CINEMA

As garotas boas e as garotas más de Hollywood

Que Stranger Things virou assunto em todas as redes sociais e em todas as conversas entre seriadores você já sabe. Mas além do saudosismo dos anos 80, do tom paranormal e de crianças excelentes, a série trouxe a volta de Winona Ryder ao mainstream e às graças do público.

A atriz, que nos anos 80 e 90 era queridinha hollywoodiana, passou por um julgamento da opinião pública que afetou sua carreira. A protagonista de Beetlejuice, Garota, Interrompida, Heathers e outros clássicos das décadas anteriores foi presa após furtar roupas de uma loja chique. Apesar de não ser estranha aos tablóides – Winona havia, afinal, sido a jovem estrela du jour e tido um relacionamento bem noticiado com Johnny Depp – foi essa polêmica que acabou sendo destrutiva para sua carreira. Hollywood, a terra de homens abusivos e políticas questionáveis, destrói uma mulher em um segundo.

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Não que seja algum tipo de novidade. Mulheres, desde sempre e em qualquer situação, são colocadas em um patamar de julgamento muito mais alto que os homens. Elas nunca são o suficiente. Mas é notável que a mídia dedicada a celebridades, que tanto permite a continuidade de homens péssimos (já que estamos falando da Winona, que tal trazermos à tona que em pleno 2016 e com vídeos de prova, o Johnny Depp ainda não é tratado como abusador?) na indústria, um roubo feito pela jovem atriz é motivo para ela ser detonada publicamente.

Mas é o status quo da indústria. Winona tinha uma reputação, uma aura de garota cool e talentosa que recebia o destaque na área em que trabalhava. E qual é a nossa coisa favorita depois de construir celebridades? Destruí-las. Claro que uma atriz rica que rouba na verdade não está roubando porque não tem dinheiro, mas pode estar passando por problemas psicológicos. Isso, no entanto, fica em segundo plano enquanto a imprensa se ocupa em virar a opinião. O interessante de se analisar aqui é que ela teve que parar de trabalhar de tão complicada que a coisa ficou. Winona cometeu um erro na frente de todo mundo, no começo da era da internet. O julgamento dela foi publicizado ao extremo. Ela era um viral antes de virais existirem. E isso abriu as portas pra toda uma intensificação do escrutínio de mulheres com vida pública.

Porque às vezes parece que mulheres não podem ser pessoas complexas, com sentimentos e multitudes, é bem comum que as que escolhem vidas públicas sofram bastante com o maniqueísmo que vem disso. É um problema comum às mulheres em geral, que recebem rótulos como “vadia”, “chata”, “mandona”, “gostosa”, “pra casar”, etc. E é um problema ainda maior para aquelas que juntam o machismo nosso de cada dia com o poder de difusão midiático. Quando todas as suas ações estão estampadas em tabloides, elas inevitavelmente criam uma narrativa: ou é uma garota fofa e boazinha, ou é uma louca e sem noção. Ou é a santa, ou é a vadia. Ou é a mãe cuidadosa, ou é a desequilibrada.

Um caso clássico, em que as mulheres em questão foram colocadas como rivais uma da outra, é o de Jennifer Aniston e Angelina Jolie. Essa história é particularmente fascinante de ser analisada, porque até então Angelina era a louca. Ela é a figura sexy, mas também bissexual e duplamente divorciada. Ou seja, a garota má. Enquanto isso, Jen era a moça fofa de sitcom e comédias românticas, não tão sexual.

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Quando Brad Pitt troca uma pela outra, a narrativa se reforça. Afinal, a moça lá óbvio que é uma sedutora sem limites, roubou até o marido alheio. Anos se passam, Brad e Angelina têm 253252 filhos, fazem trabalhos humanitários e Jennifer acaba casando com Justin Theroux, mas não tendo nenhuma criança. A narrativa sofre mudanças: “olha como Brad/Angelina são um casal fofo” acompanhado de rumores de gravidez de Aniston, que nem filhos queria ter. De qualquer forma, a reputação e a imagem de ambas as mulheres, mesmo que elas tenham enorme sucesso profissional, ainda é relacionada a boatos de mídia de dez anos atrás.

Ainda assim, o caso delas é um caso mais aceitável. Tirando essa associação infeliz, elas conseguiram manter sucesso pessoal e profissional desde então. O que não é sempre o caso. Há mulheres famosas cujos dramas sendo espalhados acabaram por gerar problemas maiores.

Pense em Britney Spears. Nós havíamos passado anos cultivando sua imagem como diva pop boazinha. Ainda que ela sensualizasse nos clipes e fizesse parte do casal mais anos 2000 possível com Justin Timberlake, ela fazia a imagem de fofa e inocente. É claro que não ia durar. Depois de construirmos coletivamente esse pedestal, era hora de derrubá-lo. Primeiro, uma cena dela segurando o filho no carro. Daí, fotos nuas, o divórcio complicado e diversos surtos públicos, que culminaram no fatídico dia da cultura pop em que Britney raspou os cabelos e bateu com o guarda-chuva no paparazzi.

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Em outro sentido, temos uma popstar reconhecidamente garota má: Amy Winehouse. Ela tinha essa personalidade forte, um estilo retrô-hipster, sem nem esbarrar na inocência, uma voz forte e problemas com álcool e drogas. Ela estava à beira de um colapso, mas né, era algo que a mídia podia aproveitar. Ela teve rehabs, surtos no palco, passou por um relacionamento abusivo e tudo isso foi espetacularizado, até sua morte.

A geração seguinte não estava isenta. Comecemos por Lindsay Lohan. Ela era a estrela teen dos nossos filmes favoritos, rainha da Disney e com uma rivalidade meio forçada com a Hilary Duff. Até aí, tudo corria bem. Quando Lindsay começou a se envolver com drogas e álcool (sendo acusada de dirigir bêbada), a coisa começou a mudar. De repente, ela era uma garota má, a desequilibrada que ia para a reabilitação e vivia em julgamentos sobre seu comportamento na sociedade. Foi só recentemente, ao sair do raio hollywoodiano e se mudar para Londres, que Lindsay deu uma amenizada nos rumores.

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Amanda Bynes é outro exemplo. Desde criança na TV, ela era referência cultural de uma geração. Tweets estranhos começaram a aparecer em sua conta, a presença dela na internet parecia anormal. Logo, vieram as violações de trânsito (parece que isso é comum entre celebridades?), alguns surtos públicos e tudo culminou em uma prisão por jogar um bong de sua janela e uma hospitalização psiquiátrica depois de colocar fogo em um gramado. Bynes, pelo que víamos, estava passando por sérios problemas psiquiátricos. Mas a espetacularização da cultura de celebridades fez com que tudo fosse trivializado.

Novas gerações de mulheres não estão isentas dessa dicotomia de papéis em Hollywood. Muito pelo contrário. Ainda hoje, jovens atrizes e cantoras continuam sendo reduzidas a julgamentos maniqueístas. Em qualquer um deles, elas arranjam problemas. Hoje, com o avanço da internet e da cultura de “your fave is problematic”, as expectativas são ainda mais altas do que eram com Winona.

Kristen Stewart e Jennifer Lawrence são figuras parecidas até certo ponto. Ambas são atrizes com diversas experiências que atingiram sucesso exorbitante com franquias cinematográficas de livros adolescentes. Mas elas também não poderiam ser mais diferentes. Kristen sempre foi quieta e introvertida, o que fazia com que ela constantemente fosse taxada de antipática. Por outro lado, Jennifer começou a ser vista como a garota engraçadinha, extrovertida e que pagava mico na TV ao vivo. Gente como a gente.

Não demorou muito. A garota má Kristen foi pega por paparazzi traindo o namorado com o diretor do filme em que estrelava (ela, claro, arranjou problemas por isso. O homem, casado e bem mais velho, nem de perto tantos), Jennifer teve sua queda marcada por “ah, ela deve estar fingindo ser assim”. E aí de repente todo mundo estava cansado dela. De repente, todos queriam dizer como ela era problemática, como ela não era tão legal assim

Algo similar pode ser dito sobre a Taylor Swift. Ela sempre fez o papel de fofinha. Primeiro, quando cantava sobre os boys que tinham dado o fora nela. Depois, quando resolveu ir pro pop e chamar as migas pro palco com ela. Nada anormal aí. Mas como tudo que sobe desce, chegou a hora dela também. De uma hora para a outra, aconteceu algo parecido com o que tinha acontecido com a Jennifer Lawrence: os traços que as pessoas adoravam começaram a ser criticados. Quando ela mentiu/distorceu os fatos na briga com o Kanye West, a narrativa foi a mesma: “ela é falsa e estava fingindo o tempo todo”.

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A garota má dessa geração, Miley Cyrus, teve um fenômeno diferente. Ela cresceu na frente da mídia e, por isso, todo mundo achou que deveria interferir na vida dela. Não tão diferente de Amanda Bynes ou Britney Spears. Quando ela resolveu deixar sua imagem mais sexy, foi pra sempre colocada na categoria de garota má e problemática.

Esses são só alguns exemplos de mulheres famosas que sofreram com escrutínio público em um passado recente. Todas essas mulheres podem ter cometido erros. Alguns maiores, como apropriação cultural e crimes. Outros menores, como criar intrigas com outras celebridades e ter problemas de casamento. Mas o que essa análise nos faz perceber é que tanto as garotas boas quanto as garotas más não podem sair de suas caixinhas. E que erros, em Hollywood, não são área permitida para mulheres.

De qualquer forma, seja em qual lado uma mulher famosa seja colocada, é muito difícil ela conseguir sair. Conseguir mostrar sua multiplicidade. Ter alguma redenção. Talvez Stranger Things seja a redenção de Winona. Enquanto isso, vamos tratar as mulheres, famosas ou não, com a complexidade que merecem.

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