CINEMA

Abracadabra: a relação entre a mulher e jovialidade imposta pela sociedade

Uma coisa é certa: é impossível pensar no mês de outubro e não lembrar de abóboras, morcegos, chapéus pontudos e todo aquele misticismo que o Dia das Bruxas carrega consigo. Bruxas (cadê minha carta de Hogwarts?) são figuras do imaginário popular que podem ser interpretadas de maneiras diferentes conforme a cultura em que seu mito está inserido, assim como a referência que se tem desse tipo de figura. Em algumas culturas, as bruxas são apontadas como mulheres muito sábias com conhecimentos sobre a natureza, o funcionamento de determinadas ervas e a cura de certas doenças. De geração para geração, elas transmitiam seus conhecimentos para outras mulheres de maneira a propagar aquilo que sabiam. Não é a toa que muitas dessas mulheres foram condenadas à morte simplesmente por pregarem um tipo de conhecimento contrário ao professado pela fé da Igreja Católica – é só lembrar do sombrio e tenebroso período da Inquisição e as provações terríveis pelas quais essas “bruxas” tiveram que passar. 

Muito da referência que se tem da literatura diz que bruxas também eram aquelas que usavam de seus ditos poderes para se vingar de quem ia contra elas – mas tudo isso faz parte do mito que as cerca, demonizando-as. Desde sempre mulheres sofrem simplesmente por serem mulheres, mas some-se a isso o fato de que elas possuíam um conhecimento avançado para entrarem na mira da sociedade patriarcal em que estavam inseridas. O fato de elas terem a coragem necessária para falar sobre o que sabiam e, principalmente, ajudar quem precisava, só chamou ainda mais atenção para essas práticas. “Bruxas” eram as mulheres que praticavam medicina, que sabiam ler e escrever sem ter precisado de um tutor da igreja, mulheres que já sobreviviam. Mas como tudo que é diferente causa estranhamento, a forma de intimidar a presença dessas praticantes era fazê-las passar pelos horrores da Inquisição, por torturas indescritíveis, para que confessassem sua relação com a chamada “magia negra”.

E como tantas personagens que conhecemos até hoje conseguiram sobreviver por mais tempo? Não revelando seu real conhecimento, não mostrando que sabiam falar idiomas diferentes e se retirando das grandes cidades e vivendo nos arredores das aldeias, cultivando para si essa cultura de que bruxas são aquelas mulheres fora dos padrões e que vivem em meio a natureza. A partir disso surgiram infinitas histórias, contos de fadas e lendas sobre a presença de bruxas em diferentes lugares do mundo. Como essas mulheres tinham conhecimento da natureza, conseguiam se manter jovens e o fato de crianças se perderem na floresta “casava” com o fato de elas estarem nesses lugares. Ou seja, elas eram as responsáveis pelo desaparecimento de tantos pequenos que apenas não acharam o caminho de volta. Mais uma razão encontrada pelas “pessoas de bem” para expurgar quem faz tanto mal.

A busca pela jovialidade eterna, desejo presente nessas mulheres inseridas no mito da bruxaria, também já vem da construção social dos meios em que vivemos desde sempre. A busca por ser eternamente bela e jovem serve de mote para inúmeras histórias que nos são contadas em diversos meios da cultura pop – seja a Madrasta em A Branca de Neve, que tem medo de ser subjugada pela princesa mais jovem, ou a trama de American Horror Story: Coven, envolvendo a Suprema (interpretada por Jessica Lange) e suas jovens bruxas tuteladas; Fiona, a citada bruxa Suprema, é obcecada pela juventude e ignora todos os sinais de envelhecimento de seu corpo. Um dos seus poderes (mais usados, por sinal) é a drenagem da vida de suas vítimas que é, literalmente, absorver a jovialidade, juventude e força de viver dessas pessoas. Fiona é muito vaidosa e encontrou no elixir de vida nova uma maneira de ser eternamente jovem – matando suas vítimas para manter sua juventude, a Suprema assegura que ninguém tome seu posto como bruxa mais poderosa do coven, posição que ela mantêm há 300.

Essa busca pela juventude, na verdade, transcende o aspecto da beleza. O pensamento de que todas as mulheres devem ser as mais bonitas, as mais sensuais, gera a crença de que, dessa forma, será possível se destacar no meio das outras mulheres. Esse tipo de pensamento é um gatilho que faz girar todo um mercado capitalista focado em vender mais cremes, em comercializar milagres de beleza, roupas que te deixam mais nova, e assim por diante. Notamos que cada dia mais o relógio está contra a mulher: as mais novas querem acelerar seus dias de menina para se tornarem mulheres mais cedo, enquanto as mais experientes querem que esse tic-tac pare para que possam continuar no “jogo”. Isso também vem muito do que se pensava (antes do feminismo entrar em pauta) sobre concorrência de atenção e também sobre não poder mostrar que a nossa opinião é muito mais importante do que o nosso look do dia. A publicidade nos leva a pensar que chamar a atenção pelo corte de cabelo e a falta de rugas é mais importante do que pelas nossas ideias, o que nos faz refém de um pensamento retrógrado.

São várias as tramas que se desenvolvem ao redor de brigas entre mulheres por conta desse conceito de que apenas as jovens são valorizadas, algo tão reforçado por nossa sociedade que diz que a mulher só presta se estiver em condições de dar bons filhos ao marido, que mulheres que “passem da idade” não conseguirão um casamento e que quanto mais jovem uma mulher, melhor. Quantos são os filmes, livros e histórias em que as bruxas precisam da alma de criancinhas pra se sentir mais jovens? O meu favorito (e o mais cheio de significado) é o Abracadabra, produção do início da década de 1990. Chamado em inglês de Hocus Pocus, que é a tradução literal do feitiço Abracadabra, é um filme de 1993 produzido pela Disney. A história tem dois momentos, de quando conhecemos as Irmãs Sanderson, três bruxas muito peculiares que foram sentenciadas à morte pelo assassinato de Emily e pelo desaparecimento de Binx; e 300 anos depois, quando são chamadas da morte por meio de um feitiço de Dia das Bruxas.

Winnie (Bette Midler), Mary (Kathy Najimy) e Sarah (Sarah Jessica Parker) são as típicas bruxas dos contos de fadas, donas de uma casa cheia de rabos de lagartixas pendurados, pelos de rato e um livro que tem um olho que tudo vê. Como toda mulher que sabe demais, elas não eram bem vistas no povoado de Salém e foram acusadas pelo desaparecimento de uma jovem da aldeia. Condenadas à forca, elas lançam um feitiço que faz com que a vela de chama negra que está em sua casa seja o portal de volta delas, independente de quando isso acontecer. Nesse meio tempo, o irmão da jovem assassinada, Binx (Jason Marsden), foi transformado em um gato preto por ter atrapalhado os planos das bruxas. Só que, 300 anos depois, um rapaz chamado Max (Omri Katzencontra a casa das bruxas e junto com sua irmã Dani (Thora Birche sua colega Allisson (Vinessa Shaw), acendem a tal vela que trará as Irmãs Sanderson de volta. Quando as irmãs voltam a vida, não entendem o tempo que passou e, portanto, acreditam que ainda têm poderes e que todos os personagens do Dia das Bruxas são reais. (Nota para a melhor parte do filme quando elas saem pros Doces ou Travessuras e encontram um cara vestido de Diabo e o chamam de Mestre acreditando ser o verdadeiro demônio).

Quando as bruxas estão vivas e sedentas por jovialidade, usam sua voz feminina e sedutora para chamar criancinhas até sua casa (essa mesma voz que acalma o bebê quando chora, a voz de mãe que é classificada como uma armadilha pro filho até na hora de levar bronca). Lá, querem usar suas almas para poderem se tornar imortais. Para essas três mulheres, sugar uma alma jovem as faz se sentir mais ativas, mais poderosas e consequentemente, mais bonitas. A juventude, nesse caso, traz diferentes significações para as bruxas: é a chave para uma vida eterna de muito poder, de muito conhecimento e práticas de feitiçaria; é uma armadilha em formato de sedução para se infiltrar em famílias com criancinhas, que garantem mais vitalidade à elas; é através de sua beleza que conseguem a confiança dos pequenos e jovens da sua aldeia, afinal, como não se sentir seguro com uma mulher muito bonita? Que mal o bonito pode trazer à elas – o que já nos leva ao pensamento incutido pela sociedade de que o feio é do mal, é diferente, é ruim; é um disfarce para sua real vida de devoção a algo que a sociedade não aceitava na época; é a garantia de sobrevivência delas, seja como bruxas e também como mulheres.

É aqui que voltamos à antiga relação que conhecemos entre a busca de elementos que deixem a mulher mais jovem e longe de ser trocada por uma versão de menos anos. Isso está tão gravado na cultura e na construção social que dá pra se assustar de quão antiga essa mentalidade machista é. Muito parecido com o que ainda se discute sobre o homem grisalho ser charmoso e a mulher com cabelos brancos ser desleixada.

A relação que se constrói desde a criação da menina até virar mulher, de sempre ser sedutora, de sempre conquistar, de não falar demais, de não ser você mesma está inserida na sociedade muito antes da gente pensar na problemática que tudo isso tem. E toda e qualquer mulher que for contra isso é “bruxa” no olhar da sociedade. Já parou pra pensar como a palavra “bruxa” é usada como um insulto? Como se ser isso ou aquilo fosse algo ruim? E como fomos condicionados a pensar assim devida a cultura incutida em nossas vidas através dos contos de fadas e lendas? E as bruxas boas? E as Hermiones, Minervas, Tonks, Sabrinas, Samanthas, Wiccas e Winks, além de tantas outras em diferentes realidades criativas? Qual o papel delas nessa relação? Sabe-se que elas buscam conhecimento, soluções, usam do coração para resolver problemas e, principalmente, batem o pé para serem elas mesmas sempre – se isso é o que significa ser uma bruxa, então sejamos todas bruxas.

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