LITERATURA

A Rainha de Tearling: A história além de “uma garota exilada com uma coroa falsa”

Quando retorna para a Inglaterra, imediatamente após a morte do pai, o Rei George VI (Jared Harris), a outrora princesa Elizabeth (Claire Foy) é confrontada pela experiência dupla do luto: primeiro, pela perda do pai; depois, pela morte da mulher que fora um dia, Elizabeth Mountbatten, mãe e esposa, em detrimento da monarca, Elizabeth Regina. Quem inicialmente lhe chama a atenção para esse fato é sua avó, Rainha Mary (Eileen Atkins), em uma carta entregue nas mãos da neta, ainda no avião. A cena é a primeira, mas não a última, a tomar como foco a relação entre mulher versus monarca, que vai percorrer, de maneiras diferentes, ambas as temporadas de The Crown. A mensagem, no entanto, continua a mesma: a de que ser mulher é difícil, e é potencialmente mais difícil se você for uma mulher em posição de poder.

Ao longo dos episódios, Peter Morgan, criador e principal roteirista, estabelece conflitos em diferentes âmbitos que, de forma direta ou indireta, se relacionam à Coroa – o casamento problemático e em constante crise com Philip (Matt Smith) e a relação conturbada com a irmã mais nova, Margaret (Vanessa Kirby), saltam aos olhos, mas a série vai mais fundo em explorar questões e incômodos mais íntimos da protagonista, como o fato de ela nunca se sentir suficiente para o cargo ou não ser tão bonita e simpática, e ter de lidar constantemente com pessoas que acreditam que podem exercer o papel dela de forma mais adequada, ou por não poder ter opiniões e preferências pessoais – ao menos não publicamente. Morgan parece bastante consciente dos desafios e angústias de sua personagem, expondo com honestidade cada um desses traços, mas não é o único a delinear uma personagem baseada em uma figura real em tamanha dimensão. Daisy Goodwin faz algo muito parecido em Victoria, que vai acompanhar os anos iniciais do reinado da Rainha Victoria (Jenna Coleman). Em comparação, a série parece menos preocupada com fidelidade histórica e toma algumas liberdades, ainda que retrate com competência os conflitos e sentimentos de uma mulher que tenta, sem muito sucesso, equilibrar os papéis de mãe, amiga, esposa, filha, mulher e rainha. 

Embora parta de uma premissa bastante distinta – a de um futuro distópico e indiscutivelmente retrógrado, em que monarquias voltam a ser regra, não exceção – a narrativa de A Rainha de Tearling dialoga intimamente com a trajetória de outras figuras femininas da realeza, históricas ou não, retratadas em diferentes obras de ficção, preocupando-se primeiro em estabelecer a protagonista, Kelsea Glynn, e suas dificuldades com o papel que precisa exercer, para só então explorar questões mais práticas, como o fim do controle britânico no Egito, no caso de Elizabeth; a manutenção de sua permanência no trono e a crise na Irlanda, no de Victoria; e a precariedade do reino de Tearling, no de Glynn. No capítulo de abertura, prestes a iniciar sua viagem rumo ao novo lar, Kelsea tenta dizer em voz alta aquilo que se tornaria – rainha –, falhando miseravelmente em seguida. O fato de não conseguir, entretanto, jamais é visto como um sinal de fraqueza, mas nivela o peso do significado do seu nome e também de sua posição. Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades.

“Tenho dezenove anos. Eu não deveria mais sentir medo.
Mas sentia.” 

Quando foi criado por William Tear, Tearling era a realização de um sonho socialista e de esperança idealizada, um lugar de terras abundantes, onde William construiria uma sociedade regida por princípios de igualdade e cooperação, de direitos e oportunidades equivalentes para todos. A pouca sorte de britânicos e americanos na escolha do ponto de desembarque após a Travessia (evento apenas pincelado neste primeiro volume, que sugere uma sucessão de catástrofes – se naturais ou humanas, é difícil saber – que levaram ao fim do mundo como conhecemos), no entanto, se prova um obstáculo determinante para a sobrevivência do reino e, principalmente, para o sonho utópico de Tear, que não consegue tampouco suprir as necessidades mais básicas de seu povo sem recorrer ao reino vizinho, Nova Europa. Mesmo aquilo que nos parece banal, como o acesso à medicina e a certas tecnologias, se tornaram artigos e serviços extraordinários em Tearling – seja pelo alto valor de mercado, seja pelas proibições impostas por lei –, que sobrevive de forma precária e às custas do próprio povo.

Quase três séculos mais tarde, igualdade e cooperação tornam-se dois conceitos ultrapassados, que escapam à verdadeira realidade do reino e ficam cada vez mais distantes do sonho idealizado por Tear. Pelo contrário, ele não pode ser considerado nem mesmo a sombra do que deveria ter sido, uma mera lembrança de um futuro jamais alcançado. O livro faz um rápido, mas eficiente, panorama pela História de Tearling, que vai desde trechos de antigas obras fictícias inseridos no início de cada capítulo, até poemas e contos que são passados de geração em geração. Em conjunto, as informações constroem um passado fundamental para a então compreensão do presente, e fica evidente como a possibilidade de um futuro menos trágico e corrompido parece incerta em vista de problemas estruturais tão maiores em comparação. Quando aborda questões como desigualdade social, política, fome e servidão, Erika Johansen, a autora, possibilita um olhar que vai além da ficção, mas recai, em alguma medida, sobre questões que existem aqui e agora. Questionada sobre o por quê de uma história que leva a humanidade atual a um futuro tão retrógrado, tecnológica e socialmente, seu argumento é o de que, via de regra, o ser humano teria regredido em vários momentos ao longo da História se não houvesse alguém para vigiar e assegurar que não caminhássemos para trás. Direitos, empatia e consideração pelo próximo, ela diz, dificilmente são aspectos inatos ao ser humano, de modo que é preciso que alguém guie, ensine e passe esses ensinamentos adiante, assegurando sua existência geração após geração.

Como em outras distopias, Johansen constrói sua narrativa não como algo completamente deslocado da realidade, mas eleva aquilo que existe de mais brutal em nosso dia a dia à potência máxima. Ninguém gostaria de ler sobre um mundo perfeito, é o que a autora acredita, o que talvez seja verdade. Mas o que potencializa sua história de fato é a construção de um universo diegético em que, salvo liberdades fundamentais, como a existência de magia, por exemplo, estão assustadoramente próximas e são facilmente projetadas em um futuro não tão distante do nosso. Um olhar mais apurado é capaz de jogar luz sobre questões aparentemente superadas em certos lugares, mas que ainda são mal resolvidas – ou apenas não resolvidas – em tantos outros lugares do mundo. Contudo, para além dessas discrepâncias, A Rainha de Tearling chama a atenção (nem sempre de maneira sutil) para aquilo que acontece justamente quando ninguém está olhando. Assim como Margaret Atwood escreve em seu poderoso O Conto da Aia a história de uma sociedade que, depois de uma revolução teocrática, passa a ser regida por princípios baseados nas raízes puritanas de séculos passados, George Orwell conta a história de pessoas reféns de uma opressão absoluta, e mais recentemente, Suzanne Collins se debruça sobre questões como opressão, desigualdade e escravidão em uma sociedade que literalmente utiliza a vida de seu povo para provar o próprio poder, Johansen utiliza na base de sua obra questionamentos fundamentais para, se não entender para onde estamos indo, ao menos aonde não queremos chegar.

“As meninas morrem muito antes dos meninos. São usadas para trabalhos braçais até terem idade suficiente para serem vendidas para satisfazer prazeres. Isto é, se tiverem sorte suficiente de não serem compradas por um estuprador de crianças logo ao chegarem.”

Em Die Welle, filme de Dennis Gansel lançado em 2008, Jürgen Vogel dá vida a um professor de ensino médio que, em uma aula sobre autocracia, decide repassar o conhecimento aos seus alunos da forma que acha melhor e mais dinâmica: na prática. Motivado em grande parte pela descrença dos estudantes de que regimes como nazismo poderiam ressurgir das cinzas, o professor inicia seu próprio regime autocrático em sala de aula, sendo ele a figura central que detém o poder. O filme é inspirado no livro homônimo de Todd Strasser, romance baseado no experimento social realizado pelo professor de história Ron Jones, a Terceira Onda, em uma escola secundária na Califórnia, em meados da década de 1960. Como o professor no filme, Jones buscava provar que mesmo sociedades democráticas não estão imunes ao discurso fascista. E consegue, mas não sem que as coisas saiam de seu controle, o que de forma romantizada – e mais drástica, vale dizer – também acontece na adaptação do livro de Strasser. Embora a lição seja muito clara, o filme destaca um ponto relevante: o de que não estamos imunes a nada.

De forma parecida, Erika Johansen se utiliza do contexto diegético em que está inserida sua protagonista, não com o intuito de estabelecer lições de moral (ainda que muitas vezes pareça chegar lá) ou julgar o sistema no qual ela está (e estamos todos) inserida, mas de questionar estruturas das quais também fazemos parte e entender por que elas existem e por que compreendê-las é tão importante. Com alguma frequência, Kelsea vai se perguntar a respeito da relação entre Igreja e Monarquia, ou sobre a situação do povo que governa, ou sobre como sua mãe foi capaz de assinar um tratado com Mortmesne. Mas, assim como nós, ela também não tem todas as respostas. Antes da coroa, existe uma jovem mulher de 19 anos sobre quem recai toda a responsabilidade, e que detém muitos poderes nas mãos, mas que também está descobrindo a si mesma em uma realidade inteiramente nova – coisa que a autora jamais perde de vista. Como Peter Morgan e Daisy Goodwin, Johansen explora de forma minuciosa os contrastes da personalidade de Kelsea, tornando-a não exatamente mais frágil, mas mais ambígua e humana. Seus conflitos podem parecer pequenos diante de crises políticas, guerras ou a escravidão de seu povo, mas jamais são ignorados, tampouco minimizados em perspectiva. A autora permite que Kelsea desempenhe um infinidade de papéis, da monarca determinada a salvar seu povo, até a menina insegura que sente falta dos pais adotivos, que deseja aprovação externa, que sente desejo, outras vezes medo, e confessa não se sentir tão confortável assim na própria pele.

— Vossa Majestade pensa na beleza como uma dádiva, mas ela também é uma maldição.”

São papéis complexos e muitas vezes pesados, mas não há qualquer tentativa de fazê-los ser dessa forma, tampouco parecer o contrário. A Rainha de Tearling lida com as inseguranças, contradições e conflitos de sua protagonista sem a necessidade imediata de resolvê-los, nos levando, em um acesso privilegiado, a compreender como muito desses sentimentos e sensações vêm à tona e, como a vida em sociedade interfere na imagem que projetamos sobre nós mesmos. Quando ainda vivia em uma cabana no meio da floresta, isolada do convívio social, Kelsea jamais parece se importar com sua aparência, tampouco com seu peso, ou com o fato de não se encaixar em padrões arbitrários de feminilidade, mas basta estar cercada por outras pessoas para que seu reflexo no espelho se torne um inimigo. É uma construção incômoda, mas honesta, sobretudo porque revela um mundo de questões mal resolvidas que muitas vezes também nos pertence, e a vulnerabilidade de Kelsea somada à honestidade e delicadeza de Johansen em abordar os tantos tons de cinza de sua personagem, é o que fazem de A Rainha de Tearling um livro tão memorável.

É difícil saber para onde aponta o futuro de Tearling e quais são os desafios que aguardam Kelsea na sequência. Mas há algo profundamente revolucionário na história de uma mulher tão implacável em lutar por aquilo que acredita e, sobretudo, em garantir que o amanhã seja um dia melhor do que hoje, um lugar onde gerações futuras possam colocar os pés em segurança, sem, no entanto, deixar de ser humana. Como Elizabeth. Como Victoria. Como todas nós.

“Ela era Kelsea Glynn, uma garota que crescera na floresta, que adorava estudar história e ler livros. Mas era outra coisa também, algo além de Kelsea, e ali ficou por mais um momento, observando seu país, cerrando os olhos para ver o perigo além do horizonte.
Minha responsabilidade, pensou, e a ideia não lhe causou temos algum naquele momento, apenas uma extraordinária sensação de gratidão.
Meu reino.”

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a Editora Companhia das Letras.


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