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As mulheres em destaque nas séries essencialmente masculinas

Muitas de nossas séries favoritas são protagonizadas por personagens masculinos e, obviamente, não há o menor problema nisso. Mas mesmo esses seriados centrados em homens e em suas lutas, anseios, desejos e relações, conseguem trazer mulheres incríveis para a trama – mulheres essas que, invariavelmente, acabam roubando a cena.

Ainda que as mulheres estejam se esforçando para ocupar um espaço igualitário na indústria do entretenimento, a batalha ainda está no começo e, por ora, a maioria dos filmes e séries são dirigidos, produzidos e protagonizados por homens. Esse quadro não é satisfatório para mulher alguma que se preocupa e luta por representatividade, mas o boicote está fora de cogitação.

Felizmente, para amenizar nossa consciência, as minorias incluídas nesses meios são dignas de destaque, e ter nosso foco centrado nelas para ressaltá-las é um motivo a mais para continuarmos acompanhando a trajetória de uma trama e lutando por uma causa que acreditamos ao mesmo tempo.

Aviso: o texto a seguir não contém detalhes dos enredos que possam estragar a sua experiência como telespectador, porém possui spoilers pontuais dos seriados abordados (The Night Manager, The HourVikings, House, M.D.Ripper Street).

Angela Burr

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The Night Manager leva, logo no título, o cargo de um homem mas é Angela Burr (Olivia Colman) quem rouba todas as atenções – e estamos falando isso em um seriado que conta com Tom Hiddleston e Hugh Laurie, dois atores excelentes, como protagonistas. The Night Manager, minissérie em seis episódios realizada em parceria pela AMC e The Ink Factory, é uma adaptação do livro de John le Carré de mesmo título. O drama de espionagem acompanha o ex-soldado britânico Jonathan Pine (Hiddleston) enquanto ele tenta se infiltrar na rede fechada de um traficante de armas letais, Richard Roper (Laurie), de maneira a desmantelar o esquema milionário responsável por despejar armamento pesado em locais de conflito ao redor do mundo.

Pine está na linha de tiro, é verdade, e responsável direto por ganhar a confiança de Roper e de todos que o cercam, mas é Angela quem chefia, organiza e articula toda missão enquanto, isso mesmo, está super grávida. Aliás o Burr original, no livro de Carré, é um homem, mas no momento de adaptar o enredo para a televisão a diretora Susanne Bier decidiu que seria muito mais interessante se houvesse um embate direto entre um homem e uma mulher – no caso seria Angela e sua missão quase pessoal em derrubar o traficante de armas, e Roper tentando manter sua supremacia no mercado armamentista. A decisão, como pudemos acompanhar nos seis episódios eletrizantes, se mostrou mais do que acertada.

Angela Burr é tudo o que se espera de uma chefe de espionagem: ela é inteligente, articulada, criativa e luta com afinco por seus ideais. Mesmo exercendo uma posição importante de chefia, ela tem um marido e está grávida, e nada disso a impede de continuar em suas atividades regulares de espionagem. É Angela quem recruta Pine, é Angela quem estrutura e coordena todos os passos da missão. Mesmo quando ela e sua família são diretamente ameaçadas e mesmo quando seus superiores decidem dar por encerradas as investigações, Angela persiste e vai a campo ela mesma, totalmente grávida. E estamos frisando tanto o fato de Angela (e da própria Olivia Colman) estar grávida durante toda a ação, porque é extremamente raro ver esse tipo de representação na mídia. Isto é, futuras mães que, ao invés de se mostrarem totalmente vulneráveis e dependentes do cuidado da família, vão à batalha (nesse caso, literalmente) por elas mesmas. E isso é realmente incrível.

Em momento algum sua gravidez é vista como empecilho e, mesmo carregando uma vida em seu ventre, Angela visualiza o bem maior de toda sua missão quando arrisca a ambas (ela e o bebê) ao se unir a Pine e enfrentar Roper diretamente na reta final. Com tamanha confiança, Angela chuta muito mais bundas do que mais da metade dos outros personagens da série, e por isso, merece nossa menção honrosa e nossos aplausos de pé.

Isabel Rowley

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The Hour é um seriado da BBC, precocemente finalizado em sua segunda temporada, escrito por Abi Morgan, Jane FeatherstoneDerek Wax. O drama tem por premissa contar as histórias dos bastidores da criação de um novo show para a BBC no ano de 1956, o “The Hour”. A responsabilidade pelo novo programa da emissora fica para Isabel Rowley (Romola Garai), também chamada de Bel, jovem produtora de talento e com muita vontade de se provar capaz. Em um ambiente completamente dominado por homens, é tarefa de Bel fazer com que o programa seja produzido e coordenar todos os funcionários responsáveis, incluindo o vaidoso apresentador Hector Madden (Dominc West) e o repórter investigativo Freddie Lyon (Ben Whishaw).

Bel não é a única personagem feminina presente na série, mas, seguramente, é a de maior destaque. Quando Bel recebe de seu superior a responsabilidade de criar o novo programa, ela enfrenta o olhar crítico e, por que não, cínico de seus colegas homens. Todos estão céticos e não parecem crer na capacidade de Bel, e, de acordo com eles, ainda há o agravante de que uma mulher não deveria ocupar tal posição de liderança na criação de um programa para televisão. Logo no episódio que abre a série assistimos exatamente isso: um colega questionando sua habilidade e eficiência e Bel, com uma sagacidade incrível e respondendo sem pestanejar, dizendo tranquilamente “watch me”.

Depois disso foi uma questão de tempo para que todos vissem o quanto Bel era, sim, capaz e competente, visto que ela continuou demonstrando a que veio como produtora criando um novo show em meio ao caos da Revolução Húngara, Crise de Suez e conturbado ambiente político. Não que isso seja, de fato, um prêmio, mas após a resistência inicial de seus colegas, Bel acaba recebendo reconhecimento por parte deles por seu trabalho bem feito. O que acontecia nos distantes anos 1950 ainda acontece, sem dúvidas, em muitos ambientes de trabalho predominantemente masculinos: apesar de serem excepcionalmente capazes e íntegras em suas tarefas, mulheres continuam a ser encaradas com desconfiança quando escolhem abraçar uma carreira tida como “masculina”.

Além do debate sexista, outro aspectos interessante do seriado é a abordagem sobre como é ser uma mulher com uma carreira em 1956. Bel é jovem, bonita, solteira e inteligente, mas dedica todo seu tempo ao seu trabalho, algo pouco comum para a maioria das mulheres daquele tempo. Assim como um mulher escolhia se casar e ter filhos, Bel escolheu se dedicar ao trabalho e a construir uma carreira sólida e consistente. Muito embora a divisão entre carreira e família ainda seja algo com o que a mulher moderna tem que lidar, não dá para negar que no contexto de 1956 escolher o trabalho ao matrimônio poderia parecer muito mais ousado e arriscado. Não são poucas as vezes, por exemplo, que Bel precisa justificar suas escolhas para as outras pessoas e principalmente para sua mãe.

Lagertha

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Vikings é um drama histórico escrito por Michael Hirst para o canal History e tem como inspiração as histórias e lendas envolvendo Ragnar Lothbrok (Travis Fimmel), um dos mais importantes e reconhecidos heróis nórdicos, e suas incursões para saques por países europeus como França e Inglaterra durante a Alta Idade Média. Na série, fatos históricos, fantasia e misticismo se misturam de maneira a criar um enredo rico com personagens singulares e uma trama fascinante. Em seus episódios acompanhamos um pouco da cultura nórdica e a vida de Ragnar, sua família e guerreiros vikings, enquanto idealizam e realizam excursões pioneiras para outros países europeus.

No início da série Ragnar é apresentado como um agricultor e guerreiro viking que deseja descobrir e explorar novas terras para além dos mares que banham a Escandinávia. Com isso em mente, ele e seu amigo Floki (Gustaf Skarsgård) decidem projetar e construir uma nova frota de navios de maneira a fazer com que seus planos saiam do lar das ideias. Após conseguir o aval do Earl Haraldson (Gabriel Byrne), Ragnar e seus companheiros realizam o primeiro saque no reino da Nortúmbria – que, séculos mais tarde, viria a fazer parte do que hoje conhecemos como Inglaterra – e retornam em triunfo para o lar. Diferente do que se possa imaginar, a esposa de Ragnar, assim como outras mulheres, não está esperando por ele em casa pois foi junto na viagem: Lagertha (Katheryn Winnick), além de esposa, mãe e agricultora, também é uma escudeira e muito habilidosa em batalhas.

Lagertha é, de longe, a personagem feminina mais incrível da série. Muito embora exista, de fato, outras personagens muito bem construídas e interessantes – a princesa Aslaug (Alyssa Sutherland), Siggy (Jessalyn Gilsig) e a rainha Kwenthrith (Amy Bailey), só para citar alguns exemplos – é Lagertha que toma o protagonismo para si e demonstra que mulheres podem chutar bundas tão bem (ou melhor) do que qualquer homem. Além de ir para os saques e batalhas com os outros guerreiros, Lagertha nunca é colocada como subserviente ao seu marido e, muito pelo contrário, é sempre tratada como sua igual. Ela é forte e empoderada, lida com as questões da fazenda, cria seus filhos e participa dos saques e batalhas com maestria, inclusive salvando o marido em algumas ocasiões e matando guerreiros do próprio povo que pensam que só por terem subjugado uma vila saxã têm o direito de estuprar.

Por mais que o seriado não preze pela verdade histórica em todos os aspectos, a existência de Lagertha é importante para a trama e para a audiência na questão da representatividade. Apesar de a sociedade nórdica valorizar suas mulheres muito mais do que os demais povos europeus da Alta Idade Média, sabemos que Lagertha está, mesmo nessa sociedade, em uma posição de privilégio e tem a possibilidade de ser o que desejar ser. Ela não é escrava e está casada com um líder dessa sociedade o que, querendo ou não, abre um leque maior de possibilidades para ela. Mesmo após romper seu casamento com Ragnar devido a uma traição do marido, Lagertha tem a opção de abrir o próprio caminho. Ela não se torna mal vista por ter se separado do marido e não cai em desgraça como aconteceria em outras culturas – muito embora seu recomeço não seja fácil, Lagertha demonstra que é possível, sim, se reerguer.

Sua jornada é inspiradora: no início do seriado ela é uma fazendeira, casada e com filhos; seu marido a trai, ela se separa, perde um dos filhos e acaba em uma relação abusiva com outro homem. Consegue, por mérito próprio, tornar-se earl (um título próximo ao de governador), vê seu poder ser tomado e precisa lutar para recuperá-lo. Lagertha participa de batalhas e cria seu próprio exército (todo composto por mulheres, vale lembrar) e continua participando das explorações além mar. Ela é uma personagem que não está inserida na trama para ser o suporte do protagonista masculino, ela por si só possui uma história rica, uma trama forte e carisma suficiente para se tornar, não a toa, uma das personagens favoritas dos fãs. De acordo com o próprio criador da série, Michael Hirst, ela é a alma do show – e só temos que concordar.

Lisa Cuddy

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House, M.D. é um dos seriados que dispensam apresentações, sua popularidade faz com que a série seja conhecida mesmo entre os que nunca tiveram contado com ela. A trama da série era centrada em casos médicos de difícil solução os quais apenas o Dr. Gregory House (Hugh Laurie), com sua inteligência e raciocínio similares ao de Sherlock Holmes, era capaz de curar. House não é um médico comum – ele não é ético, não modera sarcasmo no ambiente de trabalho e tem uma personalidade misantropa atípica em um profissão baseada em cuidar de pessoas. O brilhantismo era seu atrativo e o que sustentava suas relações interpessoais mesmo quando ele se esforçava para desmerecê-las. Mas embora muitos médicos o vissem como a maior influência dentro do Princeton Plainsboro Teaching Hospital, quem incontestavelmente comandava o hospital era sua colega de trabalho, a endocrinologista Lisa Cuddy (Lisa Edelstein).

Cuddy é uma mulher brilhante em sua área e de personalidade tão forte que tais atributos proporcionaram a ela a chefia do hospital. É verdade que ao longo de sete temporadas, o protagonismo de House fazia seu cargo parecer secundário diante da insistência dele em ter seus procedimentos médicos controversos autorizados. No entanto, Cuddy jamais deixou de ponderar sobre suas decisões e jamais perdeu o controle sobre as responsabilidades do hospital. Uma prova disso é o episódio “5 to 9” exibido na sexta temporada, centrado do começo ao fim na árdua rotina da médica, abrangendo seu papel como mãe, profissional e mulher. Papéis os quais ela desempenha com desenvoltura e alguns sacrifícios, mas jamais cede à pressão exercida de todos os lados.

Quando vemos a série pela perspectiva dela, percebemos como House é apenas mais um médico dentro de um hospital inteiro, e que os intricados casos dele estão concentrados em apenas um departamento que por si não sustenta o ambiente como um todo. Todas as decisões de interesse comum estão nas mãos de Cuddy; ela atua como médica e administradora, media os conflitos e dá a palavra final. E, como a manutenção do hospital também requer estratégias financeiras, além de lidar dos interesses dentro do prédio, ela precisa ter sagacidade para fazer negociações e conseguir o acordo que considera justo conforme seus valores.

Tamanho o seu envolvimento com o trabalho, Cuddy adiou outros planos que considerava importantes em sua vida, e ao longo da série também podemos acompanhar sua jornada na tentativa de ter um filho; primeiro por meio de tratamentos de fertilização, depois pelo processo de adoção. Mesmo tendo uma profissão exigente, Cuddy jamais descartou a possibilidade e o desejo de ter o “pacote completo”. Sua realização profissional não se sobrepunha à sua realização pessoal, ambas eram importantes para ela e vistas como possibilidades tangíveis, como deveria ser. Cuddy é uma personagem inteligente e extramamente capaz, tida como referência em sua área, mas ainda assim humana, com desejos e inseguranças. Nem sempre ela tem total confiança em suas decisões, tampouco faz as melhores escolhas, contudo, Cuddy jamais se sacrifica ou sacrifica as pessoas que são caras para ela, em prol de uma causa sem solução (se vocês sabem o que quero dizer).

Por essas e outras, não podemos dizer que ela é uma personagem secundária, nem que ela é egoísta por ter se afastado de House. Nas palavras do Dr. James Wilson (Robert Sean Leonard): House é um babaca, e por mais que o admiremos, não precisamos necessariamente torcer para que uma mulher autossuficiente se sacrifique por ele. Não. Cuddy provou que é muito melhor do que isso.

Susan Hart

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Ripper Street é uma série britânica criada e escrita por Richard Warlow, transmitida até a terceira temporada pela BBC e a quarta temporada pela Amazon Video. Em primeiro nível, a trama é centrada no Detective Inspector Edmund Reed (Matthew Macfadyen) e nas investigações dos casos de homicídio na divisão H da delegacia de Whitechapel, distrito localizado no West End de Londres, ao mesmo tempo em que por vez ou outra ele precisa resgatar os casos de Jack, o Estripador de seus arquivos. Trabalhando ao seu lado estão o Detective Sargent Bennet Drake (Jerome Flynn) e o ex-cirurgião do exército americano, Captain Homer Jackson (Adam Rothenberg). E, permeando com frequência no episódios está Susan Hart (MyAnna Buring), dona do bordel da cidade.

Ao contrário do que soa ao abordar a série de um modo geral, a participação de Long Susan, como é chamada na série, não é de uma mera coadjuvante. Com seus olhares frios e uma personalidade quase indecifrável, ela ocupa uma posição importante para o desenvolvimento da trama. Não apenas por gerenciar um dos locais mais frequentados pelos homens da série, e por consequência, um dos locais mais cruzados nas linhas de investigação, mas também por ter uma conexão direta com Jackson, uma vez que ela é sua esposa. Sem o consentimento da família, Susan casou-se com Jackson e fugiu dos Estados Unidos seguindo a própria vontade. Ao chegar em Londres, ela não só soube ocultar sua verdadeira identidade como conduziu o casamento com discrição, deixando de lado quaisquer costumes matrimoniais e afetivos e traçando uma linha para que pudesse ser capaz de ter sua independência.

Embora o seu negócio não seja um dos mais dignos, Susan atua como protetora das meninas que optam pela prostituição ou porque não tiveram alternativas ou porque quiseram estar ali. Seu tratamento é notável especialmente com a jovem Rose Erskine, uma de suas moças mais rentáveis, e interesse romântico do Sargent Drake, que eventualmente larga a prostituição para seguir carreira no teatro. Considerando que a série se passa no século XIX e as condições de vida podiam ser ou promissoras ou adversas para as mulheres, Susan consegue se sobressair em uma sociedade que oferece oportunidades insatisfatórias para as mulheres. E quando ela mesma se encontra em uma situação onde a submissão é a única escolha, ela usa de sua frieza para dar a volta por cima e se elevar ainda mais.

Uma personagem feminina forte não precisa ser necessariamente a mais gentil. Somos moldados pelas nossas vivências, como sabemos, e as vivências de Susan tornaram-na inabalável, na medida do possível, diante de uma vida controlada por homens. Fosse seu pai, seu marido ou seu senhorio. Da primeira até a terceira temporada percebemos uma mudança notável na sua personalidade e na importância da sua atuação. Susan não é uma mocinha, tampouco uma vilã: ela é as duas coisas ao mesmo tempo, dependendo de com quem ela está lutando e por quê. Ame ou odeie, em uma série com certa escassez de mulheres em seu elenco, ter uma personagem de tamanha sagacidade é o suficiente para cumprir a cota de representatividade. Sem estar exatamente dentro de qualquer padrão, sem estar exatamente sequer no centro na série, Susan Hart é a mulher que devemos notar quando estivermos falando de Ripper Street.

Texto escrito em parceria por Thay e Yuu

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2 Comentários

  • Responda
    Aline Tavares
    20 de julho de 2016 at 08:39

    Mais séries para a interminável lista. Em especial The Night Manager e e Ripper Street, que já estavam entre as séries que gostaria de assistir.

    • Responda
      Thay
      20 de julho de 2016 at 11:49

      Não poderia ter escolhido melhor, as séries são fantásticas. <3

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