CINEMA

Crítica: A Torre Negra

Muito antes de ser anunciada como adaptação cinematográfica, A Torre Negra já era uma história de sucesso: iniciada em meados da década de 70, quando Stephen King ainda estava na faculdade, a série de livros homônima teve seu primeiro volume publicado em 1982, após a história ser dividida em cinco partes e publicada anteriormente em uma revista, entre os anos de 1973 e 1981. Foram mais de trinta anos até que a saga fosse concluída, tempo mais do que suficiente para conquistar uma legião de fãs – muitos dos quais consideram a obra o magnum opus do autor –, mas também para que muita História (essa, com “h” maiúsculo) acontecesse, transformando o mundo em que vivemos de formas que, até alguns anos atrás, pareciam inimagináveis.

Para o bem ou para o mal, essas mudanças transformaram a sociedade e nos afastaram do cenário de origem da saga. Mas será mesmo? A ideia de uma Torre – física e metafórica – capaz de proteger a humanidade contra forças malignas nunca pareceu tão necessária: vivemos um momento de mudanças intensas, onde questões antes dadas como resolvidas voltam a nos assombrar e o ódio parece pautar grande parte das discussões que realmente importam; vivemos em uma sociedade machista, homofóbica, racista e preconceituosa, e esses são discursos que ganham cada vez mais força, fazendo com que nossas certezas caíam por terra e o futuro assuma contornos ainda mais assustadores. Contar uma história sobre proteger a humanidade das trevas e assegurar a existência da luz em um universo tomado de cinismo e desesperança nesse momento específico da História não parece uma escolha casual – e, de fato, não é.

Nikolaj Arcel, diretor do filme, também é um grande fã do universo criado por King, e possui, em alguma instância, a consciência de que existem mais nuances nessa história do que fica evidente em um primeiro momento; não se trata apenas da clássica disputa entre bem e mal em um mundo deslocado da nossa própria realidade. De forma brilhante, Stephen King une referências como as obras de J.R.R. Tolkien, westerns e as lendas do Rei Arthur, e cria algo inteiramente novo, que comunica coisas muito mais profundas do que aquilo que é possível ver na superfície. Assim, ao transferir a história para a tela do cinema, Nikolaj não tem a pretensão de reproduzir literalmente os fatos da narrativa de King, muito menos comunicar tudo aquilo que fica implícito em seu trabalho, mas utilizar aquele universo e aqueles personagens na construção de uma jornada mais ou menos nova que, embora referencie a obra original, não se torna refém dela. O que faz bastante sentido: seria impossível condensar tanto material num único filme de forma coerente, afinal. O projeto do filme, aliás, não nasceu como uma produção isolada, mas como o pontapé inicial de todo um universo audiovisual, que desmembraria a saga de livros tanto no cinema quanto na televisão; um projeto ambicioso para uma história igualmente ambiciosa.

Nesse primeiro momento somos, então, apresentados ao jovem Jake Chambers (Tom Taylor), um problemático adolescente de catorze anos que passa a ser atormentado por sonhos e visões desde que perdeu o pai, vítima de um incêndio. Aos olhos do mundo, Jake é apenas um garoto em luto, estranho demais para o próprio bem, que sofre bullying e arruma confusão na escola, e precisa desesperadamente de atenção e cuidado especializado – o que não deixa de ser verdade, embora não seja a única verdade. Existe mais sobre aquelas visões e aqueles sonhos, mais até do que o próprio Jake imagina; mas não é uma tarefa complexa desacreditá-lo. Parece improvável que seus desenhos sejam o retrato de uma realidade alternativa – mas ainda uma realidade – em que tantos universos coexistem em diferentes dimensões, influenciando uns aos outros de maneira mais ou menos direta, e menos ainda que o mundo que conhecemos seja protegido por uma imensa torre, que só pode ser destruída pela mente de uma criança; as mesmas que, ironicamente, dizemos ser o futuro do mundo, mas insistimos em jamais levar tão a sério assim.

Atenção: o texto contém spoilers!

Com sorte, Jake tem o apoio da mãe, Laurie (Katheryn Winnick), uma mulher bondosa e compreensiva, que jamais confina o filho à ingrata posição de garoto problema, mas se esforça para entender a natureza dos seus conflitos e a suprir a ausência da figura paterna numa tentativa de fazê-lo feliz. Laurie se equilibra à rotina de mulher, mãe e esposa – ou namorada, é difícil saber –, em uma jornada tripla, talvez quádrupla (mais uma vez, é difícil saber) que eventualmente faz suas vítimas. Quando é contatada por uma clínica especializada no tratamento de crianças com transtornos psicológicos, Laurie não enxerga a estranheza da situação, mas visualiza na oferta uma chance de ver o filho, finalmente, bem. Só mais tarde descobrimos que fazê-lo a enche de culpa, sobretudo após a fuga de Jake, que desaparece sem deixar rastros; contudo, naquele momento, Laurie era tão somente um ser humano que viu uma luz após tanto tempo no escuro e se deixou levar pela perspectiva de um futuro melhor para si mesma e para Jake. Assim, enquanto o garoto se aventura em um universo paralelo, na tentativa de salvar a humanidade de uma ameaça que ela sequer sabe que existe, Laurie busca o filho incansavelmente e se corrói em culpa até o dia que sua conta é cobrada; e ela é cara, muito cara.

É preciso uma motivação para que Jake compreenda que sua jornada não é apenas uma aventura infantil por um universo paralelo, tampouco uma brincadeira sem qualquer tipo de consequência, mas que, tal qual uma reação de causa e consequência, os acontecimentos de uma dimensão inevitavelmente ressoam na outra. Ao fugir de casa, Jake descobre a localização da casa misteriosa que habita seus sonhos e é transportado para uma dimensão paralela, onde conhece Roland, o Pistoleiro (Idris Elba), um homem amargurado que busca vingança pela morte do pai, assassinado pelo Homem de Preto (Matthew McConaughey), o grande vilão da narrativa – em uma clara referência aos filmes de faroeste, ou westerns, que utilizavam a dicotomia entre preto e branco como forma de identificar mocinhos e vilões. Jake, por sua vez, é o garoto cinza, que pode ser, ao mesmo tempo, a salvação e a ruína da Torre. No entanto, é só quando retorna ao mundo comum e descobre o que aconteceu com sua mãe que ele passa a assumir um papel mais ativo na narrativa; menos de garoto em fuga, mais como agente da ação. Em uma história que não é tanto sobre o garoto quanto é sobre Roland e sua jornada de vingança, a trágica perda da figura materna é o que os une, ainda que de modo bastante questionável: de repente, tanto Roland quanto Jake possuem motivos pessoais para se engajar de forma ativa num drama que, até então, parecera tão impessoal; porque salvar a humanidade e tornar-se herói parece muito bacana na teoria, mas não na prática. 

Não deixa de ser uma ironia: se a figura do Pistoleiro é, em grande parte, uma espécie de herói destinado a proteger a Torre – logo, a humanidade – de todo e qualquer mal, vingar-se parece uma razão bem menos nobre pelo qual lutar. Roland é confrontado com essa incoerência quando, em busca de uma vidente capaz de compreender as visões de Jake, vai parar em um pequeno vilarejo, onde todos os moradores lembram, até bem demais, de um tempo em que os pistoleiros protegiam a Torre Negra e um mundo de sombras não parecia tão próximo da realidade. Ninguém, definitivamente, viu aquilo vindo.  

Como Walter, o Homem de Preto, chegou onde chegou é uma questão que fica sem resposta; como tantas outras, que não são exploradas num espaço de tempo tão curto, sobretudo para uma história tão complexa. Grande parte dos acontecimentos de A Torre Negra se desenvolvem sem qualquer explicação, e tanto as relações desenvolvidas pelos personagens quanto a mitologia que permeia o universo diegético no qual a história se desenvolve são deixadas de lado em prol… de quê exatamente? Ação? Aventura? Demônios que surgem do absoluto nada? Na tentativa de remediar o irremediável, o filme recorre às visões de Jake, e são elas que percorrem o passado, de modo a explicar o presente; mas esse é um quebra-cabeças falho e tão cheio de buracos que a missão logo se torna um fracasso. Nem mesmo as habilidades de Jake são realmente explicadas; tudo se baseia em suposições que jamais são negadas, menos ainda confirmadas, e não há nada, absolutamente nada, que o diferencie das outras crianças retiradas do seio familiar para destruírem a Torre. Ainda em sua primeira visão, Jake sonha com a suposta clínica onde crianças correm no gramado e brincam num gira-gira (esse último, uma imagem recorrente na história), enquanto adolescente dão as mãos e flertam uns com os outros, de modo tão natural quanto em qualquer lugar; exceto que há algo muito errado ali. Logo fica claro que não existe nada de banal naquelas crianças, e elas são muitas.

Na ficção, existe um termo bastante comum, chamado deus ex machina, que refere-se à soluções mirabolantes dentro de uma narrativa ficcional, que surgem do nada com o único objetivo de resolver uma história, ainda que de forma cabeluda. O termo surgiu no teatro grego clássico, quando literalmente uma espécie de deus baixava ao final das peças para solucionar conflitos e concluir a história. O grande problema nesse recurso reside no fato de que, uma vez utilizado, ele expõe a fragilidade narrativa de uma história e, consequentemente, a falta de controle do autor sobre sua obra. Stephen King não tem esse problema; Nikolaj Arcel e seu time (!) de roteiristas sim. A mente de uma criança teria feito um trabalho infinitamente melhor.

O que não deixa de ser uma pena. A Torre Negra talvez não seja o pior filme do ano – isso, sem dúvida, ele não é –, mas não deixa de ser uma pena que, em uma história tão rica e repleta de possibilidades, tão pouco seja realmente dito. Vivemos um momento em que nunca antes foi tão importante que a produção cultural comunicasse, antes de ser apenas entretenimento, e em uma história em que um mundo de possibilidades implora de joelhos para ser explorado, parece desperdício que tanto seja deixado de lado. Em alguns momentos do filme, Roland recita o que chama de Credo do Pistoleiro, que repete, entre outras coisas, que quem mira com a mão, atira com a mão e mata com a arma, esquece-se do rosto do próprio pai. Nikolaj Arcel muito provavelmente não atira de modo algum, quem dirá matar alguém, e é bem pouco provável que tenha esquecido o rosto do próprio pai; esquecendo-se de outro ponto no lugar: a essência da história que buscava contar.

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