CINEMA

Atrizes estrangeiras e o raio americanizador

Até agora, semanas após a indicação de Isabelle Huppert ao Oscar de Melhor Atriz, não encontrei palavras para descrever o sentimento de ver o nome dela junto ao de atrizes tão talentosas. Foi uma notícia que deixou meu coração de fã muito aquecido, confesso. No entanto, eu sabia que minha felicidade ultrapassava o fato de admirá-la e acompanhar sua carreira desde a adolescência. A comemoração significava que era possível uma atriz que nunca fez carreira em Hollywood ser indicada ao Oscar por um filme rodado na própria língua, francês. Uau!

Ao vencer o Globo de Ouro de Melhor Atriz, Isabelle transpôs uma fronteira que poucas atrizes estrangeiras conseguiram atravessar sem ter que se moldar aos padrões da indústria norte-americana. Isabelle Huppert não foi americanizada, e talvez isso seja o mais significativo em relação a sua indicação.

Nem todas as atrizes estrangeiras tiveram a mesma sorte de Huppert. Para sobreviver em Hollywood, muitas tiveram de ser moldadas conforme os desejos da indústria. Mudança de nomes, apagamento da cultura de origem, reprodução de estereótipos. Os mecanismos que transformam qualquer atriz de fora em algo rentável para Hollywood são inúmeros e, muitas vezes, sutis.

A europeia misteriosa: o caso Greta Garbo

Moldar atrizes estrangeiras conforme os padrões de Hollywood é tão velho quanto o cinema. Atrelado a ele estava o sistema de estúdio, o star system, que predominou em Hollywood dos anos 20 aos 60. Quando os grandes estúdios, como Warner Brothers e MGM, foram criados, a criação de estrelas que fizessem os espectadores sonhar e ir ao cinema era uma necessidade.

Então, essas companhias forjaram as estrelas que o público queria. A moça pura e virginal? Temos. O galã que é o sonho de todas as moças? Temos também. E a vamp, devoradora de homens? Indispensável! Já que existiam atores e atrizes para todos os gostos, é claro que a figura do artista estrangeiro e misterioso não poderia faltar. Ninguém simbolizou melhor essa imagem do que Greta Garbo. A intenção da MGM ao trazer Garbo da Suécia era adicionar ao seu time de estrelas esse charme além mar. Depois de vê-la atuando no filme A Saga de Gösta Berling, o estúdio decidiu contratar o diretor e a estrela. Garbo saiu da Europa para se tornar na MGM a maior rainha de filmes que você respeita.

Até a ascensão do cinema falado, a imagem de Garbo estava atrelada a mulheres misteriosas, devoradoras de homens, que os usavam e depois os descartavam. Os próprios títulos originais de seus filmes mudos denunciam a maneira como o público deveria enxergar Garbo: Temptress [Tentadora], Flesh and the Devil [Carne e o diabo]. Depois que o som foi introduzido no cinema, a imagem de Garbo sofreu uma leve alteração. Ela continuou sendo a mulher misteriosa, mas entrava em cena a “dureza e a frieza”, características associadas aos europeus.

Se observarmos alguns dos principais filmes de Garbo na década de 30, perceberemos como a MGM brincava com essas imagens tão opostas criadas para a atriz. Em Rainha Cristina, ela encarna a personagem histórica homônima, dura e ao mesmo tempo amorosa, bissexual e com um figurino bastante masculinizado. Já em Grande Hotel, temos a frágil bailarina Grusinskaya, que contrasta diretamente com outra personagem, a estenógrafa Flaemmchen. É muito interessante observar como essas duas personagens simbolizam exatamente o que disse anteriormente sobre Hollywood forjar estrelas para todos os gostos. Gru é frágil e precisa de atenções, enquanto Flam flerta com várias personagens masculinas do filme, deixando, inclusive, que um deles passe a mão em seu traseiro. Neste filme em específico, acredito que Garbo esteja lá para contrastar com a imagem vibrante e desbocada da estenografa, que é americana.

De um lado havia uma espécie de “histeria” por parte de atrizes norte-americanas e suas personagens; de outro o charme europeu, a finesse europeia, coisas pelas quais Hollywood sempre fora fascinada. Vale lembrar que esse it europeu é a visão que a indústria tinha do Outro. Ninotchka, um dos últimos filmes de Garbo, é o suprassumo do que o europeu representava para Hollywood. Neste filme, ela é uma camarada russa, responsável por descobrir o que aconteceu a três enviados pelo governo a Paris para realizar uma missão. As situações cômicas da trama baseiam-se na diferença entre o modo de ser europeu, simbolizado pela Rússia, e o americano.  A cena mais icônica da trama, quando Léon (Melvyn Douglas) está tentando fazê-la rir, contando piadas estúpidas, diz muito sobre como o estúdio e o público viam Garbo.

A cultura de origem de Garbo foi absorvida por Hollywood e usada de maneira errônea para promovê-la ao posto de deusa. Ao receber esse título, vida e ficção se confundiram, fazendo com que a aura de mistério consolidada por seus filmes escorresse para a vida real. Garbo se tornou mais famosa quando decidiu se recolher, depois de tantos anos sob os holofotes. As pessoas especulavam os motivos dessa saída tão prematura do cinema. Independentemente de suas razões, o fato é que ela saiu das telas e entrou para a história. Se hoje Garbo é um ícone da cultura pop, citada em filmes como A Morte lhe Cai Bem ou em contos de Truman Capote, é porque alguém tomou sua cultura de origem e a tornou rentável. É porque Hollywood acolheu essa jovem sueca e a moldou para causar aquela impressão engraçada de que você não a conhece, de que ela é misteriosa demais para este mundo.

A spicy latina: o caso Carmen Miranda

Nenhum apagamento cultural em Hollywood foi tão intenso quanto o de Carmen Miranda. Sua intenção de espalhar a cultura do Brasil pelo mundo revelou-se um feitiço que virou contra o feiticeiro, pois o que ela nos transmite em seus filmes é tudo, menos o Brasil.

A ida de Carmen Miranda para Hollywood coincidiu com um dos períodos mais interessantes para esta futura historiadora que vos fala: a política da boa vizinhança. Criada pelo presidente Roosevelt, ela tinha como objetivo estimular as relações entre os latino-americanos e os norte-americanos. Por trás dessa valorosa intenção, escondia-se o real motivo de tal política, ou seja, impedir que os países da América do Sul apoiassem os governos fascistas de Hitler e Mussolini. Portanto, Carmen era peça chave neste jogo de xadrez. Quando o produtor Lee Shubert a viu dançando, com os trajes que a tornariam icônica mas que foram apropriados de outra cultura, ele sabia que tinha uma mina de ouro nas mãos. Ele entregou o ouro aos estúdios Fox, e o resto é história.

O que nos é apresentado nos filmes de Carmen Miranda é nada mais que a versão estereotipada da latina burra, que não sabe falar inglês, um objeto de desejo sexual facilmente descartável. Ela está no filme para cantar, nunca para ser protagonista. À ela era permitido piadas de mau gosto que questionam sua inteligência e a sexualizam ao extremo. Também era permitido que ela falasse errado, mesmo quando já sabia se expressar perfeitamente em inglês. Carmen Miranda era um animal enjaulado, pertencente à barbárie, pronto para ser analisado e julgado.

Nos filmes de Carmen, ninguém sabe sua nacionalidade ao certo. Na verdade, se pararmos para pensar, ela tinha uma nacionalidade, sim: latina. E latina significava qualquer coisa, já que ela aparecia cantando e dançando ritmos que não pertenciam à cultura brasileira, como a rumba. Latino era o Outro, o diferente. Foi assim que, aos poucos, ela foi apagando sua identidade brasileira. De repente, já não importava mais se Carmen era brasileira ou portuguesa de nascimento. Ela poderia ser argentina, desde que sua imagem continuasse a encher de dinheiro os cofres da Fox.

Carmen teve que se resignar à persona que Hollywood criou para ela, a fim de manter o sucesso em Hollywood. Isso significava receber nãos quando tentava discutir papeis mais sérios com a Fox. Não a queriam em filmes sérios, pra que isso? Pra que mexer em time que está ganhando, oras?! Ela também foi utilizada para afirmar a barbárie da América Latina versus a civilização norte-americana. Em Uma Noite no Rio, meu filme favorito dela, há uma cena que ilustra bastante essa premissa, a que ela discute com o amante, Larry. Carmen começa a falar português rápido, pois está furiosa com ele. Quando ela começa a falar inglês, Larry a interrompe dizendo: “O inglês não é esse tipo de língua [de gente histérica], por isso não fique exaltada!”.

Mas e hoje em dia?

Se você chegou até aqui, deve estar se perguntando a relevância de falar tanto sobre a história de uma Hollywood tão distante de nós. Será mesmo? Eu acho que não. Ainda que o sistema de estúdio tenha morrido e muita água passado por debaixo da ponte, uma coisa é certa: atrizes estrangeiras ainda seguem uma cartilha para se manter em Hollywood. Isso pode variar, dependendo da nacionalidade da atriz e do tipo de filme que ela faz. Seria coincidência o fato de que Isabelle Huppert seja francesa? De maneira alguma. O histórico de amor dos EUA pelos franceses (com pitadas de inveja, #babados) não é de hoje. Se olharmos a lista de todas as indicadas ao Oscar de Melhor Atriz, desde o nascimento da premiação, veremos que a nacionalidade predominante das atrizes estrangeiras é francesa. Das três atrizes que venceram a categoria de Melhor Atriz até hoje, duas são francesas: Simone Signoret e Marion Cotillard.

Vamos dar nome aos bois então? Para ilustrar a teoria dessa espécie de molde de atrizes estrangeiras em Hollywood nos dias de hoje, gostaria de contar a história de Marion Cotillard.

Em 2007, lá estava eu no cinema lavando minha alma com Piaf: Um Hino ao Amor. Naquela época, ainda não conhecia sua carreira, mas pensei: vai ser indicada ao Oscar com certeza! Dito e feito. No ano seguinte, o nome dela figurava entre os indicados. Para mim, aquela indicação representou muito, sobretudo porque eu passava meus dias sonhando em estudar francês, o que só aconteceria em 2010. Edith Piaf é o imaginário da França em pessoa. É a Torre Eiffel, os croissants, os acordeonistas tocando… É a imagem do melhor que a França tem a oferecer.

Portanto, ao levar o Oscar, Marion não vencia apenas por sua atuação. Piaf, o Boulevard Saint-Germain, os cafés, eles também levaram o prêmio. A campanha realizada pelo distribuidor do filme, a Unifrance, manteve isso em mente o tempo inteiro. Eles estavam vendendo uma imagem que as pessoas, principalmente os norte-americanos, queriam ver. É o que se espera ao assistir um filme francês. Além disso, a mensagem de Piaf: Um Hino ao Amor era bem cara aos americanos: você pode chegar lá. A história da garota pobre, que cantava nas ruas de Paris, e que alcançou o posto de maior cantora da França vai de certa forma ao encontro dos ideais do sonho americano. A falácia da meritocracia está lá.

Depois do Oscar, Marion tornou-se o símbolo máximo do que os norte-americanos e o mundo acreditam que é ser francês: classe, charme e mistério. Kira Kitsopanidou, especialista em cinema pela Sorbonne, nos explica melhor:

“Piaf construiu a persona da atriz. Dali em diante, mesmo em outros filmes, Cotillard encarna sempre uma mulher misteriosa, elegante, um personagem com um interior perturbado. Até mesmo em Nine. Isso é o que Hollywood espera de qualquer atriz europeia: uma vida interior forte, uma vulnerabilidade cultivada.”

Desde 2008, Marion é garota propaganda da Dior. A marca investe pesado em peças publicitárias que geralmente duram de três a quatro minutos. Em uma delas, temos a atriz interpretando uma estrela de cinema cansada da fama, pensando em se aposentar. A peça começa evocando uma prática da Hollywood clássica, assinar fotografias e enviá-las aos fãs pelo correio. Os quatro minutos da propaganda servem para reforçar o glamour de ser famoso, indiretamente oferecendo isso a quem adquirir os perfumes da marca. Acredito que não há rosto melhor atualmente para vender a Dior do que o de Marion. O que todas as propagandas de perfume procuram é demonstrar que, ao borrifar uma gota de Channel, você pode ser a diva que o mundo quer copiar. Diva pressupõe ser classuda e saber se comportar. Mais útil do que escrever livros lhe dizendo que para ser como uma francesa é só colocar uma mulher dessa nacionalidade para fazer propaganda de uma marca que promove exatamente isso.

E o que fica de tudo isso?

Os mecanismos de absorção de culturas em Hollywood nos deixam uma série de perguntas. O que é ser francês? O que é ser norte-americano? O que significa estar em Hollywood? São questões que, com a ascensão do nacionalismo e de um sentimento xenofóbico, merecem ser debatidas.

Na língua francesa existe um termo chamado français de souche, algo como “francês de carteirinha”. Em tempos em que Marine Le Pen, candidata da extrema-direita, cresce nas pesquisas para a corrida presidencial de 2018, essa palavra se torna fundamental para entendermos a relação dos franceses com seu país. O francês de carteirinha é aquele que cultiva os valores fundamentais de sua pátria: igualdade, fraternidade e liberdade. Mas liberdade para quem? Igualdade para quem? Fraternidade para quem? Certamente apenas para os français de souche. Ser francês de carteirinha também é seguir uma cartilha e Marion não foge a essa regra. Talvez, para os franceses, ela não seja motivo de orgulho nos EUA, podem considerá-la uma “traidora” ou “vendida”.

Quanto à Hollywood, estar lá ainda, infelizmente, significa seguir regras. O sistema de estúdio morreu, mas o que ele carregava, em certa medida, ainda existe. A magia precisa ser cultivada, e um filme como La La Land diz muito sobre como a indústria norte-americana deseja ser vista. A fábrica de sonhos precisa continuar a pleno vapor. Marion, Garbo e Carmen Miranda fazem parte dessa magia que faz nossos olhos brilharem a cada premiação. O Oscar talvez seja a celebração máxima do que é Hollywood, e as estatuetas entregues aos atores e atrizes são a ponta do iceberg. Há as famosas campanhas para promover os filmes, o apagamento de atrizes e atores estrangeiros na indústria e a falta de protagonismo de pessoas não brancas. Talvez seja a hora de nos perguntarmos: por que ninguém faz bolão na época de Cannes? Por que Cannes não é televisionado? Por que outros festivais de cinema não recebem a mesma atenção? A resposta é simples: porque a voz está em Hollywood. A voz de Hollywood é muito mais forte que outras vozes.

É essa voz poderosa que torna possível o apagamento ou até a mesmo a transformação da cultura do Outro em algo rentável. Pertencimento é a palavra chave da era em que vivemos. Em Veneza, italianos filmaram um refugiado africano se afogando, e um deles teria dito: “Deixe-o morrer”. Ele não é europeu, não é italiano, então que o deixemos morrer. Ele não pertence a nossa comunidade, não é um de nós. É este o sentimento que, de forma assustadora, está dominando o mundo.

No Oscar, também há a sensação de pertencimento. Se você está ali sentado junto a outros atores, alguns da velha guarda e outros recém-chegados, é porque de alguma forma conseguiu tornar-se parte daquilo. Por mais que eu vibre com a indicação de Isabelle, eu acredito que ela esteja lá não apenas pelo seu grande talento, mas por sua nacionalidade. Porque o sistema escolhe quem será aplaudido e quem será silenciado. Desde o Globo de Ouro, ficou claro que Elle tinha sido escolhido para ser aplaudido. Já Aquarius foi silenciado ao não ter ser inscrito no Oscar pela sua distribuidora americana, a Vitagraph Films.

Que o Oscar não seja apenas uma época de bolões e comemorações, mas de muita reflexão também.

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1 Comentário

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    Laura Máximo
    21 de fevereiro de 2017 at 13:20

    Texto perfeito, amei! Incrível como o trecho que fala sobre Carmen Miranda e sobre a forma que seu “personagem” foi colocado com uma identidade muito estranha – um Frankenstein de elementos latinos que afirmavam-se brasileiros – ainda persiste. Quem nunca se deparou com um seriado ou filme atual qualquer em que o personagem brasileiro fala espanhol (se é que ele fala) ou se chama Juan, Jesus, Javier.
    Hollywood é o mundo que não se abre pra outras culturas. Sad but true.

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