Arquivo Mensal

setembro 2017

CINEMA MÚSICA

Stefani Coração de Diamante: a vulnerabilidade de Lady Gaga

“I might not be flawless but you know I got a diamond heart” [Eu posso não ser perfeita, mas você sabe, eu tenho um coração de diamante] diz o refrão da primeira faixa de Joanne, álbum mais recente de Lady Gaga, lançado ano passado. Embora pareça uma declaração simples – afinal, poucas pessoas além de Beyoncé podem se dizer infalíveis sem gaguejar – essa confissão de humanidade surpreende quando olhamos para quem é que está falando. Minha sequência favorita de Five Foot Two, mais recente documentário sobre a cantora, é uma montagem de vários momentos que mostram Gaga tentando entrar ou sair do carro rodeada por uma horda de fãs, usando seus figurinos marcantes, óculos escuros, perucas absurdas – lembro que, quando ela surgiu, em 2009, sua figura era tão imponente, impenetrável e desconcertante que eu tinha dificuldades até de assimilar como era seu rosto de verdade – intercalada com a filmagem de Gaga encontrando fãs ano passado, pouco antes do lançamento do disco: de short jeans, camiseta branca e delineador borrado, a cantora dá autógrafos e tira fotos com todos, mas seu olhar é vazio. Dá pra ver bem o seu rosto, e ele mostra que ela está perto de ter um ataque de pânico.

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CINEMA

Entendendo a romantização de transtornos mentais na ficção: o caso de Shangri-La Suite

No ano passado, a Obvious Mag publicou um texto que buscava discutir a romantização de transtornos mentais em diferentes obras do cinema mainstream. As Virgens Suicidas, Garota, Interrompida e o Lado Bom da Vida eram algumas das produções citadas pela autora, Raquel Avolio, cuja similaridade estava ligada ao fato de todas, em maior ou menor escala, tratarem a depressão, o suicídio, distúrbios alimentares, a ansiedade e o sofrimento de seus personagens como algo fascinante. Meninas adolescentes, para as quais a tristeza havia sido fatal, são retratadas com graciosidade, beleza e muitos tons pastéis, enquanto hospitais psiquiátricos transformam-se em lugares aconchegantes onde garotas cantam e tocam violão escondidas de madrugada, quase como se o diagnóstico as tornassem mais complexas e interessantes, e suas jornadas, invariavelmente mais poéticas.

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INTERNET LITERATURA

“É por isso que eu amo a internet” – Jenny Lawson e seu movimento alucinadamente feliz

Quando compartilhamos nossas batalhas, outras pessoas reconhecem que podem compartilhar as suas. E, de repente, percebemos que as coisas que nos envergonhavam são as mesmas que todo mundo enfrenta uma hora ou outra. Estamos muito menos sós do que pensamos.

É isso o que Jenny Lawson, autora do livro Alucinadamente Feliz e blogueira no The Bloggess, fala a respeito de limites na escrita. Jenny tem transtorno de ansiedade, depressão e síndrome do pânico, e uma incrível habilidade para a escrita que a faz sobreviver num mundo que alerta todos seus gatilhos dia após dia.

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LITERATURA

Vulcões iminentes: as personagens limítrofes de Elena Ferrante

Delia é uma mulher de 45 anos que vivencia uma crise de identidade após a perda da mãe: “Minha mãe se afogou na noite de 23 de maio, dia do meu aniversário”. Por conta disso, retorna a Nápoles, cidade onde cresceu e que agora parece um campo minado de lembranças dolorosas. Nos arredores do bairro e nos cantos do apartamento onde viveu, o passando avança sobre o presente. Tragada pelo embate entre fantasia e realidade, Delia se vê em busca de um acerto de contas com a mãe e também consigo mesma.

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CINEMA

God help the girl, she needs all the help she can get

God Help the Girl

Quando God Help the Girl estreou em 2014, lembro ter escavado a internet para encontrar o filme para assistir – algo que não podemos recomendar por motivos legais, mas que todas nós sabemos como fazer. Na ocasião, meu principal incentivo para assistir ao filme era a Emily Browning, minha atriz favorita que ocupa o papel principal. Contudo, o que fez God Help the Girl escalar a lista dos meus favoritos foi a história sensível, narrada entre músicas, de uma garota tentando vencer seus transtornos.

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ENTREVISTA INTERNET LITERATURA

De frente com Valkirias: Kathryn Ormsbee fala sobre assexualidade, internet e Anna Karienina

Em agosto, falamos aqui do incrível Tash e Tolstói, romance young adult que reúne em uma só história uma personagem assexual, uma discussão interessante sobre as intersecções entre nossas vidas online e offline – coisa ainda rara no universo da literatura para adolescentes – e um papo nada novo sobre a importância de sermos honestos com nossos sentimentos. Tudo isso acontece quando Tash, a protagonista, vê sua websérie, uma adaptação moderna de Anna Karienina, viralizar na internet e enfrenta mudanças importantes com o fim do ensino médio e novas dinâmicas familiares. Assim como na vida, tudo acontece ao mesmo tempo agora, e que o livro consiga ser leve, divertido, com personagens complexos e interessantes é muito mérito da autora, a norte-americana Kathryn Ormsbee.

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