LITERATURA

A Glória e Seu Cortejo de Horrores

Rio de Janeiro sempre foi, para mim, uma cidade decadente. Mesmo que eu nunca tenha realmente morado lá, eu sempre senti o peso da história que nunca chegou a ser o que prometia, o peso de gerações passadas, o peso da minha família. Meus pais vieram do Rio para São Paulo no final da década de 1980 e desde então minha família nuclear é mais paulistana que carioca, mas sempre que visito a cidade eu volto a sentir esse peso. O peso é totalmente uma invenção da minha cabeça, eu sei disso. É irracional porque nunca morei no Rio, eu apenas viajei para lá de uma a duas vezes por ano durante todos os anos da minha vida.

Com o passar dos anos, fui relacionando esse peso com a decadência da cidade. O Rio já foi a capital do país, a cidade central do Império, a casa do Imperador do Brasil. O Rio é lindo e toda a cultura brasileira do século XX já disse isso. A decadência também pode estar apenas nos meus olhos, mas quando vejo aquela cidade linda com toda a história do país saindo pelas sarjetas, eu só consigo pensar em tudo o que o Brasil poderia ter sido e não foi. E foi esse o sentimento exato – frustração quase nostálgica de uma época que não vivi – que senti lendo o livro A Glória e Seu Cortejo de Horrores, da Fernanda Torres. É o segundo romance da atriz.

Todos os anos da minha vida visitei o Rio de Janeiro e durante quase toda minha adolescência e vida de jovem adulta, eu passei lendo e estudando sobre contracultura, modernismos e a década de 1960 no Brasil e em outras partes do mundo. Mario Cardoso, personagem central do livro, é um ator carioca que viveu o boom cultural dos anos pré-ditadura. Ele foi para o nordeste ensinar política para os trabalhadores rurais, ele encenou Hair e Plínio Marcos, ele se encantou com o zeitgeist cultural e viu o Golpe Militar acontecer. Ele viveu todas as contradições brasileiras e acompanhou de perto o desmonte de um projeto de governo mais democrático para o país. Ele saiu da vida política para viver a liberdade encenada do teatro; saiu do underground dos palcos para as novelas; tentou voltar para o teatro seguindo moldes do passado e se recusando a compartilhar com a nova contemporaneidade; e viveu a decadência de seu trabalho e de seu próprio mundo que deixou de existir. Mario Cardoso, por muitos ângulos, é um retrato de uma geração que falhou e se esqueceu de sair de cena.

Depois de fracassar o retorno aos palcos encenando Rei Lear de Shakespeare, Mario Cardoso tenta remediar os erros cometidos para financiar a peça aceitando um papel numa novela bíblica. Ao mesmo tempo, ele lida com a doença de sua mãe e lembra de seu passado e de como se tornou ator. É um livro pequeno, com menos de 300 páginas, mas é ambicioso, pois tenta encaixar, através da trajetória de Mario, a vida cultural brasileira da metade do século XX até os dias de hoje. O primeiro grande trabalho de Mario é como o médico Astrov na peça Tio Vânia que, coincidentemente com a sua carreira, é uma história de fracasso e decadência (assim como todas as outras peças do Tchékhov).

O fracasso de Mario não está apenas nos meus olhos. A sua narração diz isso o tempo inteiro. Ele odeia sua vida atual, odeia a novela bíblica, odeia que as pessoas o reconheçam como ator de novelas, odeia ter que cuidar da mãe senil e odeia a si mesmo. Toda sua narração é uma tentativa de entender como ele saiu de um ponto em que era bom ser Mario Cardoso para o lugar onde ele está. O que Mario talvez não enxergue muito bem é que sua vida não precisa ser uma jornada decadente, as pessoas crescem e mudam e fazem escolhas por motivos diversos e nem sempre isso quer dizer que a vida piora com a idade – mas isso pode ser a minha visão, mais uma vez, entrando no livro.

O livro é narrado em primeira pessoa, o que talvez seja o maior problema da obra. Fernanda Torres escreve o olhar de Mario Cardoso de maneira plana, com muitos adjetivos e sem nenhuma subjetividade – o maior problema para narrações em primeira pessoa. A perspectiva de Mario é a de um narrador onisciente não presente na história, mas a questão é que é ele mesmo quem narra, fazendo com que a maior parte daquilo que Mario pensa e vê seja apenas um panorama das coisas, raso demais para ser descritivo e subjetivo, cheio de clichês e lugares-comuns.

“Mas cimentaram tudo, a periferia inteira; cortaram as árvores e transformaram as vielas singelas em vias engarrafadas de mão dupla, onde o fumacê dos ônibus encarde paredes e muros, cobrindo de fuligem as praças, onde, antes, se jogava cartas, porrinha e futebol. Cuidei para não errar a saída. No emaranhado de barracos sem água e esgoto das comunidades do Rio, as AK 47s proliferam, traficadas junto com os papelotes de pó. O povo de agora nada tem do ideal dos meus tempos de engajamento, pensei, a gente humilde, com cadeiras na calçada. A desigualdade social não destruiu apenas a Tijuca da minha infância, ela se alastrou pelos bairros vizinhos, lapidando a desoladora paisagem. A Linha Amarela era a prova do horror.”

Mario pode ser uma grande metáfora para a sua geração; a geração que teve os recursos políticos e artísticos na década de 1960 e que mesmo assim sofreu o Golpe Militar. A história de Mario também é a história da derrota da esquerda brasileira, que até hoje é extremamente elitista e parada no tempo. Mario quer sair das novelas e voltar para os palcos para ser visto pelo público que ele acha que o merece, em vez de ser visto pelas massas. Dessa forma, a narração problemática é a maneira da forma do livro assimilar seu conteúdo, mas volto a achar que também pode ser meu olhar analisando demais a obra.

Histórias de fracasso e decadência geralmente terminam de forma redentora. Não é o que acontece aqui. Mario começa no fracasso e termina no fracasso. É um fracasso diferente, mas continua a ser fracasso. Mario não aprende com seus erros, não tenta melhorar, pelo contrário, ele continua descendo até além do fim do poço. O que resta é o retrato de uma geração que ainda tem a voz, mas falta o que dizer. A Glória e Seu Cortejo de Horrores é exatamente o que diz seu título: um cortejo de horrores. A narração clichê e canastrona pode ser vista como uma grande metáfora de quão falha foi a geração de Mario Cardoso – ou posso estar lendo a fundo demais uma obra que não precisa de tantas análises. O ator (ou a autora) teve todas as oportunidades do mundo para construir uma narrativa enriquecedora, mas ao invés disso, deixou sua vida se tornar uma história de fracassos. O destino e o acaso alteram o rumo das coisas até certo ponto. Depois disso, são as nossas escolhas que importam. Lendo o livro, senti uma tristeza, a mesma tristeza que senti quando na escola estudei pela primeira vez como se deu o Golpe Militar e o que veio depois dele. É a tristeza da frustração, de saber que o Brasil podia mais e mesmo assim o país falhou.

Esperava mais do livro, tanto de sua história quanto de sua execução. Esperava mais de Mario Cardoso e seus pares. Esperava mais do Brasil (na verdade, ainda espero). No final, o que resta é o bom e velho embate geracional. Em algum momento, os Marios Cardosos do Brasil vão ter que dar espaço para pessoas mais jovens narrarem suas histórias. Mal posso esperar.

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a Editora Companhia das Letras.


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