensão da importância do embate entre dois dos maiores nomes da DC Comics. De um lado, temos Batman (Ben Affleck) tentando provar que é o dono da verdade, enquanto do outro, temos Superman (Henry Cavill) tentando mostrar que não é uma ameaça, mas sim o herói que os cidadãos de Metrópolis precisam.

Não parece uma premissa muito interessante e, de fato, não é. O filme não se esforça para construir de forma apropriada seus personagens e não parece muito preocupado em contar uma história realmente digna, da mesma forma que não se interessa por apresentar mulheres que sejam verdadeiramente complexas e que não sirvam apenas como a) motivações para que os heróis deixem de lado suas diferenças e saiam em busca da verdadeira ameaça; ou b) como donzelas em perigo, que são mais inconvenientes do que qualquer outra coisa. Não fosse a presença da Mulher Maravilha (Gal Gadot), poderíamos facilmente descartar esse filme e fingir que ele nunca existiu.

Muito embora pareça irrelevante trazer o assunto à tona agora – afinal, a essa altura, é muito provável que muitas de vocês já estejam carecas de saber todos os motivos que fazem de Batman Vs Superman um filme tão ruim e problemático – é incrível como os envolvidos no projeto continuam, ainda, a ignorar os reais problemas da produção, mascarando-os com desculpas tortas mesmo quase sete meses após o lançamento. O caso mais recente disso (e que, não por acaso, motivou todo esse texto) foi o próprio Ben Affleck, que afirmou que o tom dado à narrativa foi o que incomodou o público, que esperava por uma produção mais leve, e não a execução, como muitos acreditaram.

“É interessante: foi um grande filme – mais pessoas viram esse filme do que qualquer outro que já fiz. Foi o grande hit da minha carreira e então teve muita coisa negativa editorialmente. Os fãs vieram, e eu tive muita resposta positiva deles. Esse filme foi interessante, porque ele não julgado necessariamente pela execução, e sim pelo tom. Parece que as pessoas queriam um tom mais leve, e achei isso interessante. O tom não é uma coisa qualitativa. É subjetivo, certo? Alguns tons vão ressonar mais em mim do que em você. E o tom do filme realmente foi paralelo com a obra de Frank Miller [O Cavaleiro das Trevas], que eu gosto muito e acho incrível. Estou satisfeito que tantas pessoas assistiram e gostaram do filme”

É quase como se eles fossem bons demais (ou apenas péssimos) para assumir seus próprios erros, como se esses erros não fossem os responsáveis por transformarem o filme no grande fiasco que é. Porque a culpa é do tom quando resolveram vender uma história sobre o embate de dois super-heróis mas só entregaram oito minutos de luta real. Porque a culpa é do tom pelo vilão de motivações tão vazias e pelos heróis tão burros ao ponto de cair como patinhos numa armação tão idiota. Porque foi o tom que transformou Louis Lane (Amy Adams) numa donzela em perigo pra fanboy nenhum botar defeito, e que só servia para ser salva ou exibir seu corpo numa banheira. Porque a culpa é do tom ao construir um conflito tão bobo que poderia ser facilmente resolvido com uma conversa. Porque a culpa é do tom, que resolveu usar duas mulheres para resolver o conflito de dois bebês chorões usando capas e fingindo salvar o mundo. Porque a culpa é do tom, quando sexualiza a Mulher Maravilha. Porque, aparentemente, a culpa de tudo isso é do tom e do público que não sabe de nada, e que não entendeu a verdadeira mensagem subjetiva e séria que o filme queria transmitir, afinal todos só querem saber dos filmes felizes da Marvel, com fotografia clara e vilões engraçadinhos, e a incapacidade de um diretor de transmitir sua mensagem com imagens e som não é realmente algo a ser questionado.

É quase como se fossemos fantoches, que não sabem reconhecer a qualidade de filmes de heróis sérios, como se a Marvel também não tivesse sua (grande, enorme, ridícula) cota de erros ou, ainda, como se não fossemos as mesmas pessoas que assistiram a trilogia do Batman dirigida por Christopher Nolan – uma trilogia bem amarrada, séria, com personagens verdadeiramente complexos – batendo palmas de pé.

Movidos pela crença de que o problema não está na forma como esses filmes são feitos, mas única e exclusivamente no tom mais sério que eles adquiriram, a Warner Bros. continua dando espaço para novos fracassos de crítica, como foi o caso de Esquadrão Suicida que, embora ache imediatamente menos problemático do que Batman Vs Superman, também teve sua cota de erros, repetindo velhos artifícios que já estamos cansadas de ver nesse tipo de produção.

É assustador pensar que, mesmo após tantos fracassos, Zack Snyder e muitos outros diretores, são tratados como se estivessem acima de tudo e de todos, e continuem ganhando uma chance atrás da outra para continuar cometendo erros fenomenais, mesmo quando essas mesmas chances custam o trabalho de muitas pessoas que nada têm a ver com suas decisões equivocadas, muito menos com o trabalho porco que vem sendo feito.

Há muito tempo essa deixou de ser uma questão sobre trabalho criativo em prol de fan service para se tornar um problema sério de estúdios, produtores e diretores, homens brancos que, consumidos pelo próprio poder e querendo cada vez mais e mais dinheiro, se recusam a olhar para além do próprio umbigo, ignorando não só crítica e público, mas aqueles que mantém uma organização como a Warner Bros. e tantas outras do meio verdadeiramente funcionando.

É realmente uma pena que, com uma oferta tão grande de filmes que buscam contar a história de super-heróis, muitas pessoas ainda acreditem que para ser bom, basta colocar dois caras brigando por um motivo idiota e algumas mulheres apenas pelo male gaze que vai ficar tudo bem – mas não vai. Não é isso que esperamos e não é isso que queremos ver. Ao irmos ao cinema, esperamos encontrar histórias bacanas, com personagens complexos e mulheres sendo tratadas como os seres humanos complexos e cheio de potenciais que são e não como um pedaço de carne como vem sendo feito produção após produção. A torcida que fica é para que tantos homens envolvidos nessas produções passem a reconhecer os próprios erros e comecem desde já a tratar essas histórias com o respeito e cuidado que elas, e seus fãs, merecem, e não como algo bobinho que só serve para dar dinheiro. Superando Batman Vs Superman e, principalmente, o próprio ego, talvez possamos assistir produções dignas num futuro nem tão distante assim. Do contrário, podemos começar a nos preparar para filmes cada vez mais problemáticos que certamente virão por aí (oremos pela Mulher Maravilha).

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