LITERATURA

A revolução dos contos de fadas com A Bela e a Adormecida

Apesar de eu ainda não ter lido todas as obras publicadas por Neil Gaiman (acredite, são muitas) (acredite, estou tentando), ouso dizer que A Bela e a Adormecida entra logo de cara na lista das minhas histórias favoritas escritas pelo autor inglês. O livro tem pouco mais de 70 páginas, é belamente ilustrado por Chris Riddell e faz uma releitura de duas princesas que todo mundo conhece, provocando uma revolução na maneira com a qual encaramos contos de fadas.

Aviso: este texto contém spoilers!

A trama de A Bela e a Adormecida, livro lançado pela Editora Rocco em 2015, é sombria e fascinante, bem ao gosto de Gaiman. Nessa história somos apresentadas à uma jovem rainha que, na véspera de seu casamento, é informada de que uma estranha maldição vem assolando o reino fronteiriço ao seu fazendo com que todos os seus habitantes caiam em sono profundo. Sem pensar duas vezes, a rainha deixa para trás seu belo e elegante vestido de casamento, seu príncipe prometido e parte por túneis com o objetivo de romper o feitiço e libertar o povo adormecido. A rainha veste sua armadura e espada e, na companhia de três anões, inicia uma viagem que a leva a uma surpreendente descoberta.

Logo no início já percebemos o que há de diferente nessa trama. Dessa vez não é um príncipe montado em um cavalo branco que parte heroicamente para salvar o reino subjugado. Dessa vez não somente é uma personagem feminina como também uma rainha dona de sua própria vontade e destino. Há um viés totalmente feminista nessa história quando a trama nos mostra uma mulher salvando outra, praticamente ensinando o leitor que, sim, nós, mulheres, podemos e devemos nos ajudar ao invés de competir (que é algo que a mídia pop vive jogando pra cima da gente).

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Essa é uma história sobre uma rainha que está incerta com relação ao casamento e que parte em uma aventura procurando por algo maior em sua vida do que ser simplesmente esposa, ainda que seja, também, rainha. É uma história sobre uma mulher que, ao se deparar com um problema, procura os meios para resolvê-lo ela mesma no lugar de ficar sentada esperando que um homem tome a frente – o que é algo bastante comum em contos de fadas. Quantas são as histórias em que princesas indefesas esperam ser salvas por um príncipe montado em um cavalo branco?

A Bela e a Adormecida é uma releitura de dois contos de fadas – A Branca de Neve e A Bela Adormecida – e mostra por meio dessa nova alegoria que meninas também podem ser as heroínas de suas próprias histórias. E isso é importantíssimo e uma grande mudança de cenário. Enquanto nos contos “tradicionais” o príncipe salva a princesa como forma de ganhá-la como prêmio (não consigo me lembrar de pelo menos uma história em que o desfecho não seja o casamento entre o salvador e a resgatada), aqui vemos o verdadeiro significado do heroísmo. A rainha não está interessada em outro prêmio que não seja a libertação do povo adormecido, não há outro motivo para ela embarcar nessa aventura que não ajudar a princesa adormecida e por poder fazê-lo.

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Outro ponto importante da trama tem relação direta com o beijo que quebra a maldição do sono. Ainda que não se trate, exatamente, de um relacionamento lésbico visto que não há interesse romântico por parte de nenhuma das moças no momento do beijo, ou posteriormente a ele, é significativo que em uma história de contos de fadas exista uma cena como essa. Não é meu lugar de fala debater sobre como a comunidade LGBT receberá essa história, mas penso no significado marcante para crianças (sejam elas LGBT, com pais LGBT ou de qualquer jeito que sejam) verem e entenderem que não há o menor problema em um beijo entre pessoas do mesmo sexo. Ouvir falar sobre relacionamentos homossexuais é uma coisa, mas é uma coisa totalmente diferente vê-lo representando, ainda que não de maneira profunda, em uma história de heroísmo e valentia. A representação é importante e faz toda a diferença.

Não há personagens masculinos na trama, com exceção dos anões. A muralha que contorna o castelo onde dorme a princesa está forrada com espinhos, rosas e os esqueletos dos heróis que tentaram quebrar a maldição antes da rainha. Ela, por ter dormido por um ano em seu caixão de cristal, é a única pessoa não afetada pela maldição do sono e os anões, enquanto seres mágicos, também passam praticamente ilesos pelo feitiço. É interessante notar como, dessa vez, a única detentora do poder necessário para despertar um reino inteiro é justamente aquela que já foi submetida a uma maldição similar.

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Pessoalmente, adoro contos de fadas. Cresci assistindo às versões da Disney e depois, quando pude, procurei os originais mais sombrios e assustadores, como os dos irmãos Grimm. Contos de fadas nada mais são do que parábolas, pequenas histórias que costuram em suas tramas ideias de moral e comportamento. Por isso é sempre interessante ver os contos clássicos em novas roupagens, abordando temas e costumes da nossa própria época. Em um período de tempo em que podemos ser feministas e lutar por aquilo que acreditamos, é imprescindível que nossas mídias populares acompanhem esse ritmo e que os livros (filmes, quadrinhos, séries, enfim, o que for) possam refletir aquilo com o que lidamos enquanto sociedade mesmo que as narrativas se passem em um reino mágico onde dormir para sempre é possível e uma princesa pode ser acordada por meio do beijo de uma rainha.

A Bela e a Adormecida não é um conto de fadas com desfecho previsível e, muito pelo contrário, tem uma das melhores reviravoltas de roteiro que já li em história desse gênero. É um livro sombrio, excitante e um pouco assustador, mas tudo vem belamente amarrado pela habilidade que Neil Gaiman tem de contar histórias e de Chris Riddell de ilustrar. Enquanto os leitores mais velhos de Gaiman podem até sentir falta de um desenvolvimento mais aprofundado dos personagens, os leitores mais jovens poderão saborear uma trama que eles pensam conhecer mas que termina do jeito mais inesperado possível.

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