Arquivo Anual

2017

ESPORTE

O caso Robinho e a diferença entre a voz e o silêncio

Vivemos agora em um mundo onde, todos os dias, desmascaramos homens abusadores da indústria do entretenimento. Desde a primeira acusação ao produtor Harvey Weinstein até a decisão da Time de dar o título de Pessoa do Ano às silence breakers (quebradoras do silêncio, em tradução livre), grupo de pessoas — mulheres, em sua maioria — que em 2017 falaram e agiram em relação a casos de assédio e abuso sexual, é muito difícil ficar um dia inteiro sem que um homem seja denunciado por assédio graças às sobreviventes que estão vindo à tona. Esse movimento tem representado uma grande corrente de apoio e voz para mulheres, principalmente para aquelas que ainda não têm coragem ou condições de vir à público.

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TV

Stranger Things 2 – Uma temporada totalmente tubular

Stranger Things

Mil novecentos e oitenta e quatro, e estamos de volta à cidade de Hawkins, Indiana, cerca de um ano após os surreais acontecimentos que atormentaram a vida de seletos habitantes da cidade e jogaram por terra seu ceticismo perante criaturas monstruosas e universos paralelos. Previously in Stranger Things, acompanhamos Mike (Finn Wolfhard), Dustin (Gaten Matarazzo) e Lucas (Caleb McLaughlin) na busca por Will (Noah Schnapp), que desapareceu misteriosamente em uma noite após uma sessão de RPG. O que eles não sabiam é que o monstro antes enfrentado exclusivamente num tabuleiro se tornaria tão real que acabaria envolvendo as pessoas mais próximas e as autoridades locais e do mais alto escalão – porque, em plena Guerra Fria, experimentos laboratoriais que desafiavam leis da física e morais éticas estavam sendo conduzidos por baixo dos panos, o que resultou em Eleven (Millie Bobby Brown), uma menina com poderes telecinéticos que se tornaria uma peça crucial na missão de resgate e também o primeiro indício de uma trama de maior complexidade. Ao final da primeira temporada, vemos que o resgate de Will não foi o desfecho dessa série de coisas estranhas que aconteceram na cidade – ele era só a conclusão do prólogo que narra a ligação do mundo que conhecemos com um mundo deveras Invertido. Continue Lendo

TV

Nathalia Timberg ou o tormento do ideal

Nathalia Timberg

Um dos meus passatempos favoritos é olhar para o rosto de Nathalia Timberg e tentar desvendar o que há por trás dele. Apesar de ter acompanhado de perto por diversas vezes o espectro de sensações pelas quais suas expressões faciais passam, nunca consegui descobrir o mistério. No fim das contas, a questão não é essa, eu acho. A questão é o que o rosto dela nos causa. Se você tomar como exemplo a chamada de sua última novela, O Outro Lado do Paraíso, dá para entender o que ela continua causando nos outros. Muitas pessoas, na época das primeiras chamadas da novela de Walcyr Carrasco, ficaram surpresas pelo fato de que seu rosto praticamente contava a história de sua personagem. Já para mim, o rosto dela conta uma história de resistência, de uma mulher que permanece, aos 88 anos, fiel à sua arte. Tão fiel que neste ano ela está em cartaz pelo Brasil, de maneira quase independente, com uma peça de teatro sobre Chopin, um projeto no qual ela investiu todas as suas forças, inclusive pleiteando o patrocínio sozinha. Já é difícil fazer arte no Brasil, imagine se você é mulher e idosa. Ao lado de Laura Cardoso, e tantas outras damas, ela ressignifica o que é ser atriz e mulher.

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LITERATURA

No Seu Pescoço, no meu pescoço, nos nossos pescoços

No seu pescoço

No Seu Pescoço, primeiro livro de contos da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie foi, coincidentemente, o primeiro livro da autora que eu li. Não por falta de vontade, mas por falta de energia para investir na área literária em geral, e – vamos admitir – por aquele medo nosso de cada dia de sair da zona de conforto. Eu tinha medo do desconforto, eu tinha medo de não me acostumar imediatamente a um estilo literário que eu nem sabia qual seria. Era um ponto importante demais para arriscar sem tremer.

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MÚSICA

Reputation: Taylor Swift em curto-circuito

“Aqui jaz a reputação de Taylor Swift”, é o que aparece escrito numa lápide na abertura de “Look What You Made Me Do”, primeiro clipe da era reputation. A música é talvez a pior do novo álbum – alguns vão longe o bastante para declará-la a pior de sua carreira –, mas tem em si a chave para sua nova era, sendo a escolha perfeita para marcar o retorno da artista à vida pública depois do escândalo envolvendo o casal Kardashian-West e a onda de ataques na internet, que tiveram como consequência um ano em que Taylor Swift basicamente sumiu. Com letra caricata e sonoridade estranha, “Look What You Made Me Do”, tanto música quanto clipe, carrega duas mensagens importantes.

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TV

Supergirl: As palavras têm poder

Um dos argumentos mais comuns usados por fanboys machistas, racistas e homofóbicos de quadrinhos para defender sua posição é o de fidelidade à fonte e coerência dentro do universo. Thor mulher? Fãs machistas de quadrinhos vêm gritar que o Thor sempre foi homem e por isso precisa continuar sendo. Homem-Aranha negro? Fãs racistas de quadrinhos vêm gritar que o Homem-Aranha sempre foi branco e por isso precisa continuar sendo. E, apesar do universo de adaptações de quadrinhos estar se tornando mais diverso em seus personagens e diretores – Mulher-Maravilha (dirigido por Patty Jenkins e lançado em 2017), Pantera Negra (dirigido por Ryan Coogler, com lançamento previsto para 2018), Thor: Ragnarok (dirigido por Taika Waititi e também lançado em 2017) são exemplos marcantes –, não é sempre possível contar com isso: a Sony, por exemplo, tem até um documento garantindo que o personagem Homem-Aranha será sempre branco e heterossexual nas adaptações cinematográficas, enquanto a adaptação do Hulu dos quadrinhos The Runaways colocou uma atriz magra para fazer o papel da personagem gorda Gert (mostrando que negar o cânone do texto-fonte é considerado irrelevante se é para encaixar uma personagem nos padrões estéticos da televisão).

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