MÚSICA

Anitta e o empoderamento que não empodera ninguém

Era uma vez uma moça muito bonita, poderosa e cheia de ótimas músicas. O nome dela era Larissa e ela nasceu em um reino não tão distante popularmente conhecido como Ridjaneiro. Muito cedo na vida, Larissa adotou o pseudônimo de Anitta e começou a ficar cada vez mais famosa cantando suas canções regadas a autoestima, rebolando por aí e gravando clipes muito ótimos.

Nesses pouco mais de 6 anos desde a assinatura do primeiro contrato com uma gravadora, muita coisa aconteceu na vida, na música e na aparência de Anitta. E eu acho que deve ser bom a gente começar nesse ponto porque, fosse Anitta um homem, isso não importaria em nada; mas, sendo uma mulher, o seu corpo e a sua aparência são diretamente relacionados à sua carreira musical. Uma coisa bem louca.

Esses tais padrões estéticos

Comecemos, então, chamando a atenção para o fato de que Anitta pode não ser tão branca quanto você acha que ela é, e quanto ela parece hoje em dia. Ela não tem o cabelo liso e diversas das suas características físicas originais já foram cirurgicamente retocadas. Tudo isso não porque ela necessariamente repudie de forma direta qualquer associação com a identidade visual/étnica negra, mas por uma explicação muito “simples” e nada disfarçada: o padrão estético da nossa sociedade é branco e eurocêntrico. Dessa forma, em busca de uma adequação e aceitação maiores (que é o que todos os seres humanos buscam na vida, e especialmente importante para quem vive da imagem), a tendência é se embranquecer sempre que possível.

Anitta

Padrão de beleza é algo que afeta todas nós — especialmente nós, mulheres —, que nos é imposto das formas mais subliminares desde o nascimento, e a que ninguém está naturalmente imune. É um trabalho árduo e diário tomar consciência desses padrões e tentar não nos rendermos a ele, e quando sua aparência é seu instrumento de trabalho, tentar fugir disso se torna uma questão ainda mais complicada.

Nossas próprias preocupações estéticas, que já nascem de uma comparação subconsciente da nossa aparência real com os padrões inatingíveis que a sociedade diviniza, são estimulados e reforçados, ainda, pelo fato de que ser mulher é ter seu corpo em domínio público desde o nascimento. Todos se sentem no direito de analisar e tecer comentários, aprovar e reprovar como se sua opinião tivesse relevância, e na prática ela acaba tendo mesmo, porque somos ensinadas desde sempre que precisamos ser bonitas (algo que traz em si mesmo uma ideia de julgamento externo) e agradar os outros. Nós somos socializadas para buscar aprovação externa, e o que a opinião externa quer é que nós nos aproximemos o máximo possível dos padrões.

Padrões estéticos, mais do que uma tortura gratuita aplicada sobre as mulheres enquanto grupo social, são uma forma de controle, que nos leva a desperdiçar uma parcela considerável da nossa energia, tempo, preocupação e dinheiro em algo que nós nunca poderemos ter (esse é justamente o segredo da coisa).

Anitta

“Mas a Anitta é empoderada

“Ela não liga pra essas coisas, ela faz os homens rastejarem no chão e ri da cara deles”, ou qualquer coisa que o valha. “Ela virou o jogo e usou isso em favor dela.”

Eu realmente tenho que reconhecer que a autoestima e a autoconfiança que a Anitta-performance passa nas músicas, nos clipes e nas aparições públicas é invejável. Quisera eu ter a segurança que essa mulher demonstra (e que eu espero que ela sinta por dentro, apesar de duvidar muito). Mas é aí que está. Em primeiro lugar, todas nós sabemos que o que a gente demonstra nem sempre é o que está realmente sentindo – e eu duvido que qualquer ser humano na posição dela consiga ficar realmente imune e deboas.

Em segundo lugar, autoestima é uma coisa ótima, é maravilhosa, mas não significa empoderamento. Se adequar a um padrão estético e ser manipulado por ele não empodera ninguém. Receber assobio na rua não empodera ninguém, rebolar a bunda seminua para o alto porque o corpo é meu não empodera ninguém. Não sou eu quem vai te impedir, mas sou eu quem está aqui te dizendo que isso não ajuda a causa de mulher nenhuma. Uma liberdade sexual que favorece homens e um “empoderamento” estético que beneficia o capitalismo não empoderam ninguém, porque nem o patriarcado nem o capitalismo atendem à causa das mulheres.

O maior problema está justamente em tentar entender o conceito de empoderamento em nível individual, quando é na realidade uma questão coletiva. O suposto “empoderamento” para o qual podemos usar a Anitta como exemplo é completamente vazio, porque por mais que possa fazer com que ela se sinta muito bem consigo mesma (o que, veja só, é uma ótima forma de mascarar que a opressão está tão ali quanto sempre esteve), não retira ela da posição de oprimida na nossa sociedade machista e misógina. O “empoderamento” da Anitta não só não ajuda a luta das mulheres como um todo, como não traz nenhum benefício real a ela mesma enquanto mulher.

“Empoderar” significa, literalmente, tomar poder. As mulheres, enquanto classe e levando em consideração os devidos recortes, não têm poder nessa sociedade. E continuamos não tendo, não importa quanto batom vermelho nós passemos na boca.

Anitta

Eu adoro as músicas e clipes da Anitta, eu adoro dançar e eu odeio perder qualquer festa mortadelo-alternativa do Rio que tenha nossa diva tupiniquim como tema. Eu saio da minha casa, vou até a casa de show, fico enlouquecida e rebolo até o chão, e longe de mim proibir qualquer um de fazer isso ou desejar qualquer mal à moça e à sua carreira. A questão é que enquanto eu estou lá, feliz da vida rebolando minha bunda, eu tenho plena consciência de que isso não beneficia causa nenhuma. E quando eu sei que em algum ponto do recinto pelo menos um homem está me observando e criando fantasias sexuais sobre o meu corpo, eu não me sinto nem um pouco mais poderosa. Eu só sinto nojo mesmo.

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22 Comentários

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    Bruna
    15 de dezembro de 2016 at 09:26

    Não concordo em muitos pontos, Paloma.
    Somos seres humanos e gostamos de corpos humanos. Somos sexuais e fantasiamos com corpos de acordo com nossas preferências, sejam elas mais de acordo com o ‘padrão vigente’ ou não. Padrão este que nosso cérebro está condicionado a formar, é só dar um google…

    Se eu acho minha bunda bonita e quero rebolar ela por aí problema meu; o que o outro entende disso, como ele lida com isso é problema dele e da educação que ele recebeu. Não acho que cantoras/dançarinas rebolando reforçam o fato de os outros acharem que isso tá permitido, se ele acha que tem direito de passar a mão em mim sem meu consentimento SÓ porque to rebolando minha bunda quem tá errado é ele e não minha bunda rebolante ou as que estão no palco. Não é parando de rebolar minha bunda que vou ajudar a consertar o machismo enraizado na nossa cultura/não é deixando de fazer o que eu gosto, e sim educando novos seres humanos e mostrando o caminho aos que estão a fim, porque né, chega de perder tempo discutindo no Facebook com quem só quer causar…
    Obviamente não quero ter mãos sendo passadas na minha bunda sem serem convidadas, EU não consigo fingir que vivo numa bolha e que isso nunca vai acontecer, até porque já aconteceu. Conheço meus limites e lido com cada situação da forma que acho melhor pra mim. As vezes faço escândalo, as vezes só levanto a cabeça e continuo meu caminho, as vezes desço minha rua com o guarda-chuva em uma mão e a chave tetra na outra. O feminismo me ensinou que posso lidar da forma que eu quiser e que é importante falar sobre.

    “rebolar a bunda seminua para o alto porque o corpo é meu não empodera ninguém”

    Empodera sim, nem que seja a ela mesma e as que se enxergam nela e isso independe de corpos padrões, o corpo é dela e o poder de fazer o que quiser com ele também. Se isso representa a maioria das mulheres ou não é indiferente porque ninguém sozinha vai conseguir empoderar e representar todas. Do mesmo jeito que a menina gorda faz quando posta foto de biquini e a gente aplaude 😉

    É legal a gente discutir padrões de beleza, cirurgias plásticas excessivas e tudo mais, mas não acho legal quando você diz que internamente talvez a Anitta não seja tão segura de si mesma como aparenta, já que mudou tanto seu físico. Isso pra mim é julgar. NINGUÉM SABE O QUE SE PASSA DENTRO DA OUTRA PESSOA pontofinal.
    Você já pensou que a gorda empoderada do instagram também pode não ser tão segura de si mesma como aparenta? A negra? A trans? E você julga elas também ou considera que já sofreram com isso a vida toda e não precisam de mais? Com a menina que está ~teoricamente~ dentro dos padrões á mesma coisa (guardadas as devidas proporções).
    A gente fala o tempo todo se acha que a boca da famosa tá bonita ou tá exagerada, mas é importante perceber e expressar isso da forma mais sincera, mostrando que é apenas uma opinião, que em mim eu faria de outro jeito ou jamais faria. O feminismo que me ensinou isso também, a linha tênue entre emitir opinião com e sem julgamentos, do jeitinho que gostaria que fizessem comigo. Eu jamais julgarei novamente uma pessoa porque ela ‘se rendeu’ aos problemáticos padrões estéticos. Infelizmente, a ampla maioria de nós já fez isso.

    “Quisera eu ter a segurança que essa mulher demonstra (e que eu espero que ela sinta por dentro, apesar de duvidar muito).”
    – Na minha opinião esse ‘duvidar’ é julgar.

    “Mas é aí que está. Em primeiro lugar, todas nós sabemos que o que a gente demonstra nem sempre é o que está realmente sentindo – e eu duvido que qualquer ser humano na posição dela consiga ficar realmente imune e deboas.”
    -Ninguém tá imune, oras, então porque apontar o dedo pra Anitta ou para qualquer outra? Não faz sentido pra mim.

    Somos contradições ambulantes e mutantes, não dá pra fugir e quando eu entendi isso ficou tudo mais simples.
    Não gostei quando a cozinheira vencedora do Masterchef disse que não era feminista, sendo que sofreu machismo abertamente em rede nacional e não gostou.
    Odiei quando a Anitta foi no Altas Horas, rebolou e falou que a mulher tem que ‘se dar ao respeito’.
    CONTRADIÇÕES – mas aposto que alguém já contou pra Dayse que se ela acredita em igualdade já é feminista sim e a Pitty e mais alguém já contou pra Anitta quem ninguém tem que ‘se dar ao respeito’, ele já nasce com a gente.
    Assim eu sigo acreditando na capacidade do ser humano de se reinventar!

    • Responda
      Paloma
      15 de dezembro de 2016 at 10:05

      Oi, Bruna. Em primeiro lugar, obrigada por vir dar sua opinião, de verdade. A gente acha que é desse diálogo que o site é feito, e por isso eu vim te responder. Mas antes de tudo vou te dizer que mandar as pessoas “darem um google” é uma coisa muito pedante e rude de se fazer, porque você está pressupondo que qualquer opinião que divirja da sua.

      Em primeiro lugar, toda opinião pressupõe um julgamento, porque o ato de julgar consiste justamente em analisar uma questão e formular uma opinião sobre ela. Todos nós julgamos tudo todos os dias em todas as situações e isso não é ruim por si mesmo. Continuando, eu realmente não “apontei dedo” nem julguei mal a Anitta, porque eu sei que a culpa não é dela. O texto, como todos os textos publicados aqui no site, são uma análise, e não uma acusação. Tudo que a Anitta e todas nós fazemos não é nada mais do que o resultado da nossa socialização feminina, nós somos sim criadas para sermos inseguras e fazermos tudo o que está ao nosso alcance para agradar e sermos aceitas, inclusive nos adequarmos aos padrões estéticos.

      Continuando, eu não acho que “empoderamento estético” empodere ninguém em caso >nenhum<, nem mesmo nesses casos que você apontou. Eu em momento nenhum defendi que qualquer ação de uma mulher seja justificativa para uma situação de abuso. A culpa nunca é da vítima e você nunca vai me ver defendendo que é. E eu falei no texto que eu também não estou aqui para impedir ninguém de fazer nada, estou aqui para refletir e instigar a reflexão. Mas isso e não significa que ter boa autoestima e ser segura de si tenha alguma relevância a nível coletivo, e não se resolve problema social ficando no plano individual. Isso é exatamente o que eu apontei no texto como um todo.

      • Responda
        Carol
        15 de dezembro de 2016 at 13:17

        Muitos sabem ler, mas muitos não sabem interpretar.

        • Responda
          Dani
          15 de dezembro de 2016 at 15:18

          Também achei que faltou interpretação, porque ninguém está diminuindo ninguém por gostar dessa ou daquela cantora.
          E é ok se sentir empoderada por rebolar, mas afirmar que isso empodera várias mulheres, é bem falacioso, ainda mais considerando o contexto em que vivemos.
          Querer atrair olhares, também é ok, mas esse é um comportamento enraizado que tem vários propósitos e nenhum deles empodera mulheres coletivamente.
          Se sentir bem por estar de acordo com um padrão vigente só reforça a necessidade de aceitação. O que há de empoderador nisso?

          • Paloma
            15 de dezembro de 2016 at 16:30

            Foi exatamente isso que eu tentei explicar, Dani. Obrigada!

      • Responda
        Siss Joy
        18 de março de 2017 at 11:46

        Baseado na amostragem de comentários aqui presentes, o que faz essas mulheres se sentirem empoderadas é mesmo se sentir mais desejadas e mais bonitas que as outras e é por isso que produtos como “Anitta” e derivativos vendem tão bem. A ilusão de ser a “primeira do Harém” é mais forte que abrir mão do componente sexual para começar a crescer de verdade. E isso é obra da incapacidade de eliminar a influência masculina sobre o fato de que devemos agradá-los. Uma coisa é o que se idealiza por um fio de racionalidade e a outra é a força dos hormônios comandando o que a mulher realmente é. Todas elas estão a anos-luz de compreender o que é ter poder de verdade. Poder é ter respeito absoluto do outro, que passa a temer causar-lhe contragosto. Fato é que se você acha que a porra da sua bunda é melhor que a bunda da vizinha você se achará mais poderosa, mesmo que não use a sua bunda para ganhar dinheiro como faz a Larissa / Anitta.

    • Responda
      Alan
      3 de maio de 2017 at 22:59

      Uma ótima leitura Bruna
      http://desacato.info/mostrar-nossa-bunda-nao-e-empoderamento/

  • Responda
    Gabi Machado
    15 de dezembro de 2016 at 11:08

    Oi, Paloma. Tudo bem? Gostei do seu texto, mas assim como a moça de cima também discordo de vários pontos abordados.

    Rebolar a bunda porque você quer não traz em nenhum momento um empoderamento que começa individual e termina coletivo?

    Ela não rebola a bunda pra agradar homens. Se agrada, paciência. Mas acredito eu que ela rebole para falar que a bunda é dela, o corpo é dela, a liberdade sexual, seja ela falaciosa ou não, também é dela.

    O empoderamento só pode vir através de uma liberdade sexual que não alcance homens de maneira alguma? Ou será que ele precisa estar completamente desconectado desse viés, numa espécie de moralismo às avessas?

    Antes, o machismo dizia para não rebolarmos. Agora, o feminismo diz. Será que é mesmo esse o caminho?

    Sem contar que existem milhares de outros fatores na carreira da Anitta que contribuem para o seu empoderamento e o de todas as mulheres. Ela é uma das cantoras mais bem sucedidas do Brasil atualmente, já ganhou milhares de prêmios, deu uma visibilidade mundial ao funk carioca que andava meio adormecida e mudou a música pop do país, está galgando carreira internacional, etc, etc. Nada disso contribui para que nós saibamos que sim, dá pra ser bem sucedida na música, ser mulher e rebolar o quanto quiser?

    Eu entendo o que você tratou no texto, mas acho que primeiro precisamos revolucionar o que está ao nosso alcance, da nossa maneira, e só depois partiremos para uma subversão absoluta dos padrões.

    Antes de produzirmos mulheres na música pop cuja sexualidade não seja nem 1% voltada para consumo masculino, precisamos primeiro dominar a música pop. Da mesma maneira, achar que essas mesmas ídolas da música pop não beneficiariam o capitalismo, sistema vigente e do qual somos todos dependentes, é um pouco utópico. Toda revolução social acontecem em camadas, baby steps.

    Criticar o que ocorre agora é bem-vindo, mas temos que ter cuidado para não invalidar o progresso que já foi feito, mesmo que ele seja pequeno, apenas porque estamos de olho lá na frente. 🙂

    Beijo pra você! :*

    • Responda
      Paloma
      15 de dezembro de 2016 at 12:56

      Oi, Gabi! Eu entendo perfeitamente o que você quis dizer, mas não concordo muito, deixa eu tentar me explicar.

      A minha concepção sobre a coisa é que, ainda que seja ótimo pra ela que ela faça isso teoricamente por ela (o que eu tenho dificuldade de dizer que é 100%, porque, estando na mídia, ela acaba usando a si mesma como produto e bem ou mal precisa dessa aceitação externa), o fato de ela se sentir bem consigo mesma não muda a misoginia sofrida. Ela continua sendo julgada ou objetificada por essa suposta liberdade sexual. Eu não tenho intenção nenhuma de proibir e nem gostaria que proibissem ela de rebolar a bunda. Eu AMO rebolar a bunda, inclusive. O meu alerta é só separar uma coisa de outra: não é porque ela está fazendo e se sente bem fazendo que isso tem alguma relevância para o feminismo enquanto movimento social coletivo, entendeu?

      A minha questão com essa liberdade sexual que é tão defendida pelo liberalismo, essa “liberdade sexual que agrada homem”, me preocupa muito porque muitas vezes ela é usada contra nós. Porque ela é confundida com a necessidade de dizer sempre sim e esquece uma parte muito importante que é a de dizer não. Porque pra afirmar que eu sou livre e dona do meu próprio corpo, eu sinto a necessidade de saí por aí sem ter certeza que é realmente isso que eu quero; e, por outro lado, quando eu digo não, eu sou taxada de conservadora e reprimida. Claro que o ato sexual heterossexual em si (idealmente) vai ser proveitoso pras duas partes, logo vai agradar homem, a questão é que essa liberdade sexual que é a ideia corrente só vai até o ponto em que agrada o homem, enquanto nós ainda seguimos sem o direito de explorar e admitir abertamente a nossa sexualidade sem sanções sociais.

      Só pra terminar, a questão do capitalismo: já ouviu falar na taxa rosa? É uma questão muito interessante, que todos os produtos femininos são sempre consideravelmente mais caros que os masculinos equivalentes. Isso também é uma forma de controle social. Nós estatisticamente ganhamos menos, e mesmo assim somos influenciadas a gastar mais de forma completamente irracional. Sim, nós estamos inseridas no capitalismo. Mas dizer, por exemplo, que passar batom vermelho é empoderador e revolucionário é uma forma de se apropriar do movimento social para gerar mais lucros, e nós acabamos convencidas de que assim nós realmente estamos fazendo de alguma forma afetando o status quo e mudando muita coisa. Prova de que não estamos é que é muito difícil nos sentirmos confortáveis para ir a algum evento social/formal sem maquiagem.

      Fechando, eu concordo com você que qualquer alteração é melhor do que nenhuma, de verdade; mas eu acho que a gente corre um risco muito grande de se prender nesse discurso, se acomodar, e não ir além — até a raiz do problema. E também concordo que uma mulher atingir a posição dela, ainda mais no contexto que você apontou e vindo de uma posição social bem desfavorável, é muito legal; mas mesmo sendo inspirador, é bacana lembrar que ela é a exceção, e não a regra, e não dá pra basear um movimento social que deve atingir todo mundo em uma exceção.

      Muito obrigada por ter vindo conversar! Beijinhos <3

      • Responda
        Renata Eger
        15 de dezembro de 2016 at 15:55

        MEU DEUS!!!! SIM!!!!!

        Só queria dizer que sim, texto excelente e melhor que ele são as respostas super claras que estás dando. Eu nunca conseguiria expor tão bem quanto você fez a mesma opinião.

        • Responda
          Paloma
          15 de dezembro de 2016 at 16:29

          Que bom que gostou, Renata! Obrigada pelos elogios <3

  • Responda
    Bruna
    15 de dezembro de 2016 at 11:58

    Oi Paloma,

    O ‘dar um google’ foi só para tentar referenciar os estudos técnicos que apontam como nosso cérebro cria padrões e como isso é inevitável, nada mais, não quis ser rude.

    Concordo que toda opinião pressupõe um julgamento mas existem N formas de expressar isso e considero o que você fez com o texto e sua opinião sobre a Anitta negativo. Continuo achando que você apontou o dedo, foi assim que interpretei sua análise.
    Eu nem sequer insinuei que você defendeu abuso ou que culpou a vítima, que fique claro, não sei porque você colocou isso.
    Nem sempre estamos querendo resolver problemas sociais, as vezes é só diversão, mas a mensagem pode ser positiva mesmo assim. O coletivo não é formado de indivíduos? Acho que quando mulheres estão felizes com seus corpos, se divertindo, se sexualizando da forma que escolheram é empoderamento e dos melhores!

  • Responda
    Giovana
    15 de dezembro de 2016 at 12:00

    Cara, honestamente, desta vez não concordo com nada. Achei o texto bem preconceituoso na real. E, sim, poder “rebolar a bunda” sem pudores, na frente de quem for, vestida como quiser é empoderamento. É se apropriar do próprio corpo, é romper o bela, recata e do lar. Faz bem à causa sim. Poder assumir, cantando e dançando, que mulher tem desejo, pode escolher o parceiro, pode fazer o que quiser com quem quiser é se empoderar. É dar um basta – ainda que pequeno – na ideia de propriedade que muitos homens tem com relação a nós. Julgar as escolhas de outras mulheres, apontando como “o que você faz é divertido, até curto, porém inútil” é um desserviço pontuado por arrogância.

    • Responda
      Paloma
      15 de dezembro de 2016 at 13:06

      Oi, Giovana. Então, a questão é que enquanto algumas têm a chance de se presumir donas dos próprios corpos, muitas (as que mais precisam) continuam exatamente como estavam antes. Enquanto umas poucas privilegiadas podem até afirmar que elas, individualmente, não são propriedade de homem nenhum, as mulheres enquanto classe continuam a ser tratadas como um objeto e mercadoria, e a Anitta continua sendo um caso que passa na TV e as pessoas até acham divertido, “mas minha mulher não”.

      Não tem nada de errado com o que a Anitta faz, mas as pessoas precisam parar de dar conotações revolucionárias ao que não tem.

      Sinto muito que você não tenha gostado dos meus argumentos. Obrigada pela visita.

  • Responda
    Claudia Marcia
    15 de dezembro de 2016 at 12:12

    Oi. Concordo e entendo perfeitamente seu texto. Rebolar nossa bunda (que eu adoro, diga-se de passagem!) não nos empodera, apenas demonstra que nos sentimos livres e seguras de fazer algo que nos agrada, naquele momento.
    A bunda rebolante da Anitta não empodera ninguém, realmente, nem ela. Ela representa o lado extremamente comercial da música, feita única e exclusivamente para vender, seja a música, o artista, produtos vinculados a sua imagem e, até mesmo, uma ideia; como esta de que sendo sensuais e aparentemente livres, temos poder.
    O fato de uma mulher se permitir um comportamento mais ousado não significa que ela tenha poder, significa que ali, naquele momento, naquela situação, ela é dona e senhora de si e dispõe do próprio corpo da forma que lhe aprouver.
    Eu rebolo muito também, e adoro, mas isso não me dá PODER. Ainda tenho que conviver com uma sociedade patriarcal que olha para o meu rebolado e pensa “que puta! Rebolando assim é porque quer me dar” (homens); “que puta! Rebolando assim é porque quer dar para o MEU homem” (mulheres).
    Não confundamos MOMENTOS de poder sobre suas decisões com EMPODERAMENTO; essa palavra abrange muito mais do que a possibilidade de eu rebolar minha bunda onde e como eu queira sem ligar para os julgamentos e ações decorrentes de tal ação.

    • Responda
      Paloma
      15 de dezembro de 2016 at 13:07

      Exatamente isso, Claudia!

      Muito obrigada pelo comentário, foi exatamente o que eu tentei expressar no texto <3

  • Responda
    patricia
    15 de dezembro de 2016 at 17:46

    Vou aceitar meu feminismo sem essa porção extra de comunismo \ marxismo, obrigada. Não, não acho que o patriarcado seja causado pelo capitalismo, senão não teríamos registros das mesmas velhas opressões durante as mais diferentes eras da humanidade.

    Dito isso, é,até concordo que rebolar bem o rabo não é particularmente empoderador. Mas sabe, ainda não entendi essa parte em que um homem hétero em algum lugar de uma sala tendo fantasias sexuais com uma garota já é abuso, ou “nojento”. É que eu não vivo no mundo de minority report, e além disso, até onde eu sei, feminismo não é pra impedir um cara de sentir um tesão fodido por uma garota.

    É mais sobre ele parar de achar que a garota está ali só pra satisfazer as vontades dele – incluindo o tesão fodido.

    Esses atentados casuais contra a lógica e a razoabilidade fodem o rolê.

    • Responda
      DIANA
      11 de janeiro de 2017 at 17:56

      Caramba, Patricia, mandou muito BEM! O texto traz vários pontos para discussão e reflexão, mas alguns trechos – principalmente o finalzinho ali, na expressão de “nojo”, pegou pesado e não no sentido de “fodão”, mas no de desnecessário mesmo, estragando todo o resto, pq o texto só ganhava pontos, mas em determinado momento começou a roçar mais o chão do que a bunda rebolante 🙁 Faltou a releitura, acho, pra crítica interior mandar um “menos, bem menos”.

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    Julia
    16 de dezembro de 2016 at 01:21

    Olá Paloma, você escreve bem mas discordo de alguns pontos. Acredito que auto-estima e confiança são sim formas de emponderamento individuais que podem ser positivas para o coletivo, principalmente quando vindas de figuras públicas como a Anitta. Isto pois suas atitudes ousadas mostram a muitas mulheres, que nem sempre tem instrução ou simplesmente não são atingidas pelo discurso feminista, que o corpo delas é delas, que elas têm o direito de fazer o que quiser dele (seja alisar o cabelo ou assumir os cachos, fazer uma plástica no nariz ou diminuir os seios), que homem nenhum pode obrigá-las a nada, etc. Podem parecer conceitos básicos para mim e para você, mas infelizmente não são tão claros para todas. Bem ou mal, quando a Anitta sobe o palco e rebola toda poderosa, pode acreditar que várias mulheres que dizem não se identificar com o feminismo, a tomam como exemplo e passam a ter atitudes emponderadas sem nem perceber e que antes, sem esta figura de referência, talvez não tivessem.

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    Maira
    20 de dezembro de 2016 at 12:57

    bom gente, eu acho que o individual é um começo pra tudo, discordei muito desse texto, primeiro pq não vejo o ponto de detonar a luta das outras. pode ser que a anitta ou a valesca não ajudem NÓS manas brancas classe media a evoluirmos no feminismo, mas acho que pra mana da favela, as vezes numa relação abusiva e com menos contato com feminismo quando ouve a anitta falando num show: querido sou linda pra mim, homem nenhum manda em mim, vai catar coquinho… acho que é empoderador sim…. acho que a forma como ela vem se posicionando nos ultimos tempos mostra uma caminhada rumo a uma libertação.
    o padrão existe, toda sofremos por causa dele mas acho que querer segui-lo principalmente quando se é uma figura publica não é nenhum pecado pro feminismo… assim como respeito demais as manas que se depilam totalmente pq se sentem bonitas e confortaveis e nao sabem viver de outro jeito.
    criticar a rinoplastia da anitta é criticar a mana que se depila e não faço mais isso.
    inclusive a coisa da dança fico pensando: ou tudo é libertador ou nada é, o que faz vogue ou pole ou funk ser ou não libertador? é a experiencia que se cria ali.
    achei esse texto muito criticando uma mana que ta fazendo a diferença se nao nas nossas vidas de algumas minas que a admiram pq se identificam com algo e ela ta evoluindo.
    e acho que o empoderamento passa sim pelo individual.
    por exemplo, quando eu fazia muito ensaio nua e postava e tals, recebi varios inbox de minas falando q aquilo estava as inspirando a se libertarem mais e verem q não tem nada demais, e tals..
    acho que passar o batom vermelho é revolucionario pra algumas manas, o batom (o objeto mesmo) fez toda diferença na vida da minha mãe, que me criou e criou minha irmã como mulheres mais livres.
    acredito no batom vermelho e que grandes conquistas coletivas começam com pequenas individuais.
    e a aparencia da anitta não me importa pois 99% das minas feministas que conheço se depilam, então não acho q feminismo tem q passar por julgar o quanto cada uma ta tentando se aproximar do padrão..
    eita foi textão.

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    Talita
    21 de dezembro de 2016 at 01:42

    Oi flores. Muito bacana esses pontos distintos por aqui. Me senti muito tocada pelos comentários da Paloma, pois, por mais que hajam mulheres a conseguirem usar a liberdade alheia como inspiração p sua própria as exceções devem sim ser consideradas, e portanto, acabam por anular um posicionamento mais p um determinado lado como percebo que vcs tem tentado demonstrar. Me encaixo na situação de mulher da favela que já viveu relacionamento abusivo e não me sinto representada, tão pouco empoderada por essa liberdade que sempre me foi tão reprimida.. A hipersexualização da mulher na favela é muito enraizada e algo que me foi desde criança, nada além de um ” hábito coletivo”, forma de vestir, coisa e tal me serviu tbm de instrumento opressor nessas experiências abusivas. E desde então – tentando compartilhar apenas um olhar distinto – esse relacionamento durou dos 12-20 nunca pude dançar, me expor, fazer qualquer coisa por livre espontanea vontade. Cresci muito reprimida, uso minha história, digo p vcs, assisto mulheres com facilidade em se soltar, confiar, terem essa liberdade como um todo e minha dificuldade vai além, muito além. Conversas com outras mulheres, reuniões, discussões.. foi o que me permitiu superar muito. Acredito que o empoderamento para esses casos como o meu, vêm sim de gestos coletivos e não individuais. Espero ter colaborado p o raciocínio.
    Obrigada Paloma. Me senti uma minoria identificada. 💙

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    Felipe
    18 de janeiro de 2017 at 16:03

    Boa tarde!
    Venho para dizer apenas que gostei do texto, eeee…..
    Já comentei com amigas a respeito da questão do empoderamento, e as que parecem concordar com a visão como exposta pelo texto são aquelas que não gostam do funk como MÚSICA, independentemente de quaisquer outras questões estéticas atreladas (como o rebolar, ou alguma vinculação cultural). Outras, que gostam de funk, da batida, do ritmo, e da dança em si (seja lá por que motivos), dizem gostar da musica por essas razões e nada mais, o que me parece uma razão valida, mas quando se trata da mensagem passada por várias das letras, reiteram que essas não podem ser “levadas a sério”.
    Sim, eu sei que não estou falando de Anitta, mas do meio como um todo. Contudo, para mim, como homem (não sei quão relevante é essa determinante neste caso), qualquer música, ou estilo musical, que tenha aliados movimentos culturais merece alguma crítica mais do que a de uma qualquer motivação, como algo trivial que leva alguém a gostar ou não de uma música. Estou muito aquém de poder, a partir de minha posição, dizer acerca do que empodere ou não uma mulher subjetivamente. Porém, parece-me certo que objetivamente não há qualquer ganho de poder ou objetividade em destituir o argumento pelo empderamento de quaisquer bases fáticas; bases tais quais as que levaram a mulher à igualdade no sufrágio, ou de uma maneira geral, a uma posição social definitivamente melhor que a que ocupava há cinquenta anos atrás.
    Com isso, dizer-se empoderada através de um movimento cujas nuances e inuendos são tidos por aqueles que não apreciam sua estética como machistas, soa estranho, senão contraditório.
    Isso não se restringe ao funk como estilo, mas ao pop (afinal, pop é popular, e a maioria é machista), e ao hip hop, entre outros. Letras “gimme gimme I’m worth it”, ou que propõem que a graça da festa está em deixar o homem “babando”, não parecem alavancar qualquer causa senão aquela do ideário que lhes subjaz, qual seja o de um universo masculino em que o universo feminino apenas se encontra, onde esse acha origem e do qual não se dissocia.
    Talvez essas letras sejam reacionárias, e operem em função de um jogo de palavras o qual sempre existirá em prol de mensagens indiscretas e uma agenda sexual onde um dos dois sexos deve preponderar. Não obstante, se uma causa urge, não pode depender de uma representação tão afeita à subjetividade de um gosto, mas deve propugnar de si os valores pelos quais existe, e pelos quais continuará existindo ainda que contra a cultura predominante. Eu vejo funk (em geral) como essa cultura predominante, e não um baluarte do movimento feminista, ou uma vitória isolada de contra-cultura.
    Afinal, quando a “dança” é unilateral, e o outro lado ou “baba” ou “sarra”… não entendo como isso possa ajudar qualquer causa, a não ser que se admita que é fetichista e “ponto final”.
    Terminando, eu gostei do texto, e foi instrutivo ler os comentários.

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