CINEMA LITERATURA

Batalha por Sevastopol: Lyudmila Pavlichenko e a participação feminina na guerra

Em 2015, foi lançado o filme russo Batalha por Sevastopol que, apesar do nome, é uma espécie de biografia de guerra da sniper do Exército Vermelho Lyudmila Pavlichenko. A crítica formal e a informal (feita por pessoas comuns que assistiram ao filme) caíram em cima do diretor, afirmando que ele não representou a face verdadeira da guerra. Será isso porque a heroína do filme é uma mulher real, com vida, família e interesses amorosos?

Quando o jornalista sueco Stieg Larsson terminou de escrever sua trilogia Millennium, por volta de 2004, ele colocou no mundo algo a que não estávamos acostumados até então na ficção: histórias com protagonismo feminino de mulheres que vão à luta, resolvem seus próprios conflitos e usam de violência se isso for necessário para garantir sua sobrevivência. Pouco mais de dez anos depois esse tema já é bem conhecido de todos nós, consumidores de cultura pop. Com a luta feminista cada vez mais alicerçada na política, na mídia e no cotidiano, é muito difícil pensar em um mundo onde as mulheres não tinham voz para lutar por seus direitos.

Contudo, o que poucos sabem é que as mulheres já foram grandes guerreiras – mas apagadas da história, escrita por homens e para homens. A ideia de deixar registros comprovando a existência de mulheres na guerra era temerosa para os comandantes da época e suas vidas foram apagadas dos livros. No último livro de sua trilogia, A Rainha do Castelo de Ar, ele abre a história com a seguinte citação:

Calcula-se em seiscentos o número de mulheres soldados que combateram na Guerra da Secessão. Alistaram-se travestidas de homem. Hollywood deixou passar batido todo um aspecto da história cultural – ou será que esse aspecto incomoda muito do ponto de vista ideológico? Os livros de história sempre tiveram dificuldade em falar de mulheres que não respeitam os padrões de gênero, e em nenhuma área essa limitação é tão evidente como na guerra e no que se refere ao manejo de armas.

No entanto, da Antiguidade aos tempos modernos a história é fértil em relatos protagonizados por guerreiras – as amazonas. Os exemplos mais conhecidos constam nos livros de história em que essas mulheres têm o estatuto de ‘rainhas’, ou seja, de representantes da classe no poder. Com efeito, a sucessão política regularmente coloca uma mulher no trono, por mais desagradável que essa verdade soe. Sendo as guerras insensíveis ao gênero e ocorrendo até mesmo quando uma mulher dirige o país, o resultado é que os livros de história são obrigados a registrar certo número de rainhas guerreiras levadas, consequentemente, a se comportar como qualquer Churchill, Stálin ou Roosevelt. Semíramis de Nínive, fundadora do Império Assírio, e Boadiceia, que liderou uma das mais sangrentas revoltas contra os romanos, são dois exemplos. Esta última, aliás, tem uma estátua à margem do Tâmisa, em frente ao Big Ben. Não deixemos de cumprimenta-la caso estejamos passando por ali.

Em compensação, os livros de história são, em geral, bastante discretos sobre as guerreiras que atuaram como simples soldados, exercitando-se no manejo das armas, integrando os regimentos e participando das batalhas contra exércitos inimigos em condições idênticas às dos homens. Essas mulheres, contudo, sempre existiram. Praticamente nenhuma guerra foi travada sem alguma participação feminina.

O assunto guerra sempre foi considerado um assunto masculino, ainda que a representação das mulheres nos conflitos bélicos não tenha sido – como nos conta a história tradicional – apenas a de enfermeira.

Durante muitos anos, a jornalista bielorrussa Svetlana Aleksiévitch saiu à procura de mulheres que tivessem lutado na Segunda Guerra Mundial pelo Exército Vermelho. Essas guerreiras, escondidas por seus maridos – ex-militares que levaram todas as honras enquanto para elas, mulheres, era uma vergonha ter participado da guerra – ou representando a imagem da boa vovó, com seus netos e seus quitutes, tinham muito que contar. E foi assim que Svetlana, ao longo de anos de depoimentos recolhidos, montou seu livro-reportagem que se tornou um sucesso absoluto de vendas por contar uma história que nunca deveria ter sido esquecida: a história das mulheres que pegaram em armas e lutaram na guerra. A Guerra Não Tem Rosto de Mulher é uma sucessão de entrevistas dolorosas feitas com senhoras já em idade avançada a partir de suas memórias de quando eram meninas novas e largaram tudo para lutar.

Não é à toa que o livro, publicado originalmente em 1985, veio para terras brasileiras apenas no ano passado. Foi preciso um movimento feminista muito forte para que questões de gênero tivessem relevância e o mercado editorial se preocupasse em publicar mais mulheres e histórias de mulheres. Apenas com a premiação do Nobel de Literatura em 2015, quando Svetlana foi reconhecida por seu extenso trabalho jornalístico e de recuperação da memória, é que o mercado editorial percebeu o quanto estava perdendo não publicando mulheres e suas histórias.

Curiosamente, 2015 foi o mesmo ano em que o mundo conheceu a história de Lyudmila, a sniper soviética que comprovadamente matou 309 nazistas entre 1941 e 1942. Em nossas mentes foi criado o imaginário coletivo de que mulheres foram somente enfermeiras durante as guerras. No entanto, não é isso o que os registros históricos nos contam. Mas até três anos atrás a cultura pop basicamente não mencionava isso. Para acharmos essas histórias precisávamos pesquisar a fundo e esse conhecimento não nos era facilitado. A participação feminina na guerra foi deixada de lado e simplesmente não ganhava espaço nas editoras e nos cinemas.

Digo isso pois Svetlana não foi a única a escrever a história das mulheres soldado e Lyudmila tampouco foi a única mulher a combater. Muitos anos antes de surgir a ideia para o livro-reportagem de Svetlana ou mesmo anos antes de Lyudmila pegar numa arma, Martha Gellhorn, correspondente de guerra, já escrevia crônicas da vida cotidiana durante os conflitos e da participação das mulheres neles – sendo que ela mesma ia para as linhas de frente para registrar o que estava acontecendo. Mas Martha não ganhou o Nobel. Apesar de ter sido a mais longeva correspondente de guerra de que já se ouviu falar, tendo coberto praticamente todos os conflitos do século XX, quem conquistou o prêmio máximo da literatura foi seu ex-marido e tão aclamado na Academia, Ernest Hemingway – que retratava as mulheres em conflitos como enfermeiras, nunca como soldados. O máximo que ficamos sabendo é que elas foram enfermeiras – mas nos é escondida toda a parte em que elas iam para os tanques, faziam combate corpo a corpo com baionetas e pegavam em fuzis; essa, afinal, é a versão que o mundo preferia até então.

Svetlana não cobriu a guerra que nos contou em seu livro, mas seu trabalho não é diferente do de Martha. Ao invés de relatar a guerra como a conhecemos, com suas milhares de datas, locais e nomes de generais que comandaram operações bem-sucedidas, ela nos permitiu conhecer a guerra das mulheres, tão diferente da dos homens. Uma guerra não feita de datas e locais, mas de memórias do cotidiano, de lembranças do terror da morte e de ter seus cabelos completamente brancos em dois dias de cerco.

É isso que mostra o filme Batalha por Sevastopol e isso foi o que irritou tanto a crítica, acostumada a filmes de guerra com homens fortes e suados que não têm sentimentos e possuem muitas estratégias para vencer o inimigo. Ver a história de uma mulher que foi sniper – considerada uma das melhores que já existiu – pelo Exército Vermelho e que, mesmo com toda a matança, tem seus momentos de romance, de paixão, de idealização e de sonho parece ter sido demais para aqueles acostumados ao estereótipo machão da guerra. Ainda mais porque sniper era o soldado especializado em matar, em caçar seu inimigo e matá-lo a longa distância, com precisão. Isso certamente não era visto como coisa de mulher, mas o Exército Vermelho não teve problemas em aceitar mulheres na luta e dar destaque a elas.

Lyudmila era uma mulher comum que cresceu com o sentimento de respeito e luta que o povo russo adquiriu por sua terra após conseguir conquistar a liberdade. Foram séculos sendo escravizados pelos Czares até que, por pressões da população, o governo decidiu acabar com a servidão. Mas isso não era o suficiente: apesar de não serem mais servos, ainda dependeriam do que tirassem de suas terras congeladas e teriam de pagar impostos altos a quem lhe “cedeu” as terras, mesmo mal conseguindo ter o que comer. Esse povo, após a Revolução Bolchevique, se tornou orgulhoso de sua recente liberdade e Lyudmila certamente nasceu numa época em que foi ensinada a amar sua pátria e dar o melhor de si para cultivar essa liberdade, esse poder do povo, e nunca mais voltar para as mãos dos Czares.

Em 1943 ela foi para os Estados Unidos promover a parceria entre os países para se unirem contra o nazismo de Hitler. Lá, Lyudmila apontou o machismo existente da época – e que, infelizmente, perdura até hoje. Em entrevistas coletivas, os repórteres fizeram “perguntas idiotas sobre roupas íntimas, maquiagem e corte do meu uniforme. Eles não sabem que há uma guerra? Um repórter até criticou o comprimento da saia do meu uniforme, dizendo que, na América, as mulheres usavam saias mais curtas e, além disso, meu uniforme me deixava gorda. Isso me deixou com raiva. Eu uso o meu uniforme com honra. Tem a Ordem de Lênin nele. Foi coberto de sangue em batalhas.

Lyudmila ficou famosa na época e foi o centro de várias propagandas russas que recrutavam mulheres para a guerra. Mas não foi a única. Tampouco essa fama durou já que, passada a guerra, a face feminina foi escondida em casa, cuidando de filhos e netos e silenciosamente proibida de falar sobre como foi matar nazistas. Mas, como Svetlana contou em seu livro, quando voltaram para casa, as mulheres, aquelas soldados tão destemidas, que lutaram por anos e ajudaram a conquistar a vitória do mundo contra o regime nazista, foram chamadas de vadias, de prostitutas, acusadas de terem ido ao conflito apenas para se prostituírem para os soldados. De pura vergonha, a maior parte delas escondeu suas medalhas e não mais falou sobre o assunto. A guerra não é coisa de mulher, afinal de contas – era o pensamento da época, pensamento que infelizmente é perpetrado até hoje.

Logo no início do livro, Svetlana diz que “Já aconteceram milhares de guerras – pequenas e grandes, famosas e desconhecidas. E o que se escreveu sobre elas é ainda mais numeroso… Tudo que sabemos da guerra conhecemos por uma ‘voz masculina’”. E essa voz masculina é que acabou ganhando força e silenciando a narração feminina, que só foi começar a realmente vir à tona há poucos anos. Esse tipo de representação artística que conta a história das mulheres, como o filme da vida de Lyudmila e o livro de Svetlana, é que muda nossa visão da participação feminina nos conflitos e nos faz questionar o que mais a história nos escondeu de nosso próprio passado.

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