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Ana Bolena: de rainha protestante a bruxa usurpadora

O Malleus Maleficarum (ou O Martelo das Feiticeiras), publicado originalmente em 1487 por dois padres alemães, por cerca de quatrocentos anos foi o manual oficial de caça e execução de bruxas na Europa. De acordo com ele, os sinais de que uma mulher praticava bruxaria eram ela ter qualquer deformidade física, verrugas, possuir um gato preto, nascer em fevereiro, ser ruiva, não ser capaz de ter filhos ou que seu marido tivesse impotência sexual. Baseados em sinais que nada significavam, os inquisidores levaram à fogueira mais de duzentas mil mulheres durante séculos.

Ana Bolena, a segunda esposa do rei Henrique VIII, não morreu nas chamas ou foi julgada de acordo com as regras da Inquisição, mas quase. Tendo sido criada na corte francesa, Ana desde cedo teve acesso a uma educação muito mais abrangente do que as meninas inglesas da época. Ela foi criada para ser ambiciosa, determinada e astuta, mas não para ser bruxa. Entretanto, isso não impediu Henrique VIII de acusá-la de tê-lo enfeitiçado quando ela não lhe deu o filho que tanto queria, num episódio que marcou o destino de Ana, ao sofrer um aborto espontâneo de um feto com deformações físicas em 1536 – tendo sido mãe apenas de uma menina, a que futuramente se tornaria Elizabeth I, rainha da Inglaterra.

Uma acusação dessas pode parecer pouco agora mas, na época, além do fato de a palavra de um rei – ainda mais um que rompeu com a Igreja Católica e tornou-se não apenas soberano absoluto, mas o representante de Deus na Terra – ter peso incontestável, uma acusação de bruxaria era levada muito a sério. Henrique afirmou que havia sido “seduzido e forçado em seu segundo casamento por meio de sortilégios e feitiços”. Era a Inglaterra do século XVI, afinal de contas, e a caça às bruxas já era uma realidade, não tão forte ali quanto seria alguns anos depois, mas certamente forte o suficiente para acabar com a vida de uma mulher. E Ana não era qualquer mulher: ela era a responsável pela separação do país com o catolicismo, pela terrível perseguição que os católicos fiéis sofreram (muitos tendo tido mortes na fogueira, inclusive) e pela implementação de uma nova forma de fé, o protestantismo. A forma mais fácil e eficiente de interromper a trajetória de uma mulher era acusá-la de feitiçaria.

Se Ana realmente tinha a intenção de influenciar Henrique VIII é algo de que não sabemos ao certo. O que se sabe é que seu pai e seu tio incentivaram o flerte que Henrique infligiu a Ana durante os anos em que ela foi dama de companhia na corte inglesa para que ela virasse rainha, destronando Catarina de Aragão, a rainha católica, e fazendo Henrique retirar o poder do Papa e acabar com a corrupção da Igreja no local – enchendo os bolsos de seus nobres com títulos e concentração de poder, claro. Mas teria Ana sido uma verdadeira protestante, manipulando o rei para conseguir modificar a situação do país, ou apenas uma jovem muito bem educada que era fantoche de sua ambiciosa família? Essa pergunta fica no ar até hoje, porém o fato é que tendo ela sido essa mulher manipuladora ou um fantoche político, a figura de poder que ela representava foi temida a ponto de ela ter diversos inimigos que conspiraram para que fosse deposta e executada. Como escreveu Jane Dunn, autora do livro Elizabeth e Mary: Primas, Rivais, Rainhas:

Era na área do sexo que mais se temiam e condenavam as atividades das bruxas. Uma bruxa era representada como a personificação das qualidades invertidas da condição feminina: enquanto as mulheres normais eram mais fracas que os homens e submissas, as feiticeiras eram duronas, com acesso ao poder proibido; enquanto as mulheres eram passivas sexuais, as bruxas eram vorazes em seus apetites e depravadas. Elas tinham conhecimento exclusivo de receitas para afrodisíacos e podiam fazer homens se apaixonarem perdidamente pelas mais improváveis mulheres – até pelas cercadas de trevas como elas próprias.

Isso é bem mostrado na série The Tudors: Ana foi condenada não por atos de feitiçaria, apesar dos rumores que circulavam pelo palácio acerca de sua natureza maligna, mas por ser uma mulher com poder. Mulheres submissas eram o esperado à época e Ana rompeu com isso, sendo quem queria ser e falando livremente a respeito de política e religião. A rainha, antes apenas delegada ao posto de parideira do herdeiro ao trono, agora também era uma figura ativa que opinava acerca dos acontecimentos e conseguia fazer com que o todo poderoso rei da Inglaterra lhe ouvisse (a uma mulher!) e modificasse as coisas conforme seus desejos.

A série, no entanto, presta um desserviço histórico ao mostrar Ana (Natalie Dormer) como uma mulher maquiavélica, lhe concedendo até mesmo uma trilha sonora de vilã e conversas que provavelmente não aconteceram em que ela trama contra Henrique VIII (Jonathan Rhys Meyers). Se Ana é vilã, então todos os homens apresentados também deveriam sê-lo – inclusive o bom moço da série, Charles Brandon, Duque de Suffolk (Henry Cavill), que espalhou o boato mentiroso de que Ana traía o rei com diversos homens, incluindo seu próprio irmão (lembrando que relações incestuosas também eram consideradas uma característica das feiticeiras, que supostamente adquiriam seu poder através do sexo com Satanás e manipulariam os homens com seus encantos na cama). Mas Charles Brandon teve um final relativamente feliz, morrendo de uma doença comum e já velho, enquanto Ana foi decapitada na frente de todos com a reputação de bruxa usurpadora, traidora do rei e prostituta.

A acusação de que Ana teria um sexto dedo que escondia e verrugas pelo corpo também foi colocada na série, que parece ter se esforçado para corroborar com a mentira da feitiçaria usada para tirá-la do poder. A série, criada por Michael Hirst, é um show de misoginia e favoritismo aos homens, que sempre são perdoados, ainda que decapitem suas esposas. No entanto, a lição é transmitida: ao ver a história de sua mãe, decapitada por ser uma mulher poderosa, e de suas madrastas, que tiveram destinos tão ruins quanto, Elizabeth Tudor (Laoise Murray), filha de Ana Bolena e futura rainha da Inglaterra, decide que nunca se casará e cumpre a promessa, reinando sozinha e jamais deixando um homem ter mais poder do que ela.

Seja como for, a escolha de Hirst em apresentar Ana de acordo com os boatos que foram espalhados sobre ela e vilanizar a personagem histórica é uma escolha política. A história da rainha decapitada por seu marido já é suficientemente trágica e desperta a atenção sem o falso rumor da feitiçaria. Não era necessário incutir na trama essa abordagem.

Esse mito da bruxa Ana Bolena se espalhou tão fortemente na cultura pop que temos dois exemplos conhecidos e bem acessíveis ao público: o retrato de Ana que aparece nas paredes de Hogwarts em um dos filmes da saga Harry Potter, assim como a origem de Lasher, o demônio que supostamente teria sido o feto abortado por Ana em 1536. Ainda que a representação de Ana seja a de uma bruxa nesses dois exemplos, ambos não a vilanizam da forma como a série o faz – talvez por eles terem a visão de uma mulher na criação das histórias – J.K. Rowling e Anne Rice, respectivamente –, e não a de um homem, como ocorre em The Tudors.

Mesmo que a acusação de bruxaria seja infundada, ela poderia ser popularmente chamada de bruxa (no sentido pejorativo de mulher má) por supostamente ter manipulado uma corte inteira. A série nos leva a ter ora pena, ora desprezo por Henrique, mas por Ana os recursos audiovisuais são utilizados para adensar a vilania de sua personalidade. Um homem nunca seria retratado assim na trama. Mas uma bruxa é isto: uma mulher poderosa e ambiciosa, características tão elogiadas em homens, mas proibidas em mulheres.

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