LITERATURA

8 livros infantis para ler mulheres desde sempre

Nunca é cedo demais para começar a ler mulheres – seja por conta própria ou ouvindo alguém ler. Quando falamos de livros infantis, é fácil lembrar dos contos de fada clássicos, com suas princesas constantemente salvas por príncipes encantados. Até na literatura brasileira pensamos rápido nos homens: Monteiro Lobato, Ziraldo e Maurício de Souza logo vem à cabeça. Mas a literatura infantil está cheia de escritoras incríveis, conhecidas e premiadas, para todas as idades.

Começar a ler mulheres na infância é uma ótima maneira de incentivar que a criança continue lendo mulheres em outras fases da vida – especialmente porque mulheres são, comprovadamente, uma influência poderosa no gosto pela leitura. Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro, a mãe ou uma responsável mulher é citada por leitores como a maior influência na criação do hábito da leitura. Se nossas mães e outras mulheres foram quem nos incentivaram a cultivar o hábito da leitura, não parece natural ter contato também com livros de autoras mulheres?

Ao selecionar livros para este texto, não fui intencionalmente listando apenas autoras brasileiras, mas o que aconteceu foi que todas as obras são de origem nacional. O que, é claro, faz bastante sentido – algumas dessas mulheres rodearam minha infância e, como qualquer leitor que começou cedo sabe, as histórias que conhecemos nesses primeiros anos podem nos marcar profundamente. Daí a importância de marcar a infância com livros escritos por mulheres. Além da familiaridade, temos um destaque que não é só meu: as mulheres da literatura infantil nacional são reconhecidas e premiadas. Enquanto ainda aguardamos esperançosamente que um brasileiro receba um Nobel de Literatura, já temos dois nomes na lista de escritores vencedores do Prêmio Hans Christian Andersen, o prêmio mais importante da literatura infantil mundial, ambas mulheres: Lygia Bojunga (premiada em 1982) e Ana Maria Machado (premiada em 2000).

Mas, se tudo isso aponta para a presença célebre de mulheres na literatura infantil, por que é que ainda precisamos falar de ler mulheres na infância para que de fato se leia mulheres na infância? É só fazer um teste rápido para ver como, apesar de suas inegáveis existências e incontáveis publicações, as escritoras são sombreadas: ao buscar pelo termo “autores famosos literatura infantil”, o Google nos revela 21 resultados em destaque, dentre os quais apenas cinco são mulheres. Se a busca for pelo termo no feminino, “autoras famosas literatura infantil”, temos então sete mulheres em um total de 23 nomes destacados. Isso não é “só o Google” falando, mas um reflexo do comportamento das pessoas. O caso é que nossas crianças só têm a ganhar lendo mulheres desde cedo. Qualquer um dos livros a seguir pode ser o livro da vida de alguém, aquele que vai marcar o início do gosto pela literatura.

Malala, a Menina que Queria ir Para a Escola, por Adriana Carranca

Talvez você, assim como eu, também já tenha passado pelo choque de ler um livro infantil depois de crescida, aquele sentimento de que aquela história é demasiadamente pesada, triste ou assustadora para ser destinada ao público infantil. Depois de alguns desses estranhamentos, cheguei à conclusão de que a gente subestima um pouco os leitores infantis e se esquece de que, naquela idade, nós não encarávamos as histórias com os mesmos olhos de hoje. Dito isso, por que os livros infantis haveriam de não tratar de temas complexos e não necessariamente felizes? É nessa pegada que está esse livro da jornalista Adriana Carranca, um livro-reportagem que tem como objetivo contar para crianças a história de Malala Yousafzai, que foi baleada por defender a educação feminina. – Compre!

Luna Clara e Apolo Onze, por Adriana Falcão

Luna Clara e Apolo Onze já apareceu por aqui em uma lista de livros de escritoras brasileiras. Mas, acredito que indicar esse livro não pode ser jamais uma redundância e é uma leitura que agrada crianças e adultos, sem limitações de idade. O ritmo fluido típico de Adriana Falcão e as personagens cativantes e cheias de personalidade são atributos perfeitos para captar a atenção das crianças, inclusive em leituras feitas por adultos, em voz alta. A história tem todos os componentes necessários para prender a atenção de pequenos: animais personagens simpaticíssimos, protagonistas crianças e elementos mágicos. Como se não bastasse, esse é ainda um livro que diz que nós podemos fazer coisas, correr atrás de sonhos e descobrir um monte de coisas novas. Adriana Falcão tem mais de 15 obras publicadas, entre literatura infantil, poesia, romances, contos e crônicas. – Compre!

Bisa Bia, Bisa Bel, por Ana Maria Machado

Ana Maria Machado é uma escritora clássica da literatura infantil nacional. Essa mulher é uma máquina: há mais de 40 anos escrevendo, Ana Maria Machado já produziu mais de uma centena de livros e ganhou não apenas uma, mas três vezes o prêmio Jabuti, além de ter recebido, como já dito, o Nobel da literatura infantil. Bisa Bia, Bisa Bel é, assim como a autora, um clássico. A história é a de Isabel, uma garota que encontra um retrato de sua bisavó e, depois de perdê-lo na escola, começa a imaginar que a bisavó fala com ela. É um livro divertido e bem interessante, especialmente para dar aquele senso de que pessoas de idades diferentes são diferentes e de que pensamentos mudam – e tá tudo bem. – Compre!

Paiquerê, o Paraíso dos Kaingang, por Cléo Busatto

Cléo Busatto tem mais de 20 obras publicadas, já foi finalista do Prêmio Jabuti e viaja o Brasil praticando, entre outras coisas, a “contação” de histórias. Em Paiquerê, o Paraíso dos Kaingang, a autora conta três histórias que fazem parte da mitologia dos Kaingang. Além de ser naturalmente atrativo por ser mágico e impressionante, daquele jeito que pode deixar as crianças de olhos arregalados, como toda boa história mitológica é um livro que pode colocar as crianças em contato com algo com o qual nós repetidamente não somos ensinados: a cultura indígena. Além disso, como a autora também atua na “contação” de histórias, esse é um livro que funciona muito bem em voz alta. No mais, Cléo Busatto é a paz que a gente quer dar às novas gerações. Acreditem. (E ouçam a música tema de Paiquerê.) – Compre!

A Fada que Tinha Ideias, por Fernanda Lopes de Almeida

Por mais que tenha ganhado um Jabuti na década de 1970 e seja amplamente lida, sinto que Fernanda Lopes de Almeida ainda não é tão celebrada quanto eu gostaria que fosse, que é muitíssimo. A Fada que Tinha Ideias foi um dos livros que mais marcou a minha vida e é espetacular. A história é a de Clara Luz, uma fadinha espoleta e aventureira, que fazia um milhão de coisas e seguia suas vontades. Em uma entrevista para a Crescer, a autora diz o seguinte sobre a personagem: “Clara Luz, aliás, eu não acho propriamente contestadora e sim, livre. É aquela criança que diz o que pensa, não para desafiar (como muitos a interpretam), mas por achar isso natural. Fica é muito espantada que não se veja o que para ela é tão óbvio”. É uma dessas personagens fortes, queridas e inevitavelmente inspiradoras, em um livro divertido e que prende a atenção. Dá para ter um gostinho assistindo a essa animação feita pela Editora Ática. – Compre!

Na Casa Amarela do Vovô, Joaninja como Jujubas, por Jaqueline Conte

Ao contrário das outras mulheres listadas, Jaqueline Conte está começando sua trilha de publicações nesse mundo da literatura infantil, mas já começou muito bem: Na Casa Amarela do Vovô, Joaninja Come Jujubas é um livro que tem tudo para ser o favorito das crianças. Primeiro porque é um livro de poemas e incentivar a leitura por meio de poesia é um empurrãozinho extra para o nascimento de um leitor – pelo menos, é o que acredito, visto que minha infância foi a época da minha vida em que mais li poesia (e tive Cecília Meireles como rainha incontestável). E depois porque é um livro aberto e interativo: ao lado de cada poema, temos uma folha em branco que convida os pequenos a desenhar e contribuir com a obra à sua maneira. É um livro que estimula não só o gosto pela leitura, mas também a criatividade; além de se tornar um tesouro único a ser guardado por anos e anos como uma memória bonita da infância. Há delicadezas que só podiam mesmo ser criadas pelas mãos (e pela cabeça!) de uma mãe como Jaqueline Conte, que saiu de uma longa carreira jornalística para ingressar no sonho da literatura. – Compre!

A Bolsa Amarela, por Lygia Bojunga

Lygia Bojunga é uma das mais tradicionais autoras da literatura infantil brasileira, com uma trajetória que contabiliza o Prêmio Hans Christian Andersen (tornando-se a primeira premiada fora da Europa ou dos Estados Unidos), três Jabutis e mais um bocado de outras premiações. Pode até ser chover no molhado indicar Lygia Bojunga, mas A Bolsa Amarela é algo que não há como deixar de fora de qualquer lista desse tom. O livro conta a história de Raquel, uma menina que tem três grandes vontades que ela mantém escondidas: a vontade de crescer, de se tornar escritora e de ser um garoto. Ao longo do livro, o leitor acompanha todas as aventuras de Raquel com momentos e personagens divertidos capazes de conquistar o imaginário infantil. A profundidade dessa história não tem fim – uma criança que quer se tornar adulta (!), uma menina que tem vontades e sonhos e é ignorada por ser apenas uma criança (!!), uma menina que preferia ser menino (!!!) – e é possível se desdobrar em reflexões. – Compre!

Procurando Firme, por Ruth Rocha

O site de Ruth Rocha tem uma ferramenta de busca de utilidade pública: é possível filtrar os títulos da autora por tema, idade, personagem e série. Boa dica para quem busca um livro para presentear e não tem ideia do que seria bacana para a criança em questão. O bacana é isso: Ruth Rocha. Com mais de duzentos títulos publicados em uma carreira de mais de cinquenta anos, a autora já tem na conta oito (O-I-T-O) prêmios Jabuti. Procurando Firme é uma excelente escolha para quem vai começar a ler mulheres desde cedo e é uma história de princesas e reinos, um conto de fadas como deveriam ser todos os outros. Nele, a princesa e seu irmão vivem em um castelo de acordo com os costumes do reino: enquanto ele aprende a enfrentar perigos e se prepara para sair pelo mundo, ela é ensinada a bordar, cozinhar e ansiar por um marido. Mas Linda-Flor (esse nome!!!) não quer nada disso; Linda-Flor quer sair pelo mundo, assim como seu irmão. É uma princesa que questiona valores e luta para conseguir o que quer, em uma história que só pode ser celebrada e repassada para crianças de todas as idades. – Compre!

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1 Comentário

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    Ana Beatriz
    16 de outubro de 2017 at 22:21

    Esse post me lembrou de como eu comecei a ler. Quem me deu o primeiro livro que eu li inteirinho, sozinha, foi a minha professora do pré, que me alfabetizou. Eu aprendi a ler de maneira tardia, e ela me ensinou tudo e em alguns meses, também me presenteando com um livro da Ruth Rocha, “Sapo vira rei vira sapo”. Nunca me esqueci disso, sério. Hoje, sou apaixonada por livros. Minha mãe também me influenciou muito, porque ela é professora de litetura.

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