LITERATURA

Ball Jointed Alice: o País das Maravilhas às avessas de Priscilla Matsumoto

Alguns livros permanecem no imaginário do leitor por muito tempo depois de virarmos as últimas páginas e devolvê-los à estante. Alguns livros te despertam sensações tão fortes que uma pausa durante a leitura para retomar o fôlego é imprescindível. Alguns livros não são nada daquilo que parecem ser, são muito mais. E tudo isso se aplica à obra de Priscilla MatsumotoBall Jointed Alice.

Aviso: este texto contém spoilers!

Ball Jointed Alice é a história de Frank, um artesão totalmente perdido na vida, alguém que nunca teve relacionamentos saudáveis e possui um histórico de vícios que vão desde o uso desregrado de drogas e álcool, a sexo. Abusado durante toda a vida pelos pais e posteriormente vivenciando traumas pesados durante sua internação em um hospício, Frank não vê nenhuma perspectiva de um futuro brilhante pela frente. Sem esperanças e um tanto insano, Frank acorda em uma manhã de ressaca em seu apartamento com sua boneca de juntas de bolinha, a ball jointed Alice do título, lhe dando bom dia.

Alice nasceu das mãos de Frank. O artesão moldou, lixou, poliu e pintou cada pequeno aspecto do corpo de sua boneca como uma maneira de recuperar memórias e sentimentos relacionados à moça que lhe serviu de inspiração, a Alice original. Frank a conheceu durante seu internamento no hospício e se apaixonou, porém seus sentimentos não puderam ser retribuídos e tudo o que o rapaz construiu, desde então, foi um amor platônico e idealizado. Após Alice se suicidar durante sua internação cortando sua garganta com uma tesoura, Frank sente que precisa tê-la por perto – e é aí que nasce sua boneca.

O curioso disso tudo é que, durante a narrativa, ninguém questiona o fato de uma boneca em tamanho humano falar, se mover, interagir e sentir. Tanto Frank quanto os personagens que aparecem posteriormente encaram o acontecimento como algo perfeitamente simples e normal, deixando ao leitor a tarefa de questionar em que plano de estranheza essa trama se desenvolve. De minha parte, pelo menos, resolvi embarcar na narrativa de Priscilla Matsumoto sem conceitos pré estabelecidos, decidida a abraçar tudo o que viesse. E, dessa forma, continuei a explorar esse País das Maravilhas às avessas criado primorosamente pela autora.

Quem vê não imagina que eu amei até esgotar o amor. E esse amor até as últimas consequências culmina na morte. Ou na dormência.

Todos os personagens, de Frank à boneca Alice, da gothic lolita Tay à sociopata Emi, trazem algo de substancial para a trama. Aos poucos, vamos descobrindo os dramas e motivações por trás de cada um dos personagens, todos alquebrados e despedaçados por diferentes acontecimentos no passado. Ball Jointed Alice não é uma obra simples de ser lida ou digerida e pode provocar um redemoinho de sensações ou despertar gatilhos. Os conflitos de seus personagens, a atmosfera por vezes claustrofóbica e a surrealidade das situações podem não ser as ideais para todos os leitores porém, para mim, tudo se entrelaçou perfeitamente.

Nada no enredo acontece por acaso em Ball Jointed Alice. Pequenos detalhes espalhados pelas páginas serão responsáveis por consolidar as personalidades de cada um dos personagens, construindo pouco a pouco e com cuidado uma trama maior, envolvendo o leitor enquanto a mente de Frank e seus amigos é analisada e catalogada. A mente humana, para mim, sempre foi um mistério fascinante. Gosto der ler sobre serial killers, por exemplo, e tentar entender o que os move, então encontrar uma narrativa que passeie por emoções tão humanas, doloridas e reais, foi muito instigante. Queria virar as páginas rapidamente para descobrir logo o que me aguardava a seguir, mesmo que eu ficasse atordoada no processo.

Os problemas psiquiátricos que cada um dos personagens possuem – Frank, Tay, Emi, Shin e a Alice original – aparecem em diferentes níveis de intensidade, o que deixa a trama de Ball Jointed Alice ainda mais interessante. Desvendar os mistérios das mentes de cada um desses personagens, seus anseios e motivações, deixa o livro irresistível e praticamente impossível de largar. Pode soar estranho dizer isso, mas esclarecer os segredos de cada um deles é fascinante e sempre move o enredo adiante.

Eu não queria que ninguém morresse naquela noite. A loucura deles me daria forças para sustentar a minha; sabia que estava acontecendo conosco essa coisa mágica que impregna qualquer grupo de cúmplices, essa união descabida e doentia, mas tão intensa que se torna incorruptível.

Tão importante quanto os personagens e as situações pelas quais passam está, obviamente, o talento de Priscilla Matsumoto parar contar histórias. O texto da autora é lírico e repleto de metáforas e não há separação exata entre o que é real, o que é imaginação e o que é alucinação. Não há nada explicado nos mínimos detalhes, e aí está a graça em destrinchar a trama. Nada é o que parece e tudo é possível nesse universo em que o Doutor Coelho está a sua espera para uma consulta psiquiátrica, a Rainha Vermelha está a uma porta de distância e o Gato de Cheshire anda às voltas sonhando com Alice. O sopro de inspiração das obras de Lewis Carroll – Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho – são evidentes e isso só enriquece Ball Jointed Alice. É divertido, enquanto se lê o livro, tentar encaixar os personagens de uma obra na outra e conhecer esse outro País das Maravilhas, dessa vez todo fruto da mente de Matsumoto.

Com relação aos aspectos técnicos de Ball Jointed Alice foi interessante ter, abrindo cada capítulo, trechos de músicas, poemas e frases que viriam a se relacionar diretamente com o que acompanharíamos nas próximas páginas. Dá a entender, inclusive, que todas as obras citadas nesses trechos do livro seriam de escolha dos próprios personagens. Eu, pelo menos, facilmente imagino o Frank adolescente ouvindo My Chemical Romance raivosamente enquanto dedilha os mesmos acordes que escuta, em sua guitarra. Os títulos de cada capítulo também foram escolhidos com cuidado, sempre deixando em destaque a boneca Alice e suas descobertas.

Ball Jointed Alice é, antes de tudo, uma colagem de emoções e sensações puramente humanas. O amor, o ódio, a vontade de se vingar – tudo faz parte dessa trama sensível e inesperada. Os capítulos parecem ondular entre melancolia e erotismo, entre a realidade de uma juventude alquebrada e aparentemente sem futuro mas que se apega a cada sentimento como se fosse a última oportunidade de sentir. Para encerrar, deixo esse vídeo com a própria criadora de todo esse universo, Priscilla Matsumoto, lendo um trecho de sua obra. Não tem como ficar melhor do que isso.

Quando você enfrenta a morte com coragem, é naquele momento que você se torna imortal. Alguém havia me dito essa frase feita há um tempo, mas eu não me lembrava quem. Eu ainda não estava pronto para a eternidade.

O livro foi cedido para resenha pela autora em parceria com o Valkirias.

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