CINEMA LITERATURA

A História de Mildred Pierce: a subversão na literatura policial

Mildred Pierce

Nos anos 40, não tinha para ninguém. Considerado a galinha dos ovos de ouro do cinema, James M. Cain forneceu algumas das histórias que se tornariam clássicos do gênero noir, como O Destino Bate à Sua Porta e Pacto de Sangue. Ao contrário de Raymond Chandler, outro grande nome da literatura policial, Cain estava interessado em algo que nem sempre era muito focado nesse gênero: as mulheres. Ao contrário de seus conterrâneos, James colocou as mulheres no centro da literatura policial e subverteu a maior lógica do noir: o assassinato. Na obra de Cain, o assassinato ocupa segundo plano; o importante mesmo é o contexto em que suas personagens estão inseridas. Se você entender o contexto, poderá decifrar o que ele quer nos dizer.

Muito mais do que assassinas, suas mulheres tinham passado. Elas estavam além do retrato usual da literatura policial, que sempre as colocava como predadoras sexuais e todo o tormento do personagem principal. Cain nos mostra o assassinato como uma forma de ascensão e de escapar de diversos abusos – psicológicos e físicos. Foi na subversão de valores morais que ele encontrou uma forma de mostrar que as mulheres estavam tão condenadas que o assassinato parecia a única via de saída. Talvez por isso Hollywood tenha se refestelado com seus romances, adaptando os mais célebres, pois não se via em mais ninguém esse toque “Sazón”.

A História de Mildred Pierce, romance lançado pela série policial da Companhia das Letras, é um das histórias mais fascinantes do escritor, talvez porque fuja a essa lógica do assassinato como forma de ascensão. O tormento da personagem principal é outro: sua filha. Dá para imaginar um romance policial em que o cerne seja a relação entre mãe e filha? Pois James imaginou! Hollywood, é claro, não deixou barato e o adaptou para o cinema em 1945, com Joan Crawford e Ann Blyth nos papeis principais. Inclusive, esse filme foi a grande volta da atriz, que enfrentava uma das piores fases de sua carreira. Em 2011, Todd Haynes transformou a história em uma minissérie com Kate Winslet, mostrando que, mesmo após tantos anos, a história de ascensão e decadência de Mildred continua mais atual do que nunca.

Um grão de areia na literatura policial

Como disse anteriormente, A História de Mildred Pierce é um grão de areia na literatura policial dos anos 40 e 50. Em geral, nos romances desse gênero, impera a lógica do Clube do Bolinha: as histórias giram em torno de homens e seus dramas psicológicos. Quase sempre atormentados, eles conhecem uma mulher misteriosa e fatal que os levará definitivamente para o buraco. As mulheres estão ali única e exclusivamente para satisfazer o prazer do homem e depois jogá-lo na lama. Em A História de Mildred Pierce, essa lógica é subvertida, porque não só temos uma protagonista divorciada, como o grande tormento dela é sua filha. Nessa história, a filha assume a forma de um ideal, alguém por quem a personagem principal não pensa duas vezes em colocar a mão no fogo. Por sua filha Veda, Mildred se sujeitará às mais diversas situações, algumas humilhantes e outras nem tanto, com o intuito de vê-la feliz. Nesse caso, a felicidade é uma quantia bem gorda de dinheiro.

Quando a história começa, na primavera de 1931, somos apresentados à descrição da família margarina. Na primeira cena, James descreve as ações de Herbert Pierce. Ele está cortando/regando a grama e Cain logo nos dá a primeira pista sobre o status dessa nossa família margarina:

“A casa também era semelhante a outras do gênero: um bangalô espanhol de paredes brancas e telhado vermelho. As casas em estilo espanhol saíram um pouco de moda, mas na época eram consideradas de alto nível, e aquela não ficava a dever nada à próxima, talvez fosse até melhorzinha.”

Casas de estilo espanhol, se você é um aficionado por filme noir como eu, são uma constante nesse gênero. Tratavam-se das melhores casas nos anos 30, geralmente em bairros chiques, como Glendale. A casa de Pacto de Sangue, por exemplo, é nesse estilo também. Portanto, por meio dessa frase aparentemente ingênua, Cain nos mostra que aquela família não era pouca porcaria. Ele continua sua descrição das ações de Herbert, intercalando-as com descrições da casa. Ele toma banho e veste uma roupa e encontra a esposa na cozinha, fazendo um bolo. Está tudo bem, certo? Não.

O diálogo que se inicia logo em seguida entre Mildred e Herbert quebra a aparente perfeição da família margarina. Percebemos que Bert não faz nada em casa, na verdade ele é um acomodado nas costas da esposa, que vende bolos para fora para ajudar nas contas da casa, uma vez que a crise de 1929 levou todas as esperanças dos Pierce embora:

“(…) Mas chegou a Terça-Feira Negra de 1929, e seu mergulho na ruína foi tão rápido que ele mal pôde ver o desaparecimento da Pierce Homes durante a queda. Em setembro estava rico, Mildred escolhera o casaco de mink que compraria quando o tempo esfriasse. Em novembro, quando o tempo ainda não havia esfriado, tiveram de vender um dos carros para pagar as contas do mês.”

Além disso, Bert também está traindo a esposa e isso é trazido à tona durante o primeiro diálogo entre marido e mulher. Ele está traindo Mildred com a Sra. Biederhof, uma vizinha que aparentemente estava encantada com toda a classe dele. É interessante notar que ele tem o rei na barriga, embora esteja na miséria. Considera-se um homem bastante culto e busca a aprovação nos braços de outra mulher. Eu acho fantástica a maneira irônica como Cain nos “frustra”, pois ele coloca a figura do marido perfeito, aquele que ajuda nas tarefas da casa, para depois revelar-nos o seu caráter.

O divórcio entre as personagens é inevitável e Bert acaba indo embora de casa. Suas filhas, Veda e Ray, ficam arrasadas. É a partir da separação do casal que todos os acontecimentos da trama se desenrolarão, pois Mildred precisará se sustentar. Com o marido sem dinheiro, a única alternativa que encontra é trabalhar.

A maternidade como sacrifício

Apesar de colocar uma mulher no cerne de um romance policial, James M. Cain cai em outro mito bastante tentador: o da maternidade enquanto sacríficio. Assim como Darren Aronofsky com seu Mãe!, ele se vale de mitos criados em relação às mulheres para dar o seu recado. Isso nos coloca diante de uma conclusão bastante frustrante: a ousadia de James tem limite. E essa fronteira entre o ousado e somente uma visão masculina de uma narrativa tipicamente feminina acontece quando o autor nos fala sobre maternidade.

Há um consenso geral de que mães sacrificam tudo, inclusive sua existência, por uma criança. Essa afirmação vem de uma sociedade que não enxerga a mãe como uma mulher, um ser autônomo. A partir do momento em que se torna mãe, ela deve viver apenas para seu filho. Se uma mãe ousa fugir dessas regras, como já escrevi sobre Debbie Reynolds, ela é taxada de ruim. A culpa da má criação de um filho é atribuída à mãe, sempre ela. Afinal, ela não deveria estar lá? Pois é.

Em A História de Mildred Pierce, Mildred ascende socialmente. Tudo começa com as tortas ingenuamente vendidas por ela para levantar dinheiro, mas ela vê que não conseguirá se sustentar dessa maneira. Sendo assim, Mildred aceita um emprego de garçonete, o que lhe permite vender suas tortas ao dono do restaurante e começar uma lenta ascensão. Só que ela não faz isso para si; é o amor de Veda que ela tenta conquistar com todas essas ações.

Logo após a primeira cena entre Bert e Mildred, Veda entra na história. A sua descrição é o suficiente para entender os motivos pelos quais Mildred deseja tanto agradá-la:

“Chegou afetadamente, aspirando com desprezo o perfume deixado no ar pela sra. Gessler e depositou os livros escolares sobre a mesa antes de beijar a mãe. Embora tivesse apenas onze anos, capturava o olhar das pessoas. No modo garboso como exibia as roupas, bem como a beleza na parte superior do rosto, parecia mais com o pai do que com a mãe; “Veda é uma Pierce”, costumavam dizer. (…) Ela relatou o progresso com a Grand Valse Brillante de Chopin, repetindo o título da obra algumas vezes, para a surpresa de Mildred, pois empregava a pronúncia francesa e obviamente deliciava-se com o efeito elegante. Falava com o tom claro e afetado que lembra atrizes infantis, e realmente tudo o que dizia dava a impressão de ter sido decorado e depois recitado do modo prescrito por algum livro de etiqueta rigoroso.”

Veda vive em um mundo de maneiras afetadas, fingindo ser algo que não é. Para sustentar essa fantasia, Mildred economizava 50 centavos por mês para lhe pagar aulas de piano. Porém, a filha jamais ligara para os feitos de sua mãe; na verdade encontrava todas as maneiras para ridicularizá-la, ainda que aceitasse seu dinheiro, vindo de frangos assados e tortas. Apesar da pouca idade, Veda é extremamente sexualizada na trama, e seu colo é chamado de “a leiteira” pelos outros personagens. Para mim, James escolheu sexualizar Veda de tal forma para opor seu caráter ao da mãe que, mesmo tendo as pernas mais bonitas da paróquia, carregava um certo respeito. Veda não. Ela era baixa, logo a maneira como Cain escolheu mostrar isso foi erotizando-a ao máximo, o que mais uma vez nos faz repensar o nível de ousadia de A História de Mildred Pierce.

A história de Mildred e Veda, beirando a inveja e a rivalidade, inspirou a criação da trama de duas personagens muito célebres da teledramaturgia brasileira: Maria de Fátima e Raquel Acioli, de Vale Tudo. Na novela escrita por Gilberto Braga, Raquel come o pão que o diabo amassou por causa da filha, que menosprezava sua origem simples. Raquel ascende socialmente depois de vender sanduíches na praia (ela precisou fazer isso porque Fátima a deixou sem dinheiro), conseguindo abrir uma empresa de catering, a Paladar. Porém, a história de Gilberto Braga copia mais o filme de 1945, que difere radicalmente do livro em alguns aspectos, do que a trama escrita por Cain.

Ao usar o tropo da maternidade enquanto sacrifício, Cain não dá a chance de que Mildred possa ser uma pessoa. Você pode me dizer: mas, Jessica, ela se envolve com vários homens ao longo da trama, ela continua não sendo uma pessoa? Não, não continua. Os envolvimentos amorosos de Mildred têm o único objetivo de angariar algo para Veda. Por exemplo, Monty, o rico falido com quem ela tem uma tórrida relação, só estava ali para que ela conseguisse o respeito de Veda por se envolver com alguém da alta sociedade. Para Veda era importante se distanciar da origem humilde e ela vê a ascensão de Mildred como algo ruim, especialmente porque ela precisou trabalhar para conquistar todo aquele patrimônio. Se você me pedir para descrever esse livro com uma palavra, eu direi: Veda. É tudo Veda. Veda, Veda, Veda.

Cain, por mais que tenha subvertido o gênero policial ao colocar uma mulher como protagonista, segue à risca algumas regras do hard-boiled. Essa palavra em inglês significa algo como duro de roer. Duro de engolir, digamos assim. A relação entre mãe e filha é algo duro de engolir, especialmente porque criamos diversos mitos em relação à maternidade. Cain acaba quebrando todos eles ao mostrar que nem sempre os filhos são gratos por aquilo que seus pais fizeram, nem sempre os filhos ficam ao lado dos pais. Esse “duro de roer” é multifacetado e não inclui apenas a maternidade, mas também as descrições. É tudo direto com James M. Cain, ele vai direto ao assunto sem rodeios. Ao nos apresentar Veda como uma jovem afetada, ele retira a expectativa de uma boa moça, criada por uma ótima mãe.

Os ricos de berço versus os novos ricos

Uma discussão bastante interessante levantada pelo livro diz respeito à tensão entre os ricos de berço e os novos ricos. Mildred, ao ascender, torna-se uma nova rica e começa a desfrutar de regalias que não estavam reservadas à sua classe social. Ela compra roupas novas, uma casa em um bairro melhor e passa a tentar emular o charme da burguesia. Ela conhece Monty Beragon, um rico de berço, que está tomando café da manhã em seu restaurante:

“Era bem alto, esguio, algo infantil em sua calça esporte folgada. Os olhos castanhos e o bigodinho bem aparado lhe davam um ar decidamente europeu.”

Em resumo Monty era o homem que Mildred estava esperando cair do céu: além de ótimo amante, saía nas colunas sociais e era considerado um partidão. Ele se mostra interessado em saber como Mildred adquiriu seu restaurante, mas isso é só fachada. Mais para frente, percebemos que ele desdenha seu trabalho, assim como Veda. Para Monty, a vagabundagem era uma qualidade a ser cultivada nos ricos.

A história de Mildred e Monty parece-se muito com outro grande novelão do horário nobre, Rainha da Sucata, de 1991. Nessa história, Maria do Carmo (Regina Duarte) tem um um negócio de sucata ao lado do pai, Onofre (Lima Duarte). Eles fazem com que a sucata prospere. Do Carmo, então, torna-se a mais nova rica do pedaço e consegue comprar o afeto de um antigo amor, Edu (Tony Ramos), um rico de berço falido. O maior barato dessa novela eram os embates entre a madrasta de Edu, Laurinha Figueiroa (Gloria Menezes), e Do Carmo, porque a visão de vida delas contrastava radicalmente. Laurinha via no ócio uma oportunidade de exibir-se socialmente, enquanto Do Carmo gostava de pegar no batente.

Assim como em Rainha da Sucata, a A História de Mildred Pierce mostra a humilhação que é para esses homens serem sustentados por mulheres, ainda mais mulheres tão baixas. O dinheiro não as torna mais atraentes, muito pelo contrário. Tudo em Do Carmo e Pierce grita “novos ricos”, seja pela vestimenta, o jeito de falar ou o carro. Elas nunca serão mulheres como as da alta sociedade, embora tenham capital financeiro. Falta-lhes o essencial, no caso o capital cultural. Mildred, apesar de ser humilhada, permanece ao lado de Monty para agradar Veda. Inclusive ele é usado como joguete para tornar possível uma reconciliação entre mãe e filha.

A adaptação para as telonas em 1945

O noir, como a maioria dos movimentos cinematográficos, é o retrato do que as pessoas viviam e pensavam nos anos 40 até o finalzinho dos anos 50. Embora na época ninguém estivesse comprometido com uma determinada estética, porque o nome noir só foi cunhado n década 50 pelos estudiosos franceses, é fácil perceber uma estética comum entre diversos filmes realizados nesse período. Jogo de luz e sombra, ângulos de câmera distorcidos, a confusão dos personagens e uma mulher fatal e sedutora estão ali para nos fornecer uma sensação, muito mais do que uma mensagem em si. A malaise, palavra francesa para desconforto, pode resumir a sensação ao assistir a um filme noir. Muitas vezes as tramas são confusas e seus personagens metem-se em apuros e não sabem como foram chegar até ali. O crime, nesse caso, muitas vezes ocupava um lugar secundário, pois o importante era a malaise. Ela representava o desconforto de uma época de desilusões, simbolizada pelo maior conflito do período, a Segunda Guerra Mundial.

Alma em Suplício, título em português da adaptação de A História de Mildred Pierce para as telonas, trouxe um novo jeito de pensar o filme noir. Não era nada comum que mulheres assumissem o volante como protagonistas de filmes noir, um gênero pra lá de misógino. Como disse anteriormente, esses filmes reforçavam a ideia de que mulheres são predadoras. Elas são as Evas desses Adãos, fazendo com que eles comam a maçã amaldiçoada. A maneira como o noir vê suas mulheres é muito parecida com essa história do Gênesis. No entanto, nesse gênero os homens já têm uma leve inclinação ao fracasso, o que eles fazem é cair de cabeça nele ao conhecerem uma mulher. Alma em Suplício não só deu a sua protagonista o rosto respeitável de uma de suas maiores estrelas da época, Joan Crawford, como também mostrou que uma mãe seria capaz de matar pela filha.

Isso quer dizer que, ao contrário da maioria dos filmes noir da época, uma mulher não está matando por um homem. Ela mata por sua filha, o que faz com que o apelo do público junto a ela mude completamente. Vale lembrar que o filme insere um elemento completamente novo em relação ao livro: o assassinato. Logo que Alma em Suplício começa, ouvimos o som de tiros e depois descobrimos que Mildred foi detida por tentativa de assassinato. No romance de James M. Cain não há assassinato, até porque o cerne de sua trama é o contexto histórico e a relação entre Veda e Mildred.

A inserção desse elemento cinematográfico é interessante, uma vez que ele nos coloca diante da possibilidade de Mildred ter assassinado o ex-amante por ciúmes, já que ele estava tendo um caso com sua filha. Com isso o filme nos mostra que a rivalidade entre mulheres é tão forte que ela se manifesta até entre mães e filhas. Os laços afetivos não são desculpa para que mulheres se matem por um homem, afinal essa é a “natureza” delas. Além disso, eu também vejo a inserção desse assassinato como uma maneira de levar as pessoas ao cinema. Se não há detetive, não há crime e ainda por cima há uma mulher como protagonista, por que irei assistir a esse noir? Para tornar a história mais atraente, os roteiristas escolheram retratar Mildred como uma assassina. Até porque uma mãe que se sacrifica pela filha é um tropo que Hollywood adora, como podemos ver em filmes como Stella Dallas, Mãe Redentora.

Atribuo o sucesso de Alma em Suplício ao fato de que ele coloca uma mulher trabalhadora a frente de um negócio em uma época em que as mulheres estavam vivendo o mesmo, ainda que de uma maneira um pouco diferente. A Segunda Guerra Mundial possibilitou que as mulheres fossem trabalhar, já que os EUA precisavam repor sua força produtiva, perdida com a ida de homens para a guerra. Em 1945, a guerra estava em vias de terminar, mas a mensagem que Mildred carregava continuava muito poderosa: você pode chegar lá e conquistar seu lugar ao sol. Filmes que colocam uma mulher a frente de um negócio tornariam-se raros nos anos 50, época em que o cinema se voltou para tramas que confinavam as mulheres à esfera privada, retrocesso que acabou acontecendo após a volta dos homens do front.

Quem assistiu Feud deve se lembrar que Mildred Pierce é citado várias vezes como o filme que trouxe a carreira de Joan Crawford de volta à vida. Não à toa, a atriz faturou seu único Oscar de Melhor Atriz por Alma em Suplício, e o filme deu o fôlego necessário para que a estrela fizesse alguns de seus melhores filmes na fase que em que ela esteve empregada na Warner Brothers. Depois de ser rebaixada a veneno de bilheteria pelo estúdio que a empregava desde os anos 10, Joan acabou mudando de casa, porque não conseguia mais papéis que estivessem à sua altura. Na verdade, esse chavão era uma forma de dizer que a atriz estava ficando velha, por isso começava a não ser mais adequada para determinados tipos de papéis. Crawford, pasmem, beirava os 40 anos e, como disse no meu texto sobre Feud, esse era o começo do fim. Mildred foi a primeira mãe que ela interpretou na ficção, um indício de que estava deixando para trás as mocinhas.

Ao chegar na Warner Brothers, Joan se deparou com a constatação de que não era a rainha do estúdio. Esse posto já era ocupado por Bette Davis, atriz que muitos afirmam ter sido sua arqui-inimiga. Quem lucrava com essa suposta rivalidade era a imprensa e o próprio estúdio que fazia com que suas estrelas competissem entre si, como uma selva, pelos melhores veículos. Quando perguntada sobre o fato de ter recusado o papel de Mildred Pierce, Bette teria respondido:

“Você sabia que eu recusei Mildred Pierce? Eu acho que eles não contaram isso a senhorita Crawford. Ela poderia não ter gostado que lhe oferecessem as minhas recusas.”

Bette, ao desdenhar o papel de Mildred, abriu espaço para a concorrente abocanhá-lo, não sem fazer comentários venenosos, dando a entender que ela não estava ligando para a história de Pierce. Mas Joan ligava – e muito. Ela lutou arduamente pelo papel, sujeitando-se inclusive a fazer um teste. Naquela época, atrizes de seu calibre não faziam testes; o nome já lhes dava toda a credibilidade. Além disso, o estúdio sempre tinha planejado o tipo de veículo no qual a atriz atuaria. Sendo assim, quando chegava um veículo musical, havia uma lista de atrizes a serem escaladas. Elas não precisavam fazer testes para veículos nos quais tinham sucesso garantido. Joan não contava com o apoio do diretor do filme, Michael Curtiz, que a achava inadequada para o papel. Na verdade, ele só estava prestando atenção em seus ombros, algo que ele odiava nela. Dá para acreditar? Pois é, na Hollywood de ontem (e talvez na de hoje) diretores encontravam motivos como ombros largos para impedir uma atriz de ser escalada para um filme.

Por sorte, Joan conseguiu provar-se adequada e ganhou o papel. Mildred falava diretamente ao seu coração, pois assim como a personagem de James M.Cain, Crawford teve uma vida cheia de dificuldades. Nascida em San Antonio, no Texas, Lucille LeSueur cresceu vendo os sacrifícios que sua mãe fazia para criar os filhos. Em um dos momentos mais tocantes da biografia The Girl Next Door, escrita por Charlotte Chandler, Joan conta que jamais esquecera do cheiro de roupa lavada e de como isso lhe lembrava a infância miserável nos Texas. Como muitas garotas de seu tempo, a profissão de atriz era uma oportunidade para uma vida melhor e com mais liberdade. Ainda que tenha alçado a fama, outros problemas tomaram conta da vida de Crawford, conforme mostrado em Feud: a pressão para ser perfeita e nunca envelhecer.

O que fica de tudo isso?

A História de Mildred Pierce é uma ótima oportunidade de explorar o romance policial de outra perspectiva, aquele em que coloca uma mulher como o centro da história. Que impactos isso causa? Será que ele é tão ousado quanto se propõe? Se olharmos a literatura escrita por Cain, ele certamente pode ser chamado de ousado. Seus outros romances, como A Mulher do Mágico, trazem sempre a mesma fórmula que o consagrou: o casal de amantes que decide matar o marido da esposa. A História de Mildred Pierce é tão diferente, não contém crime, e sim uma reflexão muito interessante do que era ser mulher e divorciada na década de 1930.

A maneira como a maternidade é mostrada nesse livro não difere muito do que vemos em produções atuais. A mulher precisa abrir mão de ser uma pessoa para criar um filho e isso é venerado pela sociedade. Não é assustador que isso esteja em um livro dos anos 40 e ainda apareça hoje em dia? Eu acho. Sendo assim, acredito que A História de Mildred Pierce nos deixe pensando sobre as reais mudanças em relação ao mito da maternidade.

Se você deseja conhecer mais sobre literatura policial, começar por Mildred Pierce é uma ótima ideia. Cain nos prova que nem sempre um crime é o atrativo principal desse tipo de romance, que durante muitos anos foi considerado de qualidade inferior. Não se engane com a aparente simplicidade das descrições e dos diálogos dos autores policiais: eles quase sempre escondem um tesouro em uma garrafa no mar. Hoje o romance policial é objeto de diversos estudos, e em todo mês de novembro acontece o Noirvember, uma iniciativa do canal de filmes clássicos norte-americano TCM para celebrar esses filmes.

Ninguém precisa ser o rei ou a rainha da literatura rebuscada para dar sua mensagem.

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a Editora Companhia das Letras.


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