LITERATURA

A Fera: uma história sobre adolescentes e empatia

Jamie e Dylan são dois adolescentes que se conhecem num grupo de apoio terapêutico para adolescentes com tendências suicidas, mas que não necessariamente se encaixam lá. Ou talvez o grupo de terapia seja o lugar ideal para os dois, mas isso não é o importante no momento. O ponto principal é que Jamie e Dylan se encontraram e encontraram no outro um lugar seguro.

Jamie e Dylan são como todos os outros adolescentes: eles se preocupam com o futuro, ficam de saco cheio dos pais, têm medo de se sentirem deslocados e por aí vai. Mas as coisas não são tão simples assim. Jamie e Dylan poderiam ser como qualquer outro casal adolescente, mas eles não são. Não é porque Dylan é muito alto e muito peludo e Jamie é uma garota transgênero; na verdade, eles não são como todos os outros adolescentes porque nenhum adolescente é igual ao outro e nenhuma pessoa é igual à outra. São todas diferentes e passam por experiências diferentes e também sentem dor de formas diferentes e sofrem por motivos diferentes. Jamie e Dylan não nasceram sabendo dessas coisas, mas dando tempo a eles, os dois entendem que não é possível saber o que o outro está passando e que a melhor forma de lidar com as diferenças é ter empatia

A Fera, da romancista estreante Brie Spangler publicado no Brasil pelo selo Seguinte, da Companhia das Letras, pode ser visto como uma releitura da história de A Bela e a Fera e não é só o nome que faz a relação. O livro também conta a história de dois jovens que se sentem deslocados e que se encontram um no outro. É uma história que não envelhece porque é um clássico e é também uma história sobre empatia. É quase impossível ler A Fera e não lembrar de do filme da Disney, em que duas pessoas deslocadas de suas situações e julgadas por todos pela suas aparências se encontram um no outro. É o mesmo caso do livro, só que a Fera em questão é um menino de 15 anos que é grande demais e peludo demais, e a Bela é uma menina que se identifica como mulher, mas foi designada com o sexo masculino ao nascer.

Dylan não é uma fera de verdade, apesar de ser esse o seu apelido. Ele é apenas um menino de 15 anos que é muito, muito alto e muito, muito peludo. Dylan detesta ser alto e peludo, mas ele não pode fazer nada para refrear o crescimento de seu corpo e de seus pelos. É essa a sua genética que, segundo sua mãe e fotos de família é a mesma de seu pai, que faleceu de câncer quando Dylan era muito criança para se lembrar. Jamie, por outro lado, não é uma princesa, nem vive numa pequena vila onde ninguém lê com exceção dela. Jamie vive em Portland, assim como Dylan. Ela é uma menina de 15 anos e tem que lidar com vários problemas, assim como outras meninas de 15 anos: a escola, as paixões, a sociedade machista e patriarcal, etc. Mas Jamie também precisa lidar com outros problemas, problemas esses que nem toda menina de 15 anos têm, porque Jamie é transgênera e também precisa lidar com o medo, o preconceito e com as pessoas transfóbicas.

Apesar de se sentirem diferentes de todos os outros adolescentes, Jamie e Dylan, assim como os outros adolescentes, precisam afirmar suas identidades a todo o momento – porque é isso que adolescentes fazem e precisam fazer. É na adolescência que descobrimos mais ou menos quem nós somos e sentimos a necessidade de gritar pra todo mundo ouvir que não somos qualquer pessoa. Cada pessoa é um indivíduo diferente que não se encaixa em uma caixinha e Jamie e Dylan definitivamente não se encaixam em qualquer caixinha.

No começo do livro, a vida de Dylan não é das melhores. Ele é de longe o maior aluno da classe, o que sempre o deixa desconfortável, e seu melhor amigo, J.P., consegue namorar com todas as meninas pelas quais Dylan se interessa. Além disso, ele começa a suspeitar que J.P. é seu amigo apenas por interesse; por causa de sua altura e tamanho, o amigo usa Dylan como uma espécie de guarda-costas que o mantém seguro para fazer negócios e emprestar dinheiro – à juros – para outros alunos  e colegas. Mas Dylan não é apenas esse amigo forte e intimidador, ele também é o menino mais inteligente da sala, que tira as maiores notas e sonha em conseguir a bolsa de estudos Rhodes e fazer faculdade em Oxford — tudo isso sem jogar futebol americano, porque apesar de seu tamanho e predisposição genética, Dylan teima em não participar de nenhum esporte na escola.

É no começo do ano letivo que tudo piora para Dylan: a escola passa a não permitir mais o uso de bonés, então Dylan é forçado a cortar o cabelo e detesta o resultado. A menina que ele gosta só quer saber do J.P. e todos têm um pouquinho de medo de sua altura, de seu tamanho e de seus pelos. Até seu melhor amigo o chama de Fera. Sem saber muito bem o motivo, depois da escola, Dylan resolve subir no telhado de sua casa para pegar a bola de futebol que ficou presa lá, e ainda sem saber explicar o porquê, Dylan cai do telhado e quebra a perna. No hospital, ele é encaminhado para um grupo de terapia para jovens com tendências a se machucar, e é lá que tudo muda porque Jamie também participa do mesmo grupo.

Logo na primeira sessão do grupo, Jamie revela seus anseios e medos por ser uma menina transgênera em um mundo onde ser diferente pode custar a vida, mas Dylan, que estava pensando em outras mil coisas, não ouve, assim como não ouve os motivos que a levaram até lá, e é assim se dá um dos principais conflitos do livro: Dylan se apaixona por Jamie sem saber que ela é uma garota trans.

Contado a partir da perspectiva de Dylan, em primeira pessoa, o leitor acompanha o garoto por seus conflitos e questões com Jamie, sua mãe, seu melhor amigo e seu pai. Apesar de ser o protagonista e narrador da história, a autora não teve medo de fazer um personagem que não é perfeito, não toma as decisões corretas e que às vezes pode ser um menino bem chato, que é egoísta, e que frequentemente se acha melhor que as outras pessoas. Muitas dessas características fazem parte daquele clássico tipo de personagem masculino que é péssimo, mas todo mundo tende a amar, um anti-herói idealizado, mas em A Fera Dylan não é construído para ser amado pelos leitores, ele é construído para ser, para crescer e ter falhas, e também para ter vontade de melhorar. Dylan demora tempo demais para perceber que outras pessoas também sofrem, e que pessoas às vezes têm problemas que vão além das aparências. Nem toda menina bonita é feliz, e Dylan, à duras penas, consegue perceber isso.

Por ser escrito em primeira pessoa, em A Fera só temos acesso à perspectiva de Dylan sobre as coisas — o que às vezes é legal, mas em outros momentos pode tornar-se aflitivo. Dylan, como muitos garotos adolescentes, precisa aprender muitas coisas, principalmente sobre as mulheres que estão à sua volta. Dylan mora só com a mãe, que ficou viúva muito nova e teve que cuidar sozinha do filho, da casa, do trabalho e de suas responsabilidades. A mãe de Dylan pode ter muitas falhas – como no caso de não empatizar com Jamie e o relacionamento de seu filho com ela –, mas é bacana ter uma personagem secundária que também ganha atenção e desenvolvimento, coisa que muitas vezes personagens como pais e outras figuras responsáveis não recebem em livros do gênero young adult.

Já Jamie é uma menina que sabe o que quer. A Fera não é uma história sobre “sair do armário”, como é o foco da maioria das narrativas sobre personagens fora do espectro heterossexual ou cisgênero. Jamie está muito bem, obrigada, exatamente como ela é, e sua história é sobre auto-afirmação, um tópico muito importante para adolescentes de modo geral, que precisam se auto-afirmar constantemente.

É importante contar histórias sobre pessoas muitas vezes deixadas de lado pela literatura, pelo cinema e pela televisão e A Fera faz um trabalho muito cuidadoso ao falar de pessoas transgênero, um tema ainda mal desenvolvido na cultura pop e na maioria das vezes ignorado. É mais importante ainda a forma do livro de não retratá-las apenas pela perspectiva do sofrimento, da dor e do preconceito. Jamie tem problemas, é claro, e sofre como todos os adolescentes, afinal ela tem apenas 15 anos e está aprendendo a viver no mundo, mas ela está bem com ela mesma, com seu corpo e com as suas decisões.

Um dos momentos mais legais da história e também do relacionamento entre Jamie e Dylan é justamente quando ela mostra para ele que não é preciso ter vergonha ou não gostar do próprio corpo. Através de suas fotografias, Jamie ensina Dylan a ter uma relação mais saudável com ele mesmo, e principalmente com o seu corpo, que é grande, sim, mas isso não quer dizer que ele seja feio.

A Fera é uma história bonita sobre como é preciso ter empatia com o outro e também sobre como sempre podemos melhorar. Assumir o erro e pedir desculpas não é uma fraqueza, pelo contrário. Ninguém pode julgar o outro porque ninguém é superior, ou melhor que todos, para fazer esse trabalho. No final do livro, Jamie diz a Dylan:

 — Não quero mais que sejamos horríveis – ela diz. É como uma pequena adaga que surge do nada.
– Não quer?
— Não — ela diz. Jamie passa a mão pela minha. Seus dedos roçam o dorso da minha mão, e enlaço os dedos nos dela. — Quero que sejamos bons.
— Então vamos ser bons — digo.

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a Companhia das Letras.


** A arte do topo do texto é de autoria da nossa colaboradora Carol Nazatto. Para conhecer melhor seu trabalho, clique aqui!

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O dia 28 de junho é o Dia Internacional do Orgulho LGBT. Nessa mesma data, em 1969, lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e drag queens se uniram contra as batidas policiais que ocorriam com frequência no bar Stonewall-Inn, em Nova York. O episódio marcou a história do movimento LGBT, que continua lutando por direitos e visibilidade. Em homenagem à data, durante o mês de junho, portais nerds feministas se juntaram em uma ação coletiva para discutir de temas pertinentes à data e à cultura pop, trazendo análises, resenhas, entrevistas e críticas que tragam novas e instigantes reflexões e visões. São eles: Collant Sem Decote, Delirium Nerd, Valkirias, Momentum Saga, Nó de Oito, Ideias em Roxo, Preta, Nerd & Burning Hell, Séries por Elas, e o Prosa Livre.

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2 Comentários

  • Responda
    Ana Beatriz
    18 de junho de 2017 at 21:49

    Eu adoro as resenhas de vcs. Eu amo ler mas sou exigente com as minhas leituras, e gosto de conferir aqui no blog se já tem resenhado livro antes de comprar. <3
    Fiquei com vontade de ler este!

    • Responda
      Júlia Medina
      19 de junho de 2017 at 17:43

      eba! que bom que deu vontade de ler! super recomendo, o livro é uma delícia de ler ((:

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