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Sofia Soter

TV

Supergirl: As palavras têm poder

Um dos argumentos mais comuns usados por fanboys machistas, racistas e homofóbicos de quadrinhos para defender sua posição é o de fidelidade à fonte e coerência dentro do universo. Thor mulher? Fãs machistas de quadrinhos vêm gritar que o Thor sempre foi homem e por isso precisa continuar sendo. Homem-Aranha negro? Fãs racistas de quadrinhos vêm gritar que o Homem-Aranha sempre foi branco e por isso precisa continuar sendo. E, apesar do universo de adaptações de quadrinhos estar se tornando mais diverso em seus personagens e diretores – Mulher-Maravilha (dirigido por Patty Jenkins e lançado em 2017), Pantera Negra (dirigido por Ryan Coogler, com lançamento previsto para 2018), Thor: Ragnarok (dirigido por Taika Waititi e também lançado em 2017) são exemplos marcantes –, não é sempre possível contar com isso: a Sony, por exemplo, tem até um documento garantindo que o personagem Homem-Aranha será sempre branco e heterossexual nas adaptações cinematográficas, enquanto a adaptação do Hulu dos quadrinhos The Runaways colocou uma atriz magra para fazer o papel da personagem gorda Gert (mostrando que negar o cânone do texto-fonte é considerado irrelevante se é para encaixar uma personagem nos padrões estéticos da televisão).

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CINEMA

Final Girls: subvertendo estereótipos

Filmes de terror, especialmente os do gênero slasher, seguem uma fórmula identificável, com tropos conhecidos: as vítimas sobem escadas em vez de sair pela porta, cenas de sexo inevitavelmente significam que aqueles personagens vão morrer em breve, o assassino é quase indestrutível e sobrevive a qualquer coisa, personagens negros e/ou LGBTQ+ morrem logo no começo da trama, todo mundo é suspeito… E o meu tropo preferido: a final girl, isso é, a sobrevivente. Ela é, via de regra, uma mulher jovem, virgem ou indicada como “pura” pela narrativa, muitas vezes com um nome com gênero neutro ou ambíguo, que investiga o que está acontecendo e, ao final, sobrevive e desmascara e mata o assassino (ou acha que mata, porque outro tropo conhecido de slashers é que o assassino volta, de alguma forma, na continuação).

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LITERATURA

O Diário de Uma Garota Normal e o desconforto do leitor

O Diário de Uma Garota Normal, de Phoebe Gloeckner, é um livro autobiográfico. No processo de escrever essa matéria, li algumas entrevistas com a autora, dadas da época do lançamento da primeira edição do livro, em 2002, até 2015, quando a adaptação cinematográfica estreou nos cinemas. Nas entrevistas, toda vez, surge a pergunta: “isso foi sua experiência?” “é autobiográfico?” “são seus diários de verdade?”. E em todas as entrevistas, a autora tenta se desvencilhar da pergunta, explicar que não importa, que discutir as inspirações é menos interessante do que discutir a arte em si, que ela pode escrever algo sem ser a vida dela; quer dizer, em quase todas: em uma entrevista de 2015 para o The Rumpus, resignada, a autora diz que sim, que é autobiográfico. Mas que:

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TV

You Me Her: bissexualidade, poliamor e um final feliz

Quando eu ouvi falar de You Me Her pela primeira vez, fiquei empolgada. Dez minutos depois, minha reação mudou para preocupação. Afinal, You Me Her é uma série sobre uma relação poliamorosa com duas protagonistas bissexuais – e eu já me decepcionei vezes demais com a representação de relações não-monogâmicas e de personagens bissexuais em séries e filmes.

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CINEMA

Logan: O limite físico dos super-heróis

No mundo dos super-heróis, não há consequências. Morte não é definitivo, só uma forma de gerar impacto emocional e deixar um personagem de lado por um tempo, até alguém ter interesse em revivê-lo para novas histórias. Relacionamentos – familiares, românticos, profissionais, de amizade – são tão variáveis que tentar explicar o mínimo de história de um super-herói para alguém que não conhece quadrinhos pode ser enlouquecedor. Fatores físicos ou emocionais são reversíveis, mesmo que pareçam fundamentais para o personagem (por exemplo, as cicatrizes características do Deadpool desapareceram no atual título Spider-Man/Deadpool, e o tradicionalmente anti-nazista Capitão América agora é da Hydra).

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TV

Sweet/Vicious: sem medo de tomar partido

Jules (Eliza Bennet) é loira, adora cor de rosa, é estudiosa, mora em uma sororidade e só consegue estudar na faculdade porque tem bolsa. Ophelia (Taylor Dearden) tem cabelo verde, mata todas as aulas para fumar maconha, é hacker por diversão e só consegue estudar na faculdade porque os pais têm muito dinheiro. Elas se conhecem por acaso, formam uma amizade inusitada e logo no primeiro episódio cantam juntas “Defying Gravity”.

Ah, é. Elas também são super-heroínas que atacam estupradores.

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