CINEMA COLABORAÇÃO

Assassinato no Expresso do Oriente: mais do que uma história de detetive

Se alguém se dispuser a fazer uma rápida pesquisa no Google à procura de imagens de Agatha Christie, possivelmente encontrará dificuldades para relacionar a senhora inglesa de aparência amigável – trajando terninhos e vestidos elegantes acompanhados por um clássico colar de pérolas e cabelos perfeitamente alinhados em um penteado de vovó – ao gênero literário pelo qual se consagrou: o romance policial. Crimes motivados por vingança, amor, ódio e interesses financeiros, muitas vezes ambientados em cenários idílicos de condados britânicos entre uma partida de golfe e a hora do chá, são figurinhas carimbadas em suas histórias, sejam elas protagonizadas pela perspicaz Miss Marple, os aventureiros e amadores Tommy e Tuppence, ou, claro, o pomposo Hercule Poirot.

Nascida no ano de 1890, em Torquay, cidade ao sul da Inglaterra, Agatha Mary Clarissa Miller era a terceira e mais jovem filha de uma família abastada. Aos 11 anos, após a morte de seu pai, ela passou a conhecer o mundo, em viagens que fazia com sua mãe. Aos 16, depois de anos sendo educada em casa por tutores e professores particulares, ingressou em uma escola para aperfeiçoamento em Paris, onde obteve distinção por suas habilidades como cantora e pianista. Um ano mais tarde, conheceu o Archibald Christie, coronel e piloto da Força Aérea Britânica, com quem se casou em 1914, durante o período da Primeira Guerra Mundial. Foi durante o conflito que Agatha, servindo como enfermeira e farmacêutica, obteve conhecimento sobre substâncias que, posteriormente, se mostraria bastante influente em seu trabalho – muitos dos assassinatos em suas histórias são causados por venenos.

Reza a lenda, segundo John Curran – autor de Agatha Christie’s Secret Notebooks: Fifty Years of Mysteries in the Making –, que Agatha não foi a primeira em sua família a demonstrar alguma inclinação para a escrita. Tanto sua mãe, quanto sua irmã, Madge, já vinham flertando com textos de suas autorias e a própria Agatha contava que já havia escrito um romance por ela descrito como longo e monótono – e que nunca viu a luz do dia. Contudo, o início de sua trajetória na literatura se dá em 1916, após uma aposta que fez com Madge, que duvidava de que ela seria capaz de escrever uma boa história de detetive. O resultado da brincadeira veio com O Misterioso Caso de Styles, publicado cinco anos depois, que apresentou ao mundo o icônico detetive Hercule Poirot, foi bem recebido pela crítica e deu início à jornada que, após a publicação do aclamado e polêmico O Assassinato de Roger Ackroyd, em 1926, lhe renderia a alcunha de inigualável Rainha do Crime.

No mesmo ano em que se consagrou como um nome de peso dentro do gênero policial, Agatha foi confrontada pela notícia de que seu marido estava apaixonado por outra mulher e, por isso, pedia o divórcio. O que se segue a partir deste ponto é um breve, conturbado e nebuloso período na vida da autora, que chegou a desaparecer por onze dias, nos quais o condado de Surrey pareceu viver o enredo de uma de suas histórias, até o momento em que foi encontrada em uma pousada localizada em outra cidade. Pouco se sabe sobre os dias em que a autora esteve desaparecida e muitos acreditam que tudo não passava de uma estratégia de marketing para o lançamento de seu livro mais recente. Sejam os motivos quais forem, toda a situação só parece contribuir para a mística de mistério que envolve suas histórias e, de certa forma, a própria autora, que nunca falou abertamente sobre o período.

O divórcio de Archibald demorou dois anos, mas uma vez concluído, Agatha não só manteve o nome do ex-marido, como também se tornou uma mulher independente e completamente dedicada à escrita, iniciando um dos momentos mais prolíficos de sua carreira, quando publicou Assassinato no Expresso do Oriente e E Não Sobrou Nenhum (também conhecido como O Caso dos Dez Negrinhos). É nessa fase que ela dá vida àquela que já foi apontada como seu alter-ego: Miss Marple, uma velhinha perspicaz e simpática, que soluciona casos de crime com base em seu conhecimento sobre a natureza humana. Pouco tempo depois, ela se casou com Max Mallowan, um arqueólogo, a quem acompanhou em expedições que, mais tarde, iriam inspirar obras como Morte no Nilo, Morte na Mesopotâmia e E No Final a Morte.

Nas décadas seguintes, ela continuou se dedicando à escrita, publicando mais de 80 obras no total, nos quais encontramos contos, poemas, peças, autobiografias e romances. Apesar de ser reconhecida por seu trabalho na literatura policial, Agatha também se destacou como dramaturga – A Ratoeira é a peça há mais tempo em cartaz no mundo – e com os seus livros com teor autobiográfico, publicados sob o pseudônimo de Mary Westmacott. Em 1971, ela se tornou Dama do Império Britânico, a mais alta condecoração do Reino Unido. Em 1976, publicou Cai o Pano, o último caso de Hercule Poirot e veio a falecer um mês depois, deixando um legado inestimável e, em seu pioneirismo, abrindo portas para que outras mulheres – como Gillian Flynn e Paula Hawkins – pudessem se destacar em um gênero antes tido primordialmente como masculino.

Ela dizia que era necessário que o enredo de uma história se desenrolasse em um cenário que fosse familiar para o público; por isso, muitos de seus casos acontecem em grandes propriedades no campo, vilas no interior ou Londres, cidade em que morou por muitos anos. Ainda que pouco recorrente, o trem também é um cenário marcante em seus livros, aparecendo em O Mistério do Trem Azul e Assassinato no Expresso do Oriente, cuja adaptação mais recente chegou aos cinemas brasileiros no último dia 30 de novembro.

Sob a direção de Kenneth Branagh, que também atua como protagonista, o filme transporta para o cinema de forma bastante eficiente a atmosfera de suspense que permeia a narrativa do romance homônimo, unindo duas das principais características da obra de Agatha Christie: o whodunit (quem matou?) e o locked room mystery (mistério do quarto fechado), resultando em uma história bem arquitetada que se mostra capaz de prender a atenção do espectador durante os 144 minutos de duração.

Mantendo-se fiel à ambientação original, o filme acontece à bordo de um vagão de trem na década de 1930. Branagh explica que essa decisão de não transportar a história para os dias atuais se deve ao caráter atemporal da literatura de Agatha Christe, que tem tudo para se adaptar ao mundo atual, considerando o sucesso que séries policiais têm feito nos últimos anos. Contudo, não demora muito para que os fãs do trabalho da Rainha do Crime percebam que algumas alterações foram feitas; umas mais sutis, outras, nem tanto.

É o caso do Poirot de Branagh, em nada semelhante ao senhor baixinho, de cabeça ovalada, com os poucos cabelos tingidos de preto, bigode fino e de emocional inabalável que vive nas páginas dos livros. O detetive da nova adaptação não só exibe com orgulho longas madeixas grisalhas, como ostenta um volumoso e pomposo bigode, além de trazer um certo charme. Porém, basta um olhar mais atento logo nas primeiras cenas com o famoso detetive belga para perceber que as características que fazem de Poirot um personagem tão impactante estão mais presentes do que nunca. As manias, a elegância e o sempre eficaz método de dedução estão lá. Ao mesmo tempo, o personagem apresenta uma vulnerabilidade que não é encontrada no material original. A intenção por trás dessa mudança foi torná-lo mais humano, mostrando que pode ser abalado e, principalmente, colocar em xeque a sua noção de certo e errado. Ao final, percebemos que Poirot enxerga um vasto universo de possibilidades entre os dois pólos.

Após solucionar um mistério na Basílica do Santo Sepulcro, Poirot é convocado ao Egito, onde deve ajudar na investigação de um caso. Para isso, ele embarca no luxuoso Expresso do Oriente, um serviço de trem à longa distância que, no fim do século XIX, se tornou bastante conhecido por realizar o trajeto entre Paris e Istambul (na época, Constantinopla). Simultaneamente, o público também é apresentado aos demais personagens, interpretados por um elenco estrelar – Michelle Pfeiffer, Willem Dafoe, Penélope Cruz e Judi Dench são alguns exemplos –, assim como os motivos que os levam à fazer a viagem de trem. Na manhã seguinte, após serem impedidos de prosseguir com o trajeto por conta de uma nevasca, todos são surpreendidos pela notícia de que um dos passageiros foi brutalmente assassinado durante a noite. Cabe à Poirot, o melhor detetive do mundo, descobrir a identidade do assassino, assim como as motivações por trás do crime e, para isso, ele vai entrevistar cada uma das pessoas no vagão, buscando pistas e observando comportamentos suspeitos.

O desenrolar das investigações revela não só as peculiaridades do método de Poirot – sempre atento aos mínimos e, aparentemente, insignificantes detalhes –, mas também diferentes e profundas camadas dos demais personagens. Todos são mais do que a primeira impressão nos faz pensar, com suas angústias, sofrimentos e segredos. E aqui é preciso elogiar o roteiro de Michael Green, que conseguiu adaptar o livro de forma louvável, proporcionando tempo de tela suficiente para cada um dos muitos personagens, fazendo com que sejam bem desenvolvidos e, consequentemente, permitindo que o público os compreenda e entenda suas motivações. Ninguém é caricato e o que ocorre é justamente o oposto; todos são extremamente humanos.

Com um roteiro bem escrito, o elenco de veteranos e novatos tem tempo de sobra para brilhar, principalmente as mulheres, cujas personagens são a chave para a solução do caso. Em suas obras, Agatha Christie se certificou de criar mulheres que fogem do estereótipo de donzela em perigo ou dama recatada do lar, nos apresentando personagens intensas e perspicazes, escondidas por trás de elegância e delicadeza, que fascinam até mesmo Hercule Poirot. Algumas têm mentes tão engenhosas, que arquitetam crimes que poderiam ser perfeitos, não fosse pela astúcia dos detetives. Assassinato no Expresso do Oriente não foge à regra e as mulheres na história são não apenas sagazes, mas também capazes de fazer qualquer coisa, o que as tornam bastante complexas e intrigantes.

Daisy Ridley foi a escolha certa para dar vida à Mary Debenham, uma jovem governanta que parece bastante comum, mas que esconde alguma coisa. Ela é a única que já conhecia a fama de Poirot e o fato não passa batido ao detetive. Penélope Cruz vive Pilar Estravados, uma enfermeira e missionária bastante devota, responsável por alguns dos diálogos mais interessantes do filme, nos quais faz o protagonista refletir sobre seus valores morais. É gratificante ver a atriz em um papel diferente, já que é normalmente associada à personagens mais sensuais em que sua beleza é o destaque, podendo mostrar a expansão de seu talento, que lhe rendeu um Oscar em 2009. Ainda, não é possível deixar de falar da atuação excelente de Michelle Pfeiffer como Caroline Hubbard, cuja mente é a única capaz de rivalizar com a de Poirot. Aliás, Pfeiffer, ainda que em um papel coadjuvante, rouba os holofotes toda vez que entra em cena e, assim como ocorre com sua personagem, contrapõe a atuação de Kenneth Branagh. Quem agradece é o público, que encontra enorme deleite em assistir aos dois.

Quando falamos de aspectos técnicos, o saldo também é positivo. A fotografia é belíssima, com cenas externas que mostram a paisagem gelada em que o enredo se desenrola, transmitindo o isolamento daquele grupo de pessoas. O contraste entre cores também é notável: terrosas no interior aquecido do vagão, e frias, de um jeito quase monocromático, no exterior inóspito. Os ângulos são meticulosamente calculados e às vezes, transmitem uma sensação furtiva para o espectador, como se algo de perigoso estivesse prestes a acontecer. A trilha sonora, unida aos demais elementos, contribui para a narrativa e a atmosfera de suspense, que resulta em uma experiência bastante imersiva, durante a qual quem assiste esquece da vida e não sente a passagem do tempo. Contudo, é preciso fazer uma ressalva e dizer que ainda que seja um filme policial, aqui temos um ritmo ditado mais pelo andar da investigação e da exposição das pistas do que por sequências de ação.

Por fim, é preciso mencionar o tom emocional que o filme traz para a história. Ao contrário do que ocorre nos romances de Agatha Christie, nos quais os crimes e suas consequências surgem de forma direta – e até seca, dependendo do caso – com o intuito de servir como um mecanismo que conduz a história, o filme apresenta uma carga dramática. Quando a solução do caso é apresentada e compreendemos as motivações por trás do crime, assim como Poirot, somos levados a uma reflexão sobre o significado de… justiça. Diferente do que acontece nos livros, em que tudo parece um jogo de tabuleiro, no qual o leitor faz as vezes de detetive ao lado de Poirot, o filme escancara o assassinato pelo que ele de fato é; ou seja, uma vida tirada. E ao fazer isso, também deixa claro que toda ação tem uma reação, todo assassinato (ou crime, de forma geral) traz uma consequência, seja ela na forma de vingança, justiça ou sequelas. Ao final, Hercule Poirot começa a questionar seus próprios valores e nós também o fazemos. Junto com ele, colocamos as mãos em nossas consciências e, analisando a nossa visão de mundo, percebemos a infinidade de tons de cinza entre os pólos preto e branco.

Michelle Borges tem a altura da Stevie Nicks e a idade da Taylor Swift. É jornalista e nas horas vagas fala de livros na Internet, mas preferia ser caçadora de monstros. Grande entusiasta da pizza.

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