MÚSICA

Animado e cruel: After Laughter, Paramore

Não há nada melhor do que uma boa gargalhada, todos eles dizem. Em lugares do país, pessoas chamam o ato de rir, rir muito, de gaitada. É uma expressão divertida para um ato mundano. Nada mais comum, contudo, é o estalo de voltar para realidade que vem após essas risadas. O esvair daquele momento acontece mais hora, menos hora. Às vezes, durante o processo e antes dele, tem gente que chora. Sim, chora de tanto rir. Mas o estalo vem. Você já passou por ele e, em After Laughter – o estalo de voltar para a realidade depois de uma boa gargalhada – o Paramore nos conta um pouco mais sobre isso.

Born and raised [nascido e criado] em Nashville, Tenessee, a criticada e adorada Paramore voltou ao mundo da música após quatro anos de seu último lançamento. Foi no que poderia ser um mês comum de um ano ordinário e particularmente turbulento – politicamente falando – que o aguardado novo álbum tomou lugar no mundo. After Laughter é o quinto álbum do Paramore e entre seus tons pastéis coloridos, ritmos animados e aura dançante, engana quem pensa se tratar de um álbum feliz. Não é. O atual trabalho da banda que, mais uma vez, aparece com uma nova configuração – sai Jeremy Davis, baixista, volta Zac Farro, baterista – é uma resposta meio-amarga para um período difícil da história do grupo, que quase pôs fim ao Paramore. De acordo com Hayley Williams, a eterna – erroneamente? – culpada por tudo o que aconteceu durante esses últimos anos e mais de uma década de trilha, a vontade de desistir a atingiu mais de uma vez, e o que restava entre os remanescentes de banda após mais um drama – o processo movido por Jeremy Davis em busca da compensação de royalties e turnê – era uma pesada sensação de vazio.

Foi aos poucos e lentamente que o Paramore combinou a experiência ruim com a experiência de crescer e condensou tudo o que há entre um e outro em um álbum sonoramente diferente, mas adorável. Diferente do que víamos lá atrás, agora nenhum dos atuais três integrantes nega que nem tudo é brilho, purpurina e unicórnios, muito pelo contrário, diga-se de passagem, e o primeiro single e faixa do álbum deixa isso muito aberto.

“Hard times, gonna make you wonder why you even try 
Hard times, gonna take you down and laugh when you cry” 

“Tempos difíceis, vão te fazer questionar por que você ainda tenta
Tempos difíceis, vão te derrubar e rir quando você chorar”

Despidos da fase rebelde, mais ainda da fase alegre, o Paramore agora fala o que realmente quer falar, não deixando para mais tarde o problema que há muito pode(ria) ser discutido. E as diversas entrevistas tanto da banda quanto da vocalista corroboram essa posição – mais madura e tanto quanto louvável. Em meio a uma vibe anos 80, presente na faixa “Rose-Colored Boy“, por exemplo, e o flerte com o indie pop, inabalável em todas as faixas do álbum, a época de bater cabelo, pular e gritar ficou pra trás, segundo o fiel guitarrista e companheiro de banda Taylor York, em uma entrevista para o New York Times. Na mesma maneira, ficou para trás o cabelo colorido da vocalista, uma de suas marcas registradas que, agora, tem lugar em um loiro platinado, marcado pela falta de cor.

Por mais de um motivo, a posição da banda (trio?) e o marketing ao redor do álbum abre espaço a um paralelo muito gostoso, e talvez intencional, que podemos traçar entre a forma a qual o álbum está sendo vendido – colorido, upbeat, dançável – e tudo o que o rodeia no âmago de suas letras: pessoas cansadas, que não sabem por que ainda tentam, mas, de alguma maneira, não conseguem desistir. Se isso é saudável, não podemos saber. Inegável, contudo, que há uma veracidade crua e identificável em todas essas confissões. As letras do After Laughter são realmente, acima de tudo, confissões. Entre ler entrevistas e apreciar o novo álbum, não vislumbramos apenas a mudança de caminho que o Paramore decidiu seguir, mas que tudo isso foi e está sendo feito por pessoas que passaram por tempos difíceis, especialmente ansiosos, e que têm os mesmos medos, pensamentos e anseios que muitos dos seus fãs.

Na terceira faixa do álbum e segundo single da banda, “Told You So”, uma mulher cansada canta para os seus ouvintes que o melhor já passou e o pior está por vir. A faixa é seguida por uma dobradinha espetacular, “Forgiveness” –  “you hurt me bad this time, no coming back, and i cried ’till i couldn’t cry, another heart attack” [você me machucou de verdade dessa vez, não tem volta, e eu choro até não aguentar mais, outro ataque cardíaco] […] “you want forgiveness, but I, I just can’t do it yet” [e você, você quer perdão, mas eu, eu simplesmente não consigo te perdoar ainda] – e “Fake Happy”, uma música sobre pessoas insinceras que sorriem para parecer feliz, ainda que não se sintam assim (já aconteceu com você?). Foi sentada em uma escada, no auge dos seus vinte e seis anos – hoje, a vocalista tem 28 – que Hayley Williams se obrigou a escrever um conselho ao seu eu mais jovem, e uma resposta à “Brick By Boring Brick“, do álbum Brand New Eyes: se lá a crítica era direcionada às pessoas que sonhavam sem ter o pé no chão, aqui a ideia é justamente a oposta – mantenha a esperança, não a deixe ir embora.

Pool“, por sua vez, é uma música sobre amor às avessas, um lado mais sombrio do sentimento, e é seguida por “Grudges“, canção da qual os fãs mais antigos conseguem, sem titubear, sentir se tratar sobre o(s?) Farro(s?). Em entrevista, Hayley deixa claro ser algo dedicado à sua amizade com Zac – “and if you wanna call me up or come over, come on, we’ll laugh ’till we cry, like we did when we were kids, ‘cause we can’t keep holding on to grudges” [e se você quiser me chamar ou passar por aqui, vamos lá, nós vamos rir até chorar, como fazíamos quando éramos crianças, porque não podemos continuar guardando rancor]. A primeira música do álbum a ser gravada, “Caught In The Middle”, é a jovem adulta do rolê, uma canção sobre pessoas perseguidas pelo passado e inquietas pelo futuro: essa grande incógnita aterrorizante que é crescer. Não poderia ser diferente, uma vez que Williams começou na banda quando tinha aproximadamente 15 anos e nos tempos atuais já beira os trinta.

“You’ll see you’re not the only one who’s hopeless 
Be sure to put your faith in something more
I’m just a girl and you’re not as alone as you feel
We all got problems, don’t we? 
We all need heroes, don’t we? 
But rest assured, there’s not a single person here who’s worthy” 

“Você verá que não é o único que está sem esperança
Certifique-se de colocar sua fé em algo mais
Sou apenas uma garota e você não está tão sozinho quanto se sente
Todos nós temos problemas, não temos?
Todos nós precisamos de heróis, não temos?
Mas tenha a certeza de que não há uma única pessoa aqui que é digna”

A antepenúltima música do álbum, “Idle Worship“, é divertida e uma caricatura sobre a cultura das celebridades e ídolos em geral. Com um trocadilho proposital entre idol e idle, o Paramore nos conta um pouco mais sobre o que é ter o peso da fama nos ombros, e como a idolatria nem sempre faz bem – afinal, “baby, I’m not your superhuman” [não sou sua superhumana]. Já “No Friends“, a penúltima do trabalho, a princípio navega sem sentido no álbum, sendo alvo de críticas. A música, que é mais um interlúdio em quase inaudível som, é nada mais do que uma confidência e a história da banda sendo contada em forma de poesia por Aaron Weiss, da banda MewithoutYou. “Tell Me How“, a canção que encerra After Laughter é, segundo a própria vocalista, uma mistura de todos os diferentes e pesados sentimentos que pairaram sob o ar durante a criação do álbum, em especial naquilo que tange perder pessoas e ter que começar tudo novamente.

After Laughter é o mais rico álbum do Paramore, liricamente falando. A parceria entre York e Williams está mais solidificada, está melhor. Nas entrelinhas das músicas tira-se uma ideia muito real, palatável e crua de que a banda já não é mais a mesma: ela está mais velha, mais cansada, e estupidamente mais madura. Nada disso, no entanto, a tornou ruim, e sim muito mais intimista. Entre fóruns e notícias, as críticas direcionadas ao novo caminho escolhido pelo Paramore tendem a ser, num apanhado geral, mais positivas do que o contrário. Também pudera: após quatro anos de espera, a banda ressurgiu das cinzas, jogando tudo o que há de melhor e pior em uma mesma receita, saindo como produto um álbum que agracia os fãs de longa data – com suas letras – e fisga novos fãs – com a sonoridade. Se você ainda não ouviu, ouça. Está impecável, bem daquele jeitinho que o Paramore é acostumado a fazer.

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1 Comentário

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    Thaís
    7 de junho de 2017 at 17:38

    Olha, sou uma grande fã da banda e tenho sentimentos conflitantes sobre esse novo álbum. Ao mesmo tempo que eu acho ótimo que eles amadureceram e escreveram um álbum honesto sobre sentimentos tão angustiantes, com o qual é muito fácil se identificar, por outro lado fico triste por saber que (provavelmente) nunca mais veremos aquele Paramore vibrante do Riot. A qualidade continua alta, mas a mudança de ritmo, temas e visuais dá um aperto no coração.

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