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Fernanda

CINEMA

Crítica: Antes Que Eu Vá

Sísifo. Não é uma DST”, diz aquela que é provavelmente a fala mais repetida ao longo das menos de duas horas de duração de Antes Que Eu Vá, filme de Ry Russo-Young que adapta o romance jovem adulto de Lauren Oliver. Na mitologia grega, Sísifo é punido com uma tarefa eterna e interminável: a de carregar uma rocha para o topo de uma montanha só para vê-la voltar à base todas as vezes – e, consequentemente, precisar carregá-la de novo, e de novo e de novo. Não é por acaso que a única aula retratada no longa, que tem como principal cenário uma escola de ensino médio, seja focada nesse mito; no coração da trama de Antes Que Eu Vá está, afinal, a repetição sem fim de um único dia na vida de sua protagonista.

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CINEMA LITERATURA

Estrelas além de Hollywood

De todos os filmes indicados ao Oscar desse ano, nenhum foi tão bem sucedido em seu país de origem quanto Estrelas Além do Tempo, longa de Theodore Melfi que conta, com algumas liberdades, a história real de três cientistas negras que trabalharam na NASA em plena época de segregação racial institucionalizada, dentro do estado que se opôs mais ferozmente ao fim dela, a Virgínia. O filme terminou a corrida sem nenhum Oscar, mas já deixou uma marca maior. Profundamente inspirador para meninas e mulheres, dentro dos Estados Unidos Estrelas Além do Tempo levou uma adolescente de 13 anos a criar um financiamento coletivo para permitir que mais garotas pudessem assistir ao filme e absorver sua mensagem empoderadora e, contam relatos, está inspirando jovens mulheres a buscarem espaço nas áreas de ciência e tecnologia, que — a história é velha — ainda são tradicionalmente masculinas.

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LITERATURA

Cinco filhas solteiras sem grandes fortunas: entendendo a Sra. Bennet

É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro em posse de uma grande fortuna deve estar à procura de uma esposa – ou ao menos é isso que a Sra. Bennet quer nos fazer acreditar do começo ao fim de Orgulho e Preconceito. Ironicamente, são as moças solteiras, especialmente aquelas sem posse de grandes fortunas, que estão à procura de um marido. Algumas o fazem de maneira mais espalhafatosa, como Lydia e Kitty Bennet, outras com aspirações românticas, como Elizabeth e Jane Bennet, outras ainda de maneira quieta e contida, como Charlotte Lucas. Nenhuma dessas jovens moças solteiras, no entanto, é mais dedicada à saga matrimonial do que a matriarca Bennet, cujo primeiro diálogo no romance é justamente sobre a chegada de Bingley a Netherfield – “um homem solteiro com grande fortuna; quatro ou cinco mil por ano. Que coisa boa para nossas meninas!

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TV

The Killing, Sarah Linden e as mulheres complicadas da TV

Quem me recomendou The Killing foi Patti Smith. Para grande infelicidade minha, não estávamos batendo um papo agradável quando isso aconteceu, mas ela fala algumas vezes sobre a série no seu livro de memórias mais recente, Linha M. Talvez você não saiba, mas Patti Smith adora séries policiais. Nenhuma das várias que acompanha, no entanto, parece ser tão especial para ela quanto The Killing, à qual dedica um capítulo inteiro, discutindo seu cancelamento bem em meio a um enorme cliffhanger e todo seu carinho por sua protagonista.

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TV

“Se você não gosta do que estão dizendo, mude a conversa”: a trajetória de Peggy Olson

“Em pouco tempo e com sorte você virá morar na cidade. Mas se você tiver sorte mesmo você ficará no subúrbio e não terá que trabalhar”.

Essa é uma das primeiras frases que Peggy Olson, interpretada pela brilhante Elisabeth Moss durante as sete temporadas de Mad Men, ouve ao chegar ao escritório da Sterling Cooper para seu primeiro dia de trabalho como secretária. Quem diz isso a ela é Joan Harris (a também brilhante Christina Hendricks), coordenadora das secretárias da agência, depois de questioná-la sobre o número de trens que precisava pegar para chegar em Manhattan vinda do Brooklyn (apenas um). Naquele momento, uma manhã de algum dia qualquer do ano de 1960, nenhuma das duas tinha como saber que o futuro que as esperava não tinha absolutamente nada a ver com o subúrbio, muito menos que isso não era ruim — muito pelo contrário.

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LITERATURA

Svetlana Aleksiévitch e a face feminina da guerra

Se abrirmos um livro de história, inevitavelmente nos depararemos com uma série de guerras – algumas maiores e outras menores – que permeiam nosso passado. As guerras, parece, são tão antigas quanto o nosso mundo, dito civilizado, e, para o bem ou para o mal, fazem parte das nossas identidades nacionais. Assistimos às guerras diariamente e naturalizamos tanta barbárie e horror em nome de um monte de coisas: ideais, a paz mundial (atingida por meio da violência), crenças… (Dos interesses econômicos é melhor não falar tanto assim). Aceitamos as guerras como parte de nossa história, e falamos muito sobre elas, especialmente sobre as duas grandes guerras da história do mundo. O livro-reportagem A Guerra Não Tem Rosto de Mulher (Companhia das Letras, 2016), da bielorrussa Svetlana Aleksiévitch, poderia ser só mais um dos numerosos trabalhos que discutem a Segunda Guerra. Mas não é. Originalmente publicado em 1985, o livro busca contar as histórias (em grande parte esquecidas) das mulheres soviéticas que estiveram na linha de frente. Porque, sim, elas estiveram lá. E foram muitas.

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